Jan 30, 2009
Os marginais do reino Hamas
Repressão, interrogatórios, espancamentos, tiros. É o que contam do Hamas os militantes que não são do Hamas. Histórias de um território degradado pela ocupação israelita e pela guerra. Jihad, socialista filho de socialista, tem um apelo: “Pedimos à comunidade internacional que nos ajude a sair deste dilema.”
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, em Gaza
Gaza tem uma cor nos céus: verde-Hamas. Nos candeeiros, nos postes, nas casas, essa é a bandeira, ao longo das estradas e no meio da cidade. De vez em quando avista-se também a bandeira multicolor palestiniana, e é tudo.
E é um sinal do que está a acontecer desde que o Hamas tomou o poder, há um ano e meio.
Os militantes de outros partidos contam histórias de repressão violenta. A Fatah de Arafat, que nem há cinco anos tinha a sua bandeira amarela por toda a parte em Gaza, parece ter-se eclipsado. Entrou numa clandestinidade de muitos milhares.
É o caso de Mohammed.
Para chegar a ele é preciso ir com homens da sua confiança através de um labirinto de ruelas, em Jabaliya, no Norte de Gaza.
Jabaliya é um nome mítico para os palestinianos, porque foi aqui que rebentou a Primeira Intifada, em 1987. Dezenas de milhares de pessoas divididas entre Jabaliya-cidade, menos pobre, e Jabaliya-campo-de-refugiados.
Na Jabaliya pobre há um improvisado Café Internet que pertence a Mahmud, 22 anos, um convicto partidário da Fatah. Mahmud conhece a família de Mohammed e oferece-se para levar lá o P2, enquanto não há electricidade. “Tenho que fechar o café sempre que não há electricidade.” O que tem sido a maior parte do tempo, desde a guerra.
“O Hamas diz que é democrático, mas usou força e tortura contra os palestinianos”, vai dizendo Mahmud pelo caminho, entre solavancos de cimento e terra batida. “Um dos meus amigos perdeu as pernas. Alvejaram-no e ele teve de ser amputado, porque era da Fatah, e trabalhava nas forças da segurança presidencial.”
O Hamas ganhou democraticamente as eleições legislativas palestinianas em Janeiro de 2006 – não só em Gaza, em todos os territórios. Formou um governo de unidade nacional, mas a tensão com a Fatah e com a comunidade internacional nunca se resolveu. A própria Fatah estava corroída por tensões entre as facções internas, que se responsabilizavam mutuamente pela humilhação da derrota. Diplomatas e políticos estrangeiros não falavam com o Hamas, listado como organização terrorista. Gaza começou a ficar violenta, com raptos e assassinatos, que o Hamas – mas também a generalidade da população – atribuía a Mohammed Dahlan, o poderoso responsável pelo aparelho de segurança da Fatah. Até que em Junho de 2007 o Hamas tomou o poder em Gaza, depois de confrontos que fizeram mais de 100 mortos. Sem terem um estado, os palestinianos passaram a ter dois governos, um em Ramallah, nomeado pelo presidente Mahmoud Abbas e chefiado por Salam Fayyad, e outro em Gaza, chefiado por Ismail Hanyieh, do Hamas.
“Aqui não há liberdade, não é uma democracia”, continua Mahmud. Que pensa ele dos “rockets” que o Hamas lançou para Israel? “São inúteis.”
Durante a Segunda Intifada, a partir de 2000, Jabaliya era também um forte bastião das Brigadas Al Aqsa, ligadas à Fatah. Em 2002, o Público viu neste campo de refugiados militantes da Fatah equipados com armas, granadas, cintos de explosivos e bombas caseiras. Tudo isso parece desaparecido. “Toda a gente que tinha uma arma teve que a entregar ao Hamas”, diz Mahmud. “Os militantes que eram das brigadas Al Aqsa são vigiados.” E, ruela a ruela, não se vê um único homem armado, o que antes era uma visão comum.
“Eu fui interrogado duas vezes pelo Hamas”, conta Mahmud. “E fui espancado. Bateram-me com paus na estação de polícia de Jabaliya. Era o dia do aniversário da morte de Yasser Arafat e eu estava a vir da manifestação em sua memória quando me prenderam. Só nos queriam humilhar.”
O carro dobra agora uma esquina com um mural em que foi pintada a cara de um rapaz muito jovem. “Ele foi morto na mesma altura em que me prenderam.”
E, de repente, desembocando numa espécie de terreiro entre prédios, uma bandeira amarela da Fatah. Agora é preciso ir a pé, porque os caminhos são estreitos. Areia e pedras. Placas de zinco a proteger os casebres. Aqui é onde Jabaliya é mais pobre.
A vingança
Dois irmãos, ambos estudantes, guiam Mahmud e o P2 até à casa de Mohammed. Cá fora, crianças descalças, lá dentro uma sala cheia de homens sentados, um poster das Brigadas Al Aqsa, um autocolante do presidente Abbas na porta.
A porta fecha-se e volta a abrir-se para deixar entrar um homem numa cadeira de rodas. Eis Mohammed, que não quer o apelido no jornal. É magro, esquálido, de barba negra. Os pés pendem como bocados soltos. “Levei 15 tiros, um na mão, um no peito e 13 nas pernas.” Aconteceu durante os confrontos quando o Hamas tomou o poder? “Não, há seis meses.” Mais exactamente, em Julho de 2008, depois de vários membros do Hamas terem morrido numa explosão que o Hamas atribuiu a sabotagem da Fatah.
“Eu trabalhava para os serviços de informação da Autoridade Palestiniana, não estava nos grupos armados. Era uma sexta-feira e tinha ido rezar à mesquita. Quando voltava, a pé, vi um carro com quatro homens de cara coberta e sinais das Brigadas Al Qassam.” A ala armada do Hamas. “Vieram em direcção a mim, saíram, apontaram-me a arma e disseram-me para entrar no carro.” As ruas estavam desertas, conta Mohammed. “Agarraram-me, vendaram-me e levaram-me para dentro do carro. Bateram-me com o cabo da arma.”
De que o acusavam? “De organizar reuniões ilegais da Fatah, e de ter contactos com Ramallah. Quando chegámos a uma zona ao pé da praia, tiraram-me à força do carro e um deles começou a disparar para as minhas pernas.”
Arregaça as calças para mostrar as pernas reduzidas a pele e osso, cobertas por cicatrizes e manchas. “Deixaram-me a sangrar, e não se foram embora, para ter a certeza de que eu não tinha assistência. Isto durou uns 15 minutos. Depois foram embora. Eu tinha o meu telemóvel, telefonei para uma ambulância. Foi um milagre ser salvo, precisei de tanto sangue. Estive em coma dois meses no Hospital Al Shifa.” O maior de Gaza. “E fui transferido para Israel.”
Ouve-se um bebé aos gritos noutro quarto.
Mohammed acha que o que lhe aconteceu foi uma vingança. “Eles queriam castigar alguém pela explosão que matara gente deles.” Mas além disso acha que Gaza vive em repressão. “Isto é uma ditadura. Não nos podemos mexer, somos acusados de ser traidores por Israel.”
Os “rockets” lançados contra Israel antes e durante a guerra “são uma estratégia do Hamas para não perder a cara”. “É só para os media, para dizerem que existem. Muitos caíram em cima de palestinianos.” E fora do Hamas ninguém tem armas, assegura. “Toda a gente com uma arma pode ser alvejada.”
Que fazer agora? “Tem que ser formado um governo de unidade nacional.” Unidade? Está Mohammed disposto a perdoar ao Hamas? “Perdoaria, a troco de esperança, para outros viverem.”
Bandeira vermelha
Bem para sul, em Khan Yunis, há um conjunto de casas onde de repente se avista, não uma, mas duas bandeiras vermelhas.
É a cor da PFLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina), um movimento marxista fundado por George Habash em Dezembro de 1967, seis meses depois de Israel ter ocupado a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental.
Nascido numa família cristã ortodoxa, Habash – que morreu exactamente há um ano, na Jordânia – foi durante décadas um rival de Yasser Arafat.
Era no tempo em que grande parte da militância palestiniana contra a ocupação israelita era laica e socialista.
O Hamas, então, representava uma minoria.
Hoje, a causa palestiniana não avançou, regrediu territorialmente, e os sinais de devoção islâmica generalizaram-se. É raro ver uma mulher adulta em Gaza com a cabeça descoberta.
Mas nesta rua dos arredores de Khan Yunis uma família mantém-se orgulhosamente laica e socialista, a família de Abu Jihad Shain.
Abu Jihad quer dizar “pai de Jihad”. Depois de serem pais, muitas vezes os palestinianos passam a ser conhecidos como pais do seu filho mais velho. E o filho mais velho de Abu Jihad é este rapaz sorridente chamado Jihad, que aparece com um amigo mal ouve o carro.
Vão logo buscar cadeiras de plástico, e café, com bule e chávenas – a hospitalidade tradicional, no meio da rua, num bairro que ainda na véspera foi bombardeado, depois da morte de um soldado israelita.
Jihad estuda administração na Universidade Al Azhar de Gaza, a rival da Universidade Islâmica, ligada ao Hamas. “Somos uma família socialista, que luta por um estado socialista e contra o isolamento e a segregação”, começa ele. “A PFLP ensinou-nos a estarmos ao lado do nosso povo nas noites mais escuras.”
Que relações têm com o Hamas? “Poucas. O Hamas é unilateral em Gaza, não partilha as decisões. É uma forma de ditadura. Não há liberdade para darmos a nossa opinião, não podemos levantar a voz.”
E isto não se aplica apenas aos militantes de outros partidos, diz Jihad. “Há um estado de medo na comunidade, de receio de falar, porque se é considerado ateu.”
Ser cristão, por exemplo, não é visto de forma estranha, e há uma tradição de comunidades cristãs em Gaza, que têm escolas onde filhos de muçulmanos estudam. Mas ser ateu pode ser mais incompreensível.
Jihad não se define como ateu. “Acredito em Deus, toda a gente aqui acredita em Deus, mas não sou religioso.”
Há dias, Louis Michel, responsável da União Europeia pela ajuda humanitária, insistiu em chamar terrorista ao Hamas, durante a visita que fez a Gaza.
Com isto, Jihad não concorda. “O Hamas não é terrorista porque todas as acções que faz têm a ver com os palestinianos. E uma prova de que não é terrorista é que você está aqui a fazer o seu trabalho.” O problema do Hamas, diz é a repressão das outras facções.
Exemplos? “Em Novembro fomos a funeral de um combatente da PFLP. As brigadas Al Qassam [do Hamas] cercaram-nos e queriam prender gente. Não conseguiram porque a multidão nos rodeou e protegeu.”
Gaza está pior desde que o Hamas tomou o poder?
Amar, o amigo, que também pertence à PFLP e tem estado a ouvir em silêncio, responde antes: “Claro que está pior. Antes os palestinianos não lutavam entre si.” Quem criou a divisão? “O Hamas e a Fatah, ambos. E o que aconteceu levou a muitas mortes, prisões, tortura, de um lado e do outro.” Como se sente Amar? “Sem liberdade. Não posso exprimir a minha opinião. Sou conhecido aqui por falar e vigiam-me. Até as minhas chamadas são ouvidas.”
Jihad tem um apelo a fazer: “Pedimos à comunidade internacional que nos ajude a sair deste dilema. Que organizem uma conferência, que façam um governo de unidade, e que depois haja eleições.”
A culpa da guerra, diz, é de Israel mas também do Hamas. “E é por isso que apelo. Sentimo-nos miseráveis. Centenas de pessoas foram mortas, muitas casas ficarem destruídas, e não vejo que se tenha conseguido alguma coisa com esta guerra.”
(publicado a 30 de Janeiro, na edição impressa do Público)
Viagens com bolso
Crónica
Al Zahra City, 6º andar
Não há correio em Gaza (obrigada a quem quis enviar pilhas e livros). Muitas moradas nem têm endereço. Para chegar a casa de Ayman, por exemplo, é assim: Al Zahra City, prédio da farmácia, 6º andar.
Al Zahra City não é uma cidade. É um conjunto de prédios que foi construído num terreno vazio a sul da Cidade de Gaza. Vazio porque o colonato israelita de Netzarim ficava ali perto, com os seus telhadinhos vermelhos, os seus barbecues e o seu arame farpado.
Quando os colonos saíram, à força e aos gritos, a construção avançou no baldio ao lado e dois anos depois Ayman mudou-se com a mulher, Heba, e as três filhas, Lulu, Mimi e Nunu, para um dos apartamentos no 6º andar por cima da farmácia.
Não é como se tudo já estivesse pronto a habitar, mas em Gaza é difícil as coisas parecerem prontas a habitar.
No prédio da farmácia, as escadas não têm vidros, o que no Inverno faz mesmo diferença, e é preciso subir pelas escadas porque o prédio não tem elevador. Velhos, crianças com mochilas, mães com bebés, toda a gente sobe a pé. E às escuras, sempre que não há electricidade e é de noite.
Durante a guerra foi como se fosse sempre de noite.
Durante 22 dias, Ayman e as meninas dormiram no chão da cozinha, o ponto mais interior. Logo no primeiro dia da guerra, o exército israelita fez explodir um edifício governamental entre os prédios de Al Zahra City e passou a haver um monte fumegante de ruínas a 200 metros da farmácia. Os vidros rebentaram nas janelas e foram encontrados bocados de corpos atrás do prédio de Ayman.
A partir daqui, Al Zahra City fechou-se em casa. Em alguns dias, Ayman e as meninas mal se levantavam do chão. Nunu, que só tem sete anos, escondia a cabeça na barriga do pai. Nenhuma delas gritou.
Um dia houve um “boom” no quarto de Ayman e Heba. Ela foi a correr e viu um buraco do tamanho de um punho ao lado da cabeceira. Ayman encontrou o projéctil no chão e mostrou-mo no dia em que eu cheguei. Achou que tinham tido sorte. Era só calibre 250 mm, quando podia ser calibre 800 mm, daqueles que atravessam várias paredes. Tem o tamanho da minha mão.
O outro “souvenir” de Ayman é mais pequeno, e curvo, como um bico de pássaro. Foi no primeiro dia em que ele teve mesmo de descer à rua, porque já não havia água. Quando desceu os seis andares e atravessou a porta sentiu o sol no corpo, ao fim de tantos dias. Aquilo foi tão forte que ele se sentou por um momento num tijolo à porta, virado para o sol. E foi então que ouviu um zumbido e um tijolo a partir-se. Quando abriu os olhos os vizinhos estavam a dizer que tinha sido um milagre. Apanhou a bala, meteu-a no bolso e levou água para cima.
Na segunda vez em que saiu, foi para sul em busca de comida, com mais três vizinhos para não ser tão assustador. Os palestinianos nunca dizem que têm medo. Ayman diz que tem medo mas posso lembrar-me de duas vezes em que, debaixo de fogo, ele simplesmente baixou a cabeça, mantendo as mãos no volante, e guiou firmemente dali para fora.
No dia em que cheguei a farmácia ainda não estava aberta e continuou fechada, mas já havia electricidade seis horas em cada 24, e na segunda noite voltou a Internet. As meninas prepararam as fardas às risquinhas e as golas de renda para irem à escola. Heba fez compota de laranja e de morango. Há um pequeno pomar em Al Zahra City, e os morangos de Gaza são mesmo bons.
(publicado na edição impressa de hoje do Ípsilon)
Al Zahra City, 6º andar
Não há correio em Gaza (obrigada a quem quis enviar pilhas e livros). Muitas moradas nem têm endereço. Para chegar a casa de Ayman, por exemplo, é assim: Al Zahra City, prédio da farmácia, 6º andar.
Al Zahra City não é uma cidade. É um conjunto de prédios que foi construído num terreno vazio a sul da Cidade de Gaza. Vazio porque o colonato israelita de Netzarim ficava ali perto, com os seus telhadinhos vermelhos, os seus barbecues e o seu arame farpado.
Quando os colonos saíram, à força e aos gritos, a construção avançou no baldio ao lado e dois anos depois Ayman mudou-se com a mulher, Heba, e as três filhas, Lulu, Mimi e Nunu, para um dos apartamentos no 6º andar por cima da farmácia.
Não é como se tudo já estivesse pronto a habitar, mas em Gaza é difícil as coisas parecerem prontas a habitar.
No prédio da farmácia, as escadas não têm vidros, o que no Inverno faz mesmo diferença, e é preciso subir pelas escadas porque o prédio não tem elevador. Velhos, crianças com mochilas, mães com bebés, toda a gente sobe a pé. E às escuras, sempre que não há electricidade e é de noite.
Durante a guerra foi como se fosse sempre de noite.
Durante 22 dias, Ayman e as meninas dormiram no chão da cozinha, o ponto mais interior. Logo no primeiro dia da guerra, o exército israelita fez explodir um edifício governamental entre os prédios de Al Zahra City e passou a haver um monte fumegante de ruínas a 200 metros da farmácia. Os vidros rebentaram nas janelas e foram encontrados bocados de corpos atrás do prédio de Ayman.
A partir daqui, Al Zahra City fechou-se em casa. Em alguns dias, Ayman e as meninas mal se levantavam do chão. Nunu, que só tem sete anos, escondia a cabeça na barriga do pai. Nenhuma delas gritou.
Um dia houve um “boom” no quarto de Ayman e Heba. Ela foi a correr e viu um buraco do tamanho de um punho ao lado da cabeceira. Ayman encontrou o projéctil no chão e mostrou-mo no dia em que eu cheguei. Achou que tinham tido sorte. Era só calibre 250 mm, quando podia ser calibre 800 mm, daqueles que atravessam várias paredes. Tem o tamanho da minha mão.
O outro “souvenir” de Ayman é mais pequeno, e curvo, como um bico de pássaro. Foi no primeiro dia em que ele teve mesmo de descer à rua, porque já não havia água. Quando desceu os seis andares e atravessou a porta sentiu o sol no corpo, ao fim de tantos dias. Aquilo foi tão forte que ele se sentou por um momento num tijolo à porta, virado para o sol. E foi então que ouviu um zumbido e um tijolo a partir-se. Quando abriu os olhos os vizinhos estavam a dizer que tinha sido um milagre. Apanhou a bala, meteu-a no bolso e levou água para cima.
Na segunda vez em que saiu, foi para sul em busca de comida, com mais três vizinhos para não ser tão assustador. Os palestinianos nunca dizem que têm medo. Ayman diz que tem medo mas posso lembrar-me de duas vezes em que, debaixo de fogo, ele simplesmente baixou a cabeça, mantendo as mãos no volante, e guiou firmemente dali para fora.
No dia em que cheguei a farmácia ainda não estava aberta e continuou fechada, mas já havia electricidade seis horas em cada 24, e na segunda noite voltou a Internet. As meninas prepararam as fardas às risquinhas e as golas de renda para irem à escola. Heba fez compota de laranja e de morango. Há um pequeno pomar em Al Zahra City, e os morangos de Gaza são mesmo bons.
(publicado na edição impressa de hoje do Ípsilon)
Jan 29, 2009
Um míssil entre duas escolas, dois rockets populares
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, em Gaza
O buraco do míssil israelita está no asfalto, numa rua movimentada, frente a um hospital e entre duas escolas, uma à direita, outra à esquerda. Foi por isso que hoje, quando as forças israelitas quiseram matar um militante do Hamas — em retaliação pela morte de um soldado israelita — acabaram por ferir seis crianças, além de um homem.
“Eram umas 11 e meia da manhã”, conta Bassam, de 35 anos, que está na loja em frente ao buraco. O militante do Hamas ia a passar numa mota quando o míssil lhe acertou, ferindo quem estava mais perto. Na rua ainda há restos de sangue.
“As minhas portas caíram e os meus frigoríficos ficaram destruídos”, diz Bassam, mostrando os destroços.
Esta é uma das ruas comerciais do campo de refugiados de Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza. A explosão do lado israelita da fronteira — que na terça-feira matou um soldado e feriu três — aconteceu não muito longe daqui. Israel contra-atacou, alvejando um militante do Hamas, e além dele matou um agricultor. Na madrugada de quarta, bombardeou os túneis de Rafah que vão dar ao Egipto. O míssil nesta rua foi a terceira resposta, depois de Israel ter avisado os habitantes que ia proceder em breve à operação Flor Vermelha.
Entretanto, dois rockets foram lançados para o lado israelita, sem ferir ninguém. Um deles foi atribuído às Brigadas Al Aqsa, ligadas à Fatah, e o outro a um pequeno grupo islâmico. Eram rockets muito artesanais, sem o alcance dos do Hamas. Mas sejam de quem for, estes rockets têm aprovação popular. “É natural, porque vivemos sob ocupação e devemos resistir”, diz Bassam. E em volta, mais vozes. “Queremos mais rockets”, diz um. “Queremos rockets até abrirem as fronteiras de Gaza”, diz outro.
Que conseguiram os rockets, além de terem sido argumento para uma guerra devastadora? “Pelo menos afirmam os nossos direitos, é uma forma de a nossa causa não ser esquecida”, diz Bassam.
Os feridos foram para o Hospital Nasser, que fica do outro lado da rua. Os mais graves estão na cirurgia. Abdelmajid é dos menos graves e por isso está numa camarata sem qualquer aparelho nem pessoal médico, simplesmente deitado em cima de um colchão, com as duas pernas ligadas. Foi ferido por estilhaços. A mãe, de cara completamente tapada, conta que ele vinha da escola quando o míssil caiu.
Atravessando de novo a rua para a escola da esquerda, uma jovem mãe, Hansan, 25 anos, veio buscar a sua filha de oito. Sabe do que aconteceu esta manhã, e também aprova os rockets. “São uma auto-defesa. Apesar de não atingirem os israelitas, concordo com eles.” É apoiante do Hamas? Ela sorri. “Não, mas sou uma apoiante da resistência.”
Chega um pai, de fato ocidental. Chama-se Mussa e tem dez filhos. Só mais a nova ainda está nesta escola. Não é da Fatah nem do Hamas. E também ele defende os rockets. “A nossa vida desde há muito é a guerra. Os israelitas estão decididos a continuar com ela. Nós não temos alternativa senão resistir. [o presidente] Abu Mazen passou anos em negociações e não lhe deram nada. Claro que eu rezo para a paz, é o nosso objectivo, mas não qualquer paz — uma paz justa.”
Alexandra Lucas Coelho, em Gaza
O buraco do míssil israelita está no asfalto, numa rua movimentada, frente a um hospital e entre duas escolas, uma à direita, outra à esquerda. Foi por isso que hoje, quando as forças israelitas quiseram matar um militante do Hamas — em retaliação pela morte de um soldado israelita — acabaram por ferir seis crianças, além de um homem.
“Eram umas 11 e meia da manhã”, conta Bassam, de 35 anos, que está na loja em frente ao buraco. O militante do Hamas ia a passar numa mota quando o míssil lhe acertou, ferindo quem estava mais perto. Na rua ainda há restos de sangue.
“As minhas portas caíram e os meus frigoríficos ficaram destruídos”, diz Bassam, mostrando os destroços.
Esta é uma das ruas comerciais do campo de refugiados de Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza. A explosão do lado israelita da fronteira — que na terça-feira matou um soldado e feriu três — aconteceu não muito longe daqui. Israel contra-atacou, alvejando um militante do Hamas, e além dele matou um agricultor. Na madrugada de quarta, bombardeou os túneis de Rafah que vão dar ao Egipto. O míssil nesta rua foi a terceira resposta, depois de Israel ter avisado os habitantes que ia proceder em breve à operação Flor Vermelha.
Entretanto, dois rockets foram lançados para o lado israelita, sem ferir ninguém. Um deles foi atribuído às Brigadas Al Aqsa, ligadas à Fatah, e o outro a um pequeno grupo islâmico. Eram rockets muito artesanais, sem o alcance dos do Hamas. Mas sejam de quem for, estes rockets têm aprovação popular. “É natural, porque vivemos sob ocupação e devemos resistir”, diz Bassam. E em volta, mais vozes. “Queremos mais rockets”, diz um. “Queremos rockets até abrirem as fronteiras de Gaza”, diz outro.
Que conseguiram os rockets, além de terem sido argumento para uma guerra devastadora? “Pelo menos afirmam os nossos direitos, é uma forma de a nossa causa não ser esquecida”, diz Bassam.
Os feridos foram para o Hospital Nasser, que fica do outro lado da rua. Os mais graves estão na cirurgia. Abdelmajid é dos menos graves e por isso está numa camarata sem qualquer aparelho nem pessoal médico, simplesmente deitado em cima de um colchão, com as duas pernas ligadas. Foi ferido por estilhaços. A mãe, de cara completamente tapada, conta que ele vinha da escola quando o míssil caiu.
Atravessando de novo a rua para a escola da esquerda, uma jovem mãe, Hansan, 25 anos, veio buscar a sua filha de oito. Sabe do que aconteceu esta manhã, e também aprova os rockets. “São uma auto-defesa. Apesar de não atingirem os israelitas, concordo com eles.” É apoiante do Hamas? Ela sorri. “Não, mas sou uma apoiante da resistência.”
Chega um pai, de fato ocidental. Chama-se Mussa e tem dez filhos. Só mais a nova ainda está nesta escola. Não é da Fatah nem do Hamas. E também ele defende os rockets. “A nossa vida desde há muito é a guerra. Os israelitas estão decididos a continuar com ela. Nós não temos alternativa senão resistir. [o presidente] Abu Mazen passou anos em negociações e não lhe deram nada. Claro que eu rezo para a paz, é o nosso objectivo, mas não qualquer paz — uma paz justa.”
Fósforo branco
Gaza à espera da operação Flor Vermelha
Aviões israelitas lançaram papéis a anunciar nova "operação" em Gaza, por causa do soldado morto. Os habitantes esperam mais bombardeamentos
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, em Gaza
O céu começa a rugir à vista de Rafah. Uma fila de mulheres com crianças sobe uma duna, até um tanque de água da ONU. As mulheres estão de preto, a areia brilha, dourada. Depois, durante umas centenas de metros, ninguém. Dunas, baldios e os F16 lá em cima, sobre o Sul de Gaza.
O céu começa a rugir à vista de Rafah. Uma fila de mulheres com crianças sobe uma duna, até um tanque de água da ONU. As mulheres estão de preto, a areia brilha, dourada. Depois, durante umas centenas de metros, ninguém. Dunas, baldios e os F16 lá em cima, sobre o Sul de Gaza.
Entrando na cidade, o barulho dos aviões israelitas desaparece. No mercado há laranjas pequenas e doces - e morangos grandes e doces como já não há na Europa -, mas o movimento é fraco. A fila para o gás está sem homens, só com botijas. Vêem-se carros, mas não engarrafamentos. E à medida que a fronteira com o Egipto se aproxima as ruas vão ficando desertas, até aquele silêncio de quando se espera qualquer coisa.
Eis a fronteira. Um pedaço de muro e montes de terra a formarem uma espécie de trincheira do lado palestiniano. É nesses montes que se escondem os túneis através dos quais Gaza se abastece, para contornar o bloqueio. Na véspera, a aviação israelita bombardeou vários para leste que, segundo os militares, pertenciam ao Hamas e eram usados para trazer armas.
Este raide foi uma das respostas à bomba que de manhã matara um soldado e ferira três, a meio da Faixa de Gaza, do lado israelita da fronteira. Israel disse que um grupo de palestinianos era responsável pelo ataque. Numa primeira retaliação matou um militante do Hamas que conduzia uma mota em Khan Yunis e teria sido o executor. Além do militante matou também um agricultor.
O grupo que terá reivindicado o ataque é desconhecido em Gaza, e ontem, entre a população, havia quem discutisse a hipótese de ser uma bomba antiga - pois como conseguiria o homem da moto chegar ao lado israelita, cheio de soldados em alerta?
"O que as Forças de Defesa de Israel fizeram hoje não foi uma resposta, mas uma acção preliminar", avisou entretanto o primeiro-ministro, Ehud Olmert. "Uma outra resposta a este sério incidente será dada."
E assim, depois dos dois homens mortos em Khan Yunis e dos túneis bombardeados em Rafah, Gaza está à espera do que possa acontecer.
Aviso do céu
Ahmad, 53 anos, sete filhos, e barbas brancas, vive ao pé de um dos túneis bombardeados e teve que fugir de casa. Agora está nesta rua, perto de outros túneis, que é onde tem a sua loja.
"Eram umas duas e tal da manhã", conta, enquanto empilha botijas vazias de gás numa camioneta. "Estávamos a dormir e todos os vidros explodiram. Até chegaram à minha cama! Agarrei na família e fugimos. Fomos para um olival do meu tio, que tem lá sítio para nos abrigarmos."
De manhã, quando tudo lhes pareceu tranquilo, voltaram a casa.
"Mas esta noite esperamos mais, os israelitas já ameaçaram. Eles atiraram papéis do céu."
Mustafá, um rapaz de 17 anos, diz que os papéis avisavam as pessoas para saírem das suas casas. "E para esperarmos em breve a operação Flor Vermelha." Tem algum papel desses? "Não, o Hamas apanhou--os todos, e destruiu-os, para as pessoas não terem medo."
Que pensa o barbudo Ahmad da morte do soldado? "Sou contra todas as formas de violência." Mustafá dá a sua opinião antes que alguém não a peça: "Eu sou a favor desse ataque."
Mais para leste, as últimas casas antes dos túneis bombardeados parecem completamente desertas. Não se vê vivalma. Depois, dobrando uma esquina, um rapaz sentado. Chama-se Sami, tem 18 anos, vive aqui. "Ouvimos a primeira explosão pelas duas da manhã", confirma ele.
"Acordámos e havia gente a fugir das casas."
Ainda mais para leste, uma mulher de casaco preto até aos pés e lenço na cabeça, a andar até à última casa antes da fronteira. "Vivo aqui", diz, sorridente. Chama-se Heba, tem 25 anos, é uma recém-casada. "Estávamos aqui ontem à noite, e pelas duas e um quarto da manhã ouvimos uma bomba de repente. A casa abanou toda. Levantámo-nos, mas a seguir houve mais explosões, e mais fortes. Depois ouvi muita gente a correr e gritos."
O bombardeamento terá durado uns 20 minutos, calcula. "Mas eles vão voltar, claro." Ainda não sabe se abandonam a casa. Gaza é uma terra de refugiados, alguns já deixaram duas casas, toda a gente tem relutância em partir. Que pensa Heba do ataque aos soldados? Volta a sorrir, cortês, hesita. Depois diz: "Sou contra essas provocações, neste momento."
Uma outra mulher aproxima-se. Veio ver dos pais, que moram aqui, mas encontrou a casa vazia. "Fugiram, devem estar com alguém de família, mas ainda não sei quem."
De volta ao centro de Rafah, as ruas vão ganhando vida esquina a esquina, à medida que a fronteira fica para trás. Bandos e bandos de meninos e meninas a virem da escola. Os que andam em escolas do governo têm fardas verdes. Todas as meninas usam fitas brancas nos totós e nas tranças. Estas bermas, cheias de centenas de crianças, são a visão mais viva e alegre de toda a Faixa. Frente ao campo de futebol há uma grande escola da ONU, a esta hora com o bruá de muitos alunos. Quanto ao campo, levou com um míssil.
O agricultor era comunista
Subindo para norte, a zona logo a seguir a Rafah é Khan Yunis. Pelo caminho vêem-se várias fábricas de cimento bombardeadas. Desde que o Hamas tomou o poder, em Junho de 2007, Israel não permite entrada de cimento em Gaza, e agora, durante a guerra, inutilizou as fábricas locais.
Como por toda a Faixa, flutuam bandeiras verdes do Hamas, mas de repente, numas ruas junto à fronteira onde o soldado israelita foi morto, aparecem duas bandeiras vermelhas a esvoaçarem, bem alto. São da PFLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina), o movimento marxista fundado em 1967 pelo cristão George Habash, um rival histórico de Arafat. Habash morreu há um ano, na Jordânia, mas ainda aqui tem firmes discípulos.
É o caso de Jihad Shain, 22 anos, militante vermelho e filho de militante vermelho. "O meu pai não está em casa, porque foi ao funeral daquele agricultor morto pelos israelitas, que também era da PFLP." Chamava-se Anwar Zaed. "Estava na sua terra, a tratar dos vegetais. Tinha 29 anos e dois filhos pequenos, com um e dois anos."
Aqui, de sua casa, com os vidros partidos, Jihad ouviu a explosão que matou o soldado e feriu três, um deles gravemente. Isso aconteceu pelas oito da manhã, diz. Cerca de duas horas depois começou o bombardeamento israelita em que morreu o militante do Hamas na mota e o agricultor amigo desta família.
"Eles lançaram papéis a dizer que tínhamos que deixar a nossa área e que iam fazer uma operação chamada 'flor vermelha'." E então, que fazem aqui? Não têm medo? "Claro que temos. Mas não queremos abandonar as casas."
(publicado em 29 de Janeiro na edição impressa do Público)
Jan 28, 2009
Queimados com bombas de fósforo branco
Pesquisas internacionais provam que Israel atingiu civis com estas bombas. Há casos de outras armas não-convencionais, como DIME
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, em Gaza
Sabah Abu Halima está numa cama da Unidade de Queimados do hospital Al Shifa, o maior de Gaza. É uma mulher de 45 anos, mãe de 10 filhos. Uma cunhada alimenta-a à colher, lentamente. Ela tem o braço direito enfaixado até à mão e queimaduras no pescoço. Mal consegue mexer a cabeça.
"São queimaduras profundas de bombas de fósforo branco", diz o médico Ahmed Mograbi, mantendo-se na ombreira da porta enquanto Sabah come. "Tem 15 por cento do corpo afectado. Transferimos dois feridos mais graves da família dela para o Egipto, uma criança de um ano e uma mulher de 20 com queimaduras muito profundas em metade do corpo, típicas de fósforo. Acho que esse é um caso desesperado." Mas Sabah deverá recuperar: "Está queimada num braço e nas pernas."
As pernas não se vêem por estarem tapadas por um cobertor, enquanto ela continua a comer devagar.
"Chegou aqui de ambulância, trazida de outro hospital", conta Mograbi. "Lá, tinham-lhe limpado a pele e posto ligaduras. Ao fim de três horas aqui, quando tirámos as ligaduras para limpar, saía fumo das feridas e cheirava muito mal, a fósforo."
Sabah acabou de comer. O médico entra para ver se ela pode e quer falar. Ela diz que sim.
O braço queimado é o direito, e a mão tem crostas negras. Mas não é em si própria que está a pensar. "Tenho nove rapazes e uma rapariga. Agora perdi três rapazes e a minha filha." Diz a idade dos sobreviventes: "24, 22, 20, 18, 16, cinco." Os outros morreram com a mesma bomba que a queimou. "O meu marido também morreu. E a minha nora ficou negra, está no Egipto." Quantas pessoas estavam dentro de casa? "Éramos 16."
Aconteceu no segundo dia da guerra, pelas quatro da tarde, conta ela. "Atiraram uma bomba para cima de nós. Houve uma grande luz, depois um fumo muito branco que sufocava, e não me lembro de mais nada."
As bombas de fósforo branco são incendiárias. Podem ser lançadas pelos militares no terreno para iluminar ou criar um ecrã de fumo. Mas estão proibidas pela Quarta Convenção de Genebra quando lançadas em zonas com "concentrações de civis" onde os alvos militares não estão claramente separados. E são sempre proibidas se forem lançadas do ar.
Gaza - um milhão e meio de habitantes numa estreita faixa - é um dos lugares mais densamente povoados do mundo. Israel começou por negar que tivesse usado bombas de fósforo branco durante a guerra, mas perante diversos testemunhos e provas acabou por admitir que o usara, mas não de forma criminosa.
O Comité Internacional da Cruz Vermelha comprovou o uso de fósforo branco, está a recolher provas para depois discutir com as partes, e não adianta conclusões sobre se o uso foi ilegal.
Tanto a Amnistia Internacional como a Human Rights Watch comprovaram extensamente o uso de fósforo branco e consideram-no uma violação da Convenção de Genebra.
Quando o corpo humano é atingido por uma bomba de fósforo, a queimadura continua até ter oxigénio, por vezes até ao osso. É necessário tratá-la de forma diferente, mas, se os médicos não souberem, os tecidos continuam a ser queimados. Foi o que aconteceu com Sabah.
A família dela cultiva morangos. São agricultores e vivem em Atattra, uma zona do Norte de Gaza das mais atingidas pela guerra e densamente povoada: "Temos muitos vizinhos", diz Sabah. Os sobreviventes foram-lhe trazendo notícias do que aconteceu depois da explosão. "Os soldados israelitas ocuparam as casas e ficaram lá dentro. Estávamos em paz. Agora quem vai alimentar os meus filhos?"
Ainda cheira
O director da Unidade de Queimados, Nafez Abu Shaban, confia na recuperação de Sabah. "No braço são queimaduras profundas, até ao músculo, o que deverá afectar a mobilidade. Mas esperamos que volte a andar." Os casos mais graves com queimaduras destas foram transferidos através do Egipto. Restam dois neste hospital.
"Já não há qualquer dúvida de que se trata de fósforo branco", garante Shaban. "No princípio da guerra recebemos muitos casos de queimaduras e tratámo-los como queimaduras normais, alguns mandámo-los para casa. Mas dias mais tarde alguns voltaram com queimaduras muito profundas, brancas, e alguns morreram, apesar de inicialmente as queimaduras serem muito pequenas. Então começámos a levá-los para a sala de operações, para limpar as queimaduras, e encontrámos material estranho."
Shaban abre um saco de plástico e mostra uma matéria que parece areia com sangue. Sente-se um forte cheiro a fósforo. "Isto são amostras de tecido que retirámos."
Estas e outras amostras foram reencaminhadas para a administração do hospital, para serem reenviados para o estrangeiro. "Achamos que os israelitas estão a usar várias armas não convencionais, e por isso decidimos tirar amostras de qualquer ferimento estranho."
Mas quanto ao fósforo branco, Nafez Abu Shaban está seguro. "Percebemos só na última semana da guerra e muitos doentes morreram porque não sabíamos que era fósforo branco." Quantos doentes? "Não sabemos, porque parte deles terão morrido de ferimentos conjugados, mas presumo que centenas tenham sido queimados com fósforo branco."
E o mesmo pode ter acontecido ou estar a acontecer com feridos por outras armas. "Devia haver peritos internacionais aqui, porque não sabemos o que procurar. Armas tóxicas?, químicas?, radiações? Temos o direito de saber. É a primeira vez que temos tantas vítimas com feridas destas."
"Pelos relatórios, tenho a certeza de que é fósforo branco", diz a cirurgiã inglesa Sonia Robbins, que entrou em Gaza como activista de direitos humanos e veio falar com o director da Unidade de Queimados. "Mas é preciso prová-lo rapidamente", alerta, sublinhando que durante a guerra ninguém pôde entrar, nem documentar o que estava a acontecer. "O perigo é que os casos sejam negados antes de serem provados."
O novo explosivo
Quando a Unidade de Queimados percebeu que havia algo estranho, entraram em campo os cirurgiões.
Especializado em Edimburgo, o cirurgião-chefe Sobhi Skaik está a esta hora reunido com um colega que se especializou na Irlanda, e daqui a pouco vai juntar-se-lhes um cirurgião italiano que trabalha para a Cruz Vermelha. Tudo isto entre transferências de emergência para o Egipto e uma explosão que abanou todo o edifício do Al Shifa onde funciona a cirurgia.
"Tivemos várias pessoas atingidas com fósforo branco", garante Sobhi. "Com outras armas não convencionais também, mas definitivamente fósforo branco, não há dúvida."
O que o faz estar tão certo? "Por exemplo, um doente com queimaduras no corpo de diferentes profundidades, pele, músculos e osso. Isto é típico do fósforo. Continua a arder e a arder, em diferentes camadas do corpo. E há o cheio do fósforo a queimar, podíamos senti-lo."
Sem querer arriscar um número, este cirurgião fala em "centenas de casos" ao longo desta guerra. E vai mais longe: "Numa área de 100 metros quadrados em Gaza pode haver 200 pessoas. As áreas atacadas são densamente povoadas. Portanto, quando se usa fósforo branco em Gaza é criminoso."
Mas além do fósforo, fala no uso de DIME (Dense Inert Metal Explosive), um explosivo novo. O ferido chega com vários buraquinhos no tronco, que parecem ferimentos superficiais, mas em estado crítico. "Abrimos o abdómen e descobrimos muitos danos nos órgãos, perfurações nos intestinos, danos no fígado, sangramentos, e não conseguimos perceber o que está a causar aquilo. Depois de tentarmos reparar tudo, duas horas depois da operação, começa a sangrar e a sangrar, a ponto de não o conseguirmos ressuscitar."
Outro sinal de DIME é aparecerem muitos feridos com as duas pernas amputadas. "Eu vi dezenas", diz Sobhi.
O anestesista noruegês Mads Gilbert, que esteve a trabalhar com estes médicos do Al Shifa durante a guerra, confirma: "Vimos muitos casos indicativos de DIME e temos vários documentados", disse ao PÚBLICO, por telefone, da Noruega.
Gilbert esteve com o seu colega Erik Fosse em Gaza até 10 de Janeiro. Reconhecem o DIME pela "presença de extensas amputações e ferimentos do tamanho de ervilhas".
Mas "as mais importantes armas ilegais que Israel tem usado", remata Gilbert, "são o cerco, o bloqueio, e o bombardeamento indiscriminado de civis".
(publicado em 28 de Janeiro na edição impressa do Público)
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, em Gaza
Sabah Abu Halima está numa cama da Unidade de Queimados do hospital Al Shifa, o maior de Gaza. É uma mulher de 45 anos, mãe de 10 filhos. Uma cunhada alimenta-a à colher, lentamente. Ela tem o braço direito enfaixado até à mão e queimaduras no pescoço. Mal consegue mexer a cabeça.
"São queimaduras profundas de bombas de fósforo branco", diz o médico Ahmed Mograbi, mantendo-se na ombreira da porta enquanto Sabah come. "Tem 15 por cento do corpo afectado. Transferimos dois feridos mais graves da família dela para o Egipto, uma criança de um ano e uma mulher de 20 com queimaduras muito profundas em metade do corpo, típicas de fósforo. Acho que esse é um caso desesperado." Mas Sabah deverá recuperar: "Está queimada num braço e nas pernas."
As pernas não se vêem por estarem tapadas por um cobertor, enquanto ela continua a comer devagar.
"Chegou aqui de ambulância, trazida de outro hospital", conta Mograbi. "Lá, tinham-lhe limpado a pele e posto ligaduras. Ao fim de três horas aqui, quando tirámos as ligaduras para limpar, saía fumo das feridas e cheirava muito mal, a fósforo."
Sabah acabou de comer. O médico entra para ver se ela pode e quer falar. Ela diz que sim.
O braço queimado é o direito, e a mão tem crostas negras. Mas não é em si própria que está a pensar. "Tenho nove rapazes e uma rapariga. Agora perdi três rapazes e a minha filha." Diz a idade dos sobreviventes: "24, 22, 20, 18, 16, cinco." Os outros morreram com a mesma bomba que a queimou. "O meu marido também morreu. E a minha nora ficou negra, está no Egipto." Quantas pessoas estavam dentro de casa? "Éramos 16."
Aconteceu no segundo dia da guerra, pelas quatro da tarde, conta ela. "Atiraram uma bomba para cima de nós. Houve uma grande luz, depois um fumo muito branco que sufocava, e não me lembro de mais nada."
As bombas de fósforo branco são incendiárias. Podem ser lançadas pelos militares no terreno para iluminar ou criar um ecrã de fumo. Mas estão proibidas pela Quarta Convenção de Genebra quando lançadas em zonas com "concentrações de civis" onde os alvos militares não estão claramente separados. E são sempre proibidas se forem lançadas do ar.
Gaza - um milhão e meio de habitantes numa estreita faixa - é um dos lugares mais densamente povoados do mundo. Israel começou por negar que tivesse usado bombas de fósforo branco durante a guerra, mas perante diversos testemunhos e provas acabou por admitir que o usara, mas não de forma criminosa.
O Comité Internacional da Cruz Vermelha comprovou o uso de fósforo branco, está a recolher provas para depois discutir com as partes, e não adianta conclusões sobre se o uso foi ilegal.
Tanto a Amnistia Internacional como a Human Rights Watch comprovaram extensamente o uso de fósforo branco e consideram-no uma violação da Convenção de Genebra.
Quando o corpo humano é atingido por uma bomba de fósforo, a queimadura continua até ter oxigénio, por vezes até ao osso. É necessário tratá-la de forma diferente, mas, se os médicos não souberem, os tecidos continuam a ser queimados. Foi o que aconteceu com Sabah.
A família dela cultiva morangos. São agricultores e vivem em Atattra, uma zona do Norte de Gaza das mais atingidas pela guerra e densamente povoada: "Temos muitos vizinhos", diz Sabah. Os sobreviventes foram-lhe trazendo notícias do que aconteceu depois da explosão. "Os soldados israelitas ocuparam as casas e ficaram lá dentro. Estávamos em paz. Agora quem vai alimentar os meus filhos?"
Ainda cheira
O director da Unidade de Queimados, Nafez Abu Shaban, confia na recuperação de Sabah. "No braço são queimaduras profundas, até ao músculo, o que deverá afectar a mobilidade. Mas esperamos que volte a andar." Os casos mais graves com queimaduras destas foram transferidos através do Egipto. Restam dois neste hospital.
"Já não há qualquer dúvida de que se trata de fósforo branco", garante Shaban. "No princípio da guerra recebemos muitos casos de queimaduras e tratámo-los como queimaduras normais, alguns mandámo-los para casa. Mas dias mais tarde alguns voltaram com queimaduras muito profundas, brancas, e alguns morreram, apesar de inicialmente as queimaduras serem muito pequenas. Então começámos a levá-los para a sala de operações, para limpar as queimaduras, e encontrámos material estranho."
Shaban abre um saco de plástico e mostra uma matéria que parece areia com sangue. Sente-se um forte cheiro a fósforo. "Isto são amostras de tecido que retirámos."
Estas e outras amostras foram reencaminhadas para a administração do hospital, para serem reenviados para o estrangeiro. "Achamos que os israelitas estão a usar várias armas não convencionais, e por isso decidimos tirar amostras de qualquer ferimento estranho."
Mas quanto ao fósforo branco, Nafez Abu Shaban está seguro. "Percebemos só na última semana da guerra e muitos doentes morreram porque não sabíamos que era fósforo branco." Quantos doentes? "Não sabemos, porque parte deles terão morrido de ferimentos conjugados, mas presumo que centenas tenham sido queimados com fósforo branco."
E o mesmo pode ter acontecido ou estar a acontecer com feridos por outras armas. "Devia haver peritos internacionais aqui, porque não sabemos o que procurar. Armas tóxicas?, químicas?, radiações? Temos o direito de saber. É a primeira vez que temos tantas vítimas com feridas destas."
"Pelos relatórios, tenho a certeza de que é fósforo branco", diz a cirurgiã inglesa Sonia Robbins, que entrou em Gaza como activista de direitos humanos e veio falar com o director da Unidade de Queimados. "Mas é preciso prová-lo rapidamente", alerta, sublinhando que durante a guerra ninguém pôde entrar, nem documentar o que estava a acontecer. "O perigo é que os casos sejam negados antes de serem provados."
O novo explosivo
Quando a Unidade de Queimados percebeu que havia algo estranho, entraram em campo os cirurgiões.
Especializado em Edimburgo, o cirurgião-chefe Sobhi Skaik está a esta hora reunido com um colega que se especializou na Irlanda, e daqui a pouco vai juntar-se-lhes um cirurgião italiano que trabalha para a Cruz Vermelha. Tudo isto entre transferências de emergência para o Egipto e uma explosão que abanou todo o edifício do Al Shifa onde funciona a cirurgia.
"Tivemos várias pessoas atingidas com fósforo branco", garante Sobhi. "Com outras armas não convencionais também, mas definitivamente fósforo branco, não há dúvida."
O que o faz estar tão certo? "Por exemplo, um doente com queimaduras no corpo de diferentes profundidades, pele, músculos e osso. Isto é típico do fósforo. Continua a arder e a arder, em diferentes camadas do corpo. E há o cheio do fósforo a queimar, podíamos senti-lo."
Sem querer arriscar um número, este cirurgião fala em "centenas de casos" ao longo desta guerra. E vai mais longe: "Numa área de 100 metros quadrados em Gaza pode haver 200 pessoas. As áreas atacadas são densamente povoadas. Portanto, quando se usa fósforo branco em Gaza é criminoso."
Mas além do fósforo, fala no uso de DIME (Dense Inert Metal Explosive), um explosivo novo. O ferido chega com vários buraquinhos no tronco, que parecem ferimentos superficiais, mas em estado crítico. "Abrimos o abdómen e descobrimos muitos danos nos órgãos, perfurações nos intestinos, danos no fígado, sangramentos, e não conseguimos perceber o que está a causar aquilo. Depois de tentarmos reparar tudo, duas horas depois da operação, começa a sangrar e a sangrar, a ponto de não o conseguirmos ressuscitar."
Outro sinal de DIME é aparecerem muitos feridos com as duas pernas amputadas. "Eu vi dezenas", diz Sobhi.
O anestesista noruegês Mads Gilbert, que esteve a trabalhar com estes médicos do Al Shifa durante a guerra, confirma: "Vimos muitos casos indicativos de DIME e temos vários documentados", disse ao PÚBLICO, por telefone, da Noruega.
Gilbert esteve com o seu colega Erik Fosse em Gaza até 10 de Janeiro. Reconhecem o DIME pela "presença de extensas amputações e ferimentos do tamanho de ervilhas".
Mas "as mais importantes armas ilegais que Israel tem usado", remata Gilbert, "são o cerco, o bloqueio, e o bombardeamento indiscriminado de civis".
(publicado em 28 de Janeiro na edição impressa do Público)
Amnistia Internacional fala em crime de guerra
A investigadora que a Amnistia Internacional tem em Gaza não hesita em usar o termo "crime de guerra" quanto ao uso de fósforo branco por parte de Israel.
Donatella Rovera considera que "o extenso uso desta arma em bairros densamente povoados de Gaza é por inerência indiscriminado", lê-se num relatório sobre o fósforo branco. "O seu uso repetido desta maneira, apesar de provas dos seus efeitos indiscriminados e do seu peso em civis, é um crime de guerra."
As queimaduras de fósforo branco, que continuam, tecido a tecido, enquanto encontram oxigénio, não podem ser tratadas como as queimaduras normais. Para salvarem os feridos, os médicos têm de saber o que têm em mãos. O que aconteceu nos hospitais de Gaza, incluindo o maior, Al Shifa, foi que muitos feridos morreram por terem sido tratados como queimados normais.
O facto de as forças israelitas terem negado que usaram fósforo branco fez perder mais vidas, aponta a Amnistia. "Responsáveis israelitas disseram repetidamente que a sua operação militar era contra o Hamas, não contra as pessoas de Gaza", lembrou Donatella Rovera. "Não pode haver desculpa para continuar a subtrair informação vital para o tratamento eficaz de pessoas feridas pelos ataques. A falta de cooperação de Israel está a levar a mortes e sofrimento desnecessários."
Quando conseguiu entrar em Gaza, depois do fim da guerra, a Amnistia ainda encontrou bombas de fósforo a arder em diversos pontos.
E além de fósforo branco, "o exército israelita usou uma variedade de outras armas em áreas densamente povoadas", diz a organização. Um dos exemplos é o das flechas de 4 centímetros. Um obus de 120 mm pode conter 5000 a 8000 destas flechas. Quando o obus explode no ar, espalha as flechas num raio de 300 por 100 metros.
Estas armas, que Israel usa há anos, diz a Amnistia, "nunca deveriam ser usadas em áreas civis".
A.L.C.
(publicado em 28 de Janeiro na edição impressa do Público)
Donatella Rovera considera que "o extenso uso desta arma em bairros densamente povoados de Gaza é por inerência indiscriminado", lê-se num relatório sobre o fósforo branco. "O seu uso repetido desta maneira, apesar de provas dos seus efeitos indiscriminados e do seu peso em civis, é um crime de guerra."
As queimaduras de fósforo branco, que continuam, tecido a tecido, enquanto encontram oxigénio, não podem ser tratadas como as queimaduras normais. Para salvarem os feridos, os médicos têm de saber o que têm em mãos. O que aconteceu nos hospitais de Gaza, incluindo o maior, Al Shifa, foi que muitos feridos morreram por terem sido tratados como queimados normais.
O facto de as forças israelitas terem negado que usaram fósforo branco fez perder mais vidas, aponta a Amnistia. "Responsáveis israelitas disseram repetidamente que a sua operação militar era contra o Hamas, não contra as pessoas de Gaza", lembrou Donatella Rovera. "Não pode haver desculpa para continuar a subtrair informação vital para o tratamento eficaz de pessoas feridas pelos ataques. A falta de cooperação de Israel está a levar a mortes e sofrimento desnecessários."
Quando conseguiu entrar em Gaza, depois do fim da guerra, a Amnistia ainda encontrou bombas de fósforo a arder em diversos pontos.
E além de fósforo branco, "o exército israelita usou uma variedade de outras armas em áreas densamente povoadas", diz a organização. Um dos exemplos é o das flechas de 4 centímetros. Um obus de 120 mm pode conter 5000 a 8000 destas flechas. Quando o obus explode no ar, espalha as flechas num raio de 300 por 100 metros.
Estas armas, que Israel usa há anos, diz a Amnistia, "nunca deveriam ser usadas em áreas civis".
A.L.C.
(publicado em 28 de Janeiro na edição impressa do Público)
"Clara violação da Convenção de Genebra"
O uso de bombas de fósforo branco feito por Israel durante a guerra constitui "uma clara violação da Convenção de Genebra", disse ontem ao PÚBLICO Mark Galasco, o experiente investigador que a Human Rights Watch enviou com uma equipa para Gaza.
"Encontrámos inúmeras cápsulas de fósforo branco em áreas densamente povoadas", resume. "E encontrámos casas queimadas, civis com queimaduras graves, o hospital Al Quds que foi atingido por uma bomba de fósforo, uma escola da ONU..."
As provas, diz Galasco, tornaram-se "numerosas e inequívocas", ao ponto de Israel ser obrigado a admitir que usara fósforo branco. "Finalmente, depois de tanto tempo a avisá-los de que o perigo era tão grande, que podia continuar a matar pessoas."
Durante semanas Israel vedou a passagem de jornalistas e organizações internacionais. A Human Rights Watch entrou pelo Egipto, depois do fim da guerra. Tornou-se então claro, lê-se no site da organização, que a credibilidade das forças israelitas era uma das vítimas da guerra. E "o maior golpe", considera a Human Rights Watch, foi o caso do fósforo branco.
O que está por verificar é "se esta violação da Convenção de Genebra constitui um crime de guerra", diz Mark Galasco. Para haver crime de guerra, de acordo com este investigador, o ponto essencial é "que tem que ter havido intenção de atingir civis".
A Human Rights Watch apelara a uma investigação internacional das violações cometidas por Israel e pelo Hamas, e Galasco volta a sublinhar essa necessidade.
A.L.C.
(publicado em 28 de Janeiro na edição impressa do Público)
"Encontrámos inúmeras cápsulas de fósforo branco em áreas densamente povoadas", resume. "E encontrámos casas queimadas, civis com queimaduras graves, o hospital Al Quds que foi atingido por uma bomba de fósforo, uma escola da ONU..."
As provas, diz Galasco, tornaram-se "numerosas e inequívocas", ao ponto de Israel ser obrigado a admitir que usara fósforo branco. "Finalmente, depois de tanto tempo a avisá-los de que o perigo era tão grande, que podia continuar a matar pessoas."
Durante semanas Israel vedou a passagem de jornalistas e organizações internacionais. A Human Rights Watch entrou pelo Egipto, depois do fim da guerra. Tornou-se então claro, lê-se no site da organização, que a credibilidade das forças israelitas era uma das vítimas da guerra. E "o maior golpe", considera a Human Rights Watch, foi o caso do fósforo branco.
O que está por verificar é "se esta violação da Convenção de Genebra constitui um crime de guerra", diz Mark Galasco. Para haver crime de guerra, de acordo com este investigador, o ponto essencial é "que tem que ter havido intenção de atingir civis".
A Human Rights Watch apelara a uma investigação internacional das violações cometidas por Israel e pelo Hamas, e Galasco volta a sublinhar essa necessidade.
A.L.C.
(publicado em 28 de Janeiro na edição impressa do Público)
Jan 27, 2009
Diário Israel-Palestina 5
A enfermeira que esteve em Sabra e Chatila e está chocada com Gaza
Louise Norman ainda mal acredita que os israelitas a deixaram entrar em Gaza. Sexta-feira, quando finalmente o checkpoint abriu à circulação de jornalistas estrangeiros após semanas de bloqueio, esta enfermeira sueca tentou a sua sorte, sem levar sequer a escova de dentes. E de repente deu por si do outro lado, de volta a amigos que não via há anos, como o psiquiatra palestiniano Eyad Sarraj.
O quotidiano de Louise é em Estocolmo, onde trabalha entre um hospital e o resgate de emergência em helicóptero. Mas aos 55 anos, com quatro filhos já grandes, ofereceu-se para uma temporada em Hebron, uma das cidades palestinianas sempre mais tensas, devido à presença de colonos religiosos protegidos por soldados.
Segunda-feira lá estará, em Hebron, na Cisjordânia, mas até lá está a ver o que aconteceu em Gaza. Quando o PÚBLICO a encontrou, a primeira coisa que Louise disse foi: “Isto faz-me lembrar tanto Sabra e Chatila.”
Em Agosto de 1982, durante a invasão israelita do Líbano, Louise aterrou em Beirute para trabalhar com a igreja sueca no campo de refugiados de Sabra. “Fiquei até ao Natal.” O que significa que estava lá durante os três dias de Setembro em que o exército israelita, que cercava os campos de Sabra e Chatila, permitiu que as milícias cristãs libanesas entrassem e massacrassem centenas de palestinianos – os números são disputados até hoje, entre 800 e 3500.
Louise passou esses dias dentro do hospital de Sabra, que nessa altura por caso se chamava Gaza Hospital. Ouviu as metralhadoras e os gritos. Quando pôde sair, viu os cadáveres.
E aqui em Gaza, o que viu? “A destruição total. Algumas partes parecem ter sido derrubadas por um tremor de terra. Mas o que me lembra mais Sabra e Chatila é que aqui está uma população civil que não tem para onde ir. Estão cercados.”
Mais de 25 anos depois do que aconteceu no Líbano, diz Louise, não se avançou. “Estamos em 2009 e isto não devia acontecer. É uma vergonha para a humanidade. A pior coisa é sentir-me tão envergonhada de ser parte da dita comunidade internacional e ninguém parar isto.”
A.L.C., em Gaza
Eles perderam o mar durante 22 dias por causa da guerra
(© Olivier Laban-Mattei/AFP)
Em Gaza, o mar pode estar aberto ou fechado. Na guerra, esteve fechado. Há quem tenha arriscado um tiro. Há quem tenha pescado um míssil
Reportagem
Amir estava num barco a remos quando o último dia da guerra amanheceu. "Não fomos para longe, só a alguns metros da costa, porque precisávamos de alimentar a família", conta, de braço ao peito e pés na água.
Gaza é uma estreita faixa ao longo do Mediterrâneo. Quem a quiser dominar, tem que dominar o mar. É o que Israel tem feito desde a retirada das tropas e dos colonos em 2005. E nesta guerra o mar foi uma frente vital.
Ainda ali continuam, todos esses navios israelitas, depois das três milhas permitidas aos pescadores, e as pessoas queixam-se de que, mesmo depois do cessar-fogo, eles continuam a disparar.
Mas quando Amir foi ferido faltavam horas para Israel declarar o cessar-fogo. "Éramos dois no barco. O outro levou um tiro no estômago e eu levei um tiro no braço." Este braço direito que está ligado e seguro com um lenço. "Sangrei muito. Tive que mergulhar e depois rastejar pela areia. Quando eles nos viram na água, fizeram explodir o barco." Amir tinha familiares na praia que o levaram ao hospital.
E aqui está, ao fim de mais uma noite de pesca. Neste pequeno porto artesanal, é hora de tirar os barcos da água, contar o peixe, desamaranhar as redes.
Não há barcos muito grandes, são quase todos barquinhos. Vão ali e voltam à pequena baía com restos de tudo na água e na areia, que ainda assim é um daqueles lugares onde Gaza parece, mais que possível, bela.
A pesca em Gaza é uma herança de família. O pai já era, e o pai do pai. Haverá mais de cinco mil pescadores, geralmente com famílias muito grandes, o que pode significar 50 mil pessoas dependentes.
E este número de filhos não é exagero.
Nem um tostão
Por exemplo, o veterano e barbudo Farouq, de 58 anos, tem 18 filhos, 10 raparigas e oito rapazes. Os rapazes trabalham todos com ele. Agora, feita a noite, arrumado o barco e a rede, comem-se uns peixinhos grelhados à beira de um bidão onde arde lume.
Janeiro é Inverno, mesmo no Mediterrâneo. Os homens aquecem-se na areia, enquanto vão metendo peixe no pão.
"Diz-lhe que isto é Hiroxima", grita Farouq para o intérprete do PÚBLICO, antes de qualquer pergunta sobre a guerra. "Eu fiquei completamente desligado do mundo. Não tinha um tostão, enquanto um saco de farinha custava 200 shekels [38 euros]. Durante 22 dias não pesquei. As bombas estavam tão perto que nem nos conseguíamos mexer dentro de casa. Ficámos como refugiados, cada filho meu com alguém da família ou nas escolas da ONU. Eu fui com os meus netos para o hospital Al Shifa, ficámos lá seis ou sete dias. Sem a ajuda da ONU, não estávamos vivos."
Estes homens trabalham do pôr-do-sol às dez da noite e das duas da manhã às seis. Vivem do que pescam.
"Mas o mar não é livre para pescarmos. Os israelitas só nos dão três milhas, uma distância em que mal se consegue." E é perigoso, com os navios de guerra? Farouq ri: "Não ouviu os tiros esta manhã? Eram os israelitas que estavam a disparar."
Esta zona a sul da Cidade de Gaza acordou com tiros, talvez ao longo de uma hora, mas mais para o interior era impossível saber de onde vinham. Os pescadores asseguram que vinha daqui.
"O cessar-fogo é só para os pobres", resume Farouq. "Eles disparam para os barcos. Todos os barcos tiveram que voltar logo quando começaram os tiros."
Um homem alto chamado Mohammed, de 43 anos e 10 filhos, acrescenta: "As pessoas aqui são trabalhadoras, pode ver por si, não há razão nenhuma para atirarem sobre nós."
Num bom dia, Farouq pesca 1000 shekels [190 euros] de peixe. "Mas quando tiro as despesas e divido o lucro fico com 40 [7,5 euros] ou 50 shekels [9,5 euros]."
E, durante a guerra, nada.
Um míssil na rede
Aos 39 anos, Yusef já vai em oito filhos. Acaba de sair de mais um turno na água, trazendo esta história. "Quando puxámos a rede, pelas seis da manhã, ela estava muito pesada." Mas não era peixe. "Vimos que uma parte estava cortada e depois encontrámos um míssil por explodir."
Os peritos que estão a avaliar o perigo das munições por detonar calculam que 10 por cento do que Israel disparou sobre Gaza não explodiu. Cerca de 20 mil casas danificadas ou destruídas ainda vão ter que ser examinadas. Em 2006, depois da guerra de Israel com o Líbano, morreram quase 300 pessoas por causa destas munições.
Mas, como Yusef comprovou, elas também existem no mar.
"Como sei que é perigoso, levei o míssil aos guardas lá fora", explica tão descontraído como provavelmente só alguém num sítio como Gaza poderia estar. "São os restos da guerra."
Depois voltou ao mar. Balanço da noite? "Três caixas com vários tipos de peixe." Descontando despesas, o lucro vai dar ao que Farouq dissera, menos de 10 euros.
"Trabalhamos sete dias por semana, desde que o mar esteja aberto."
É uma estranha expressão para quem vem das costas da Europa, onde o mar não está, é aberto. Mas em Gaza às vezes está fechado. Por exemplo, durante a guerra, ou quando Israel decide.
"Durante 22 dias, eu não pesquei", conta também Yusef. "Estávamos mesmo a viver como miseráveis. Não deixei a minha casa. Vivemos da ajuda. Há uma organização europeia de apoio aos pescadores que nos ajuda na metade do ano em que não pescamos, e aproveitámos essa ajuda. Tínhamos alguma comida, mas não tínhamos dinheiro para outras coisas. A maior parte da guerra bebemos chá com pão."
Mais para dentro da areia, três homens desemaranham uma rede finíssima sem sequer olharem para o que fazem, de tanto hábito. O mais novo, Munzar, de 24 anos, ainda só tem dois filhos.
"Desde criança que pesco com o meu pai. Quando andava na escola passava metade do tempo na escola e outra metade a pescar." Há quantas gerações anda a sua família nisto? "Que eu tenha visto com os meus olhos, desde o meu avô."
A família de Munzar tem cinco barcos, e todos ficaram em terra durante a guerra. "Não corremos riscos. E se nos dão três milhas não vamos mais longe que duas e meia. Podemos ser alvejados a qualquer momento e eles não precisam de razões."
De noite, quando nada se mexe e Gaza fica completamente às escuras, as únicas luzes ao longo da costa são as que os pescadores levam para os seus barcos, pontos luminosos ali onde não se vê, mas é o mar.
(publicado em 27 de Janeiro na edição impressa do Público)
Jan 26, 2009
Eyad Sarraj Se eu tivesse um rocket, tê-lo-ia atirado contra Israel
Crianças palestinianas regressam à escola no sábado pela primeira vez desde o começo da ofensiva israelita(© Olivier Laban Mattei/AFP)
É o rosto internacional de Gaza. Durante a guerra podia ter saído e não quis. A cada momento pensou que podia ser ele a morrer. Tinha visto as intifadas, e todas as guerras desde 1948, mas nesta viu "a cara pior de Israel". E deixou de ser pacifista. A dignidade está na resistência. Agora, defende boicote, desinvestimento e sanções contra Israel.
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, em Gaza
Como centenas de milhares de pessoas em Gaza, o psiquiatra Eyad Sarraj está a pisar vidros e outros destroços. "Isto é o meu gabinete!", diz, ainda perplexo.
É domingo, o primeiro dia depois do cessar-fogo em que a Cidade de Gaza voltou a ter engarrafamentos, porque já não caem bombas e já se arranja gasolina. Os mercados estão cheios de frutas e de roupas, nas ruas há milhares de cabeças brancas, que são as raparigas a caminho da escola com os seus lenços de estudante. Por toda a parte se vêem crianças de mochila e farda às riscas, a irem para as aulas ou a voltarem das aulas, consoante os turnos.
E no meio de toda esta vida, em cada esquina, sinais frescos da guerra. Às vezes são prédios transformados num monte de entulho, como se tivessem acabado de desabar. Às vezes só uns rombos, umas paredes, uns vidros partidos.
Foi o que aconteceu à sede do Programa de Saúde Mental de Gaza, uma organização não-governamental dirigida por Sarraj e reconhecida pelo mundo.
Aos 64 anos, Eyad Sarraj é o rosto não-partidário e internacional de Gaza.
Quando o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, aqui veio há dias, falou com ele. Políticos, mediadores, organizações humanitárias em visita a Gaza vão ouvi-lo. E depois há os jornalistas.
Uma televisão assentou a câmara entre os cacos e está a entrevistar Sarraj no momento em que o P2 chega para o fotografar.
O escritório fica no quarto andar da organização, e por baixo os estragos não são menores. Há tectos que abateram e vidros por toda a parte. Os funcionários olham do jardim para o que aconteceu, em silêncio.
Em casa na guerra
O P2 entrevistou Eyad Sarraj em sua casa sexta-feira, primeiro dia em que centenas de jornalistas estrangeiros puderam entrar em Gaza, depois de Israel ter bloqueado o checkpoint durante semanas.
Em Junho de 2007, num encontro anterior com o P2, Sarraj recuperava de tratamentos a um cancro. Agora o cabelo voltou a crescer. "Estou óptimo." E assim parece.
Ao contrário do escritório, a sua casa no centro da Cidade de Gaza não foi atingida. Tudo intacto, do jardim à grande sala de estar.
"Passei aqui a guerra", diz, sentando-se ao lado de uma estante com livros e dois alaúdes antigos. "Os britânicos e a ONU telefonaram a perguntar se eu queria sair. Tenho um passaporte britânico e a minha mulher trabalha para a Comissão de Direitos Humanos da ONU. Ela queria ir, mas eu disse que não. Depois temos a culpa do sobrevivente, de não termos estado aqui."
E durante 22 dias, Sarraj e a família viveram como toda a gente em Gaza.
"Estávamos aterrorizados. De cada vez pensávamos que podíamos ser nós. À volta tantas casas foram bombardeadas. A casa da presidência, a sede da polícia, a Universidade Islâmica, tudo isso é aqui ao pé."
A casa estava cheia: ele, a mulher, três crianças, a cunhada com a filha e amigos com cinco filhos. Não havia electricidade, usavam um gerador. "De manhã, tudo isto estava cheio de crianças", e abre os braços para a sala. "Uma noite, ninguém conseguiu dormir, foi um bombardeamento constante, todo o dia e toda a noite, com explosões enormes." Faz uma pausa. "Sabe a que conclusão cheguei? Que isto é o mal sem fronteiras."
E a partir daqui Eyad Sarraj - o pacifista, promotor dos direitos humanos, um palestiniano que se encontrou com tantos israelitas e viajou pelo mundo a defender o diálogo - começa a explicar o efeito que esta guerra teve nele: "Sempre falei na necessidade de paz com Israel, mas agora já não acredito na paz. Estávamos a iludir-nos. É impossível ter paz com um sistema racista, de apartheid. Israel, que é experiente em trauma desde o Holocausto, que podia falar ao mundo em direitos humanos e igualdade, tornou-se um caso de doença patológica, de paranóia."
Fala sem hesitação, como se ao longo da guerra isto se tivesse encadeado no seu espírito.
"Os judeus trouxeram tanta dor do Holocausto e estão a projectar isso nos palestinianos. Em vez de lidarem com o seu trauma, projectaram a vitimização nos palestinianos. Suprimiram a culpa, não a exprimem." Na esquerda da esquerda israelita, não é assim. Mas Sarraj sabe que é uma pequena percentagem. "Intelectuais israelitas clarividentes expressam essa culpa de muitas formas. Mas o sistema político e a comunidade em geral estão doentes: culpam os palestinianos."
maioria dos israelitas aprovou a guerra por causa dos rockets do Hamas e muita gente acha mesmo que foi a melhor guerra de Israel em anos.
A raiz do mal
"Durante muito tempo ouvi dizer que podíamos ir viver para outro país árabe", continua Sarraj. "'Porque é que não vão embora?', ouvia eu. Ontem, disse à Comissão Europeia, a Chris Berger e 22 representantes europeus: 'Se gostam tanto de Israel, aconselho-os a levarem Israel para casa.' Pois se a nós nos dizem que podemos ir para os países árabes, eles que vão para a Polónia, para a França, onde serão tratados como iguais. Pois aqui, desde que Israel foi fundado, é guerra atrás de guerra. Israel semeia violência por toda a parte. Usa a força bruta ao máximo, pensando que assim compensa a fraqueza mostrada no Holocausto. Envergonham-se de terem sido levados para as câmaras de gás sem resistência. E agora não querem que nós resistamos."
O Holocausto, diz Sarraj, "tinha uma raiz do mal, e essa raiz foi exportada para aqui".
Escritores israelitas como Amos Oz trataram o trauma da fraqueza. Israel foi fundado na promessa musculada de que nunca mais os judeus se deixariam morrer como cordeiros. E o Exército, orgulho nacional, corporiza isto, com a contribuição de cada família.
No romance Ver: Amor, David Grossman defendeu que, pelo contrário, o humanismo devia ser a melhor lição do Holocausto.
"Há gente em Israel e na Europa do lado da justiça, e manifestam-se", diz Sarraj. "Mas os governos sempre apoiaram Israel porque o lobby israelita os pressiona com acusações de anti-semitismo e porque obedecem à América contra o seu livre pensamento. Conheci tantos diplomatas europeus, e todos disseram que não tinham alternativa que não seguir a América. A Alemanha não pode dizer nada por causa da história dos judeus e a Grã-Bretanha tem um forte lobby judeu."
E agora Obama? "Espero que faça a diferença. Vem dos desiguais, dos negros, tem essa herança e identifica-se com a vítima. Acho que ele conhece esta história. Veio cá, conheceu [o presidente palestiniano Mahmoud] Abbas. Abbas disse-me que lhe tinha mostrado os mapas de como o estado palestiniano tinha diminuído desde a proposta de 1948. Mas Obama precisa de coragem para enfrentar o lobby sionista."
Para já, crê Sarraj, Obama contribuiu para o cessar-fogo. "Acho que houve um acordo tácito entre Bush, Obama e Israel para acabar com esta guerra antes de ele tomar posse, para não começar a sua presidência com matança. E o preço que pagámos para isso foi o seu silêncio. Não é um bom sinal. Antes de tomar posse, tem a desculpa de haver só um Presidente. Depois, disse que a segurança de Israel é uma prioridade. Não me importo. Mas porque não falam na nossa segurança?"
Foi o que Sarraj perguntou ao secretário-geral da ONU, quando ele entrou em Gaza depois do cessar-fogo. "Querem todos proteger Israel, e quem nos vai proteger? Não temos marinha, nem tanques, nem F16. Todo o mundo está preocupado com Sderot [povoação israelita ao alcance de rockets] como se fôssemos invadir Israel! E não houve uma única casa destruída em Israel, só um telhado!"
Que respondeu Ban Ki-moon? "Que compreendia, que nos apoia, mas que temos que ter a certeza de que o processo de paz continua." O que é que Sarraj pensa disso? "Que é um disparate. Precisamos de pessoas corajosas como Richard Falk, o relator especial da ONU, que disse que Israel está a cometer crimes contra a Humanidade. Desmond Tutu tinha dito isso há meses."
Nascido em 1944 em Beersheva, hoje Israel, Sarraj sabe o que significa ser refugiado. "Eu vi 48 e as histórias de desenraizamento. Passei a guerra do Suez, apontaram-me armas, eu tinha 12 anos. Vi cadáveres. Vi 67, 73, a Primeira Intifada e a Segunda Intifada, a Primeira Guerra do Líbano e a Segunda. Mas nada foi tão devastador como esta guerra. Desta vez, eu vi a cara pior de Israel."
Se isso teve tamanho efeito nele, que efeito poderá ter numa população de luto, desabrigada e pobre? "Para as crianças é especialmente terrível. Atiraram pedras na Primeira Intifada.
Tornaram-se bombistas suicidas na Segunda Intifada. Agora vão tornar-se mais extremistas. Vão acreditar que só o poder as protegerá, e o poder está em quem tiver armas."
Em que posição fica o Hamas? "Nos próximos meses terá mais membros. E isso só se altera se as pessoas se sentirem seguras, com dignidade. O processo de paz agora é visto como uma forma de traição, porque não tem dignidade. Não há dignidade quando Abbas precisa de autorização dos israelitas para passar o ckeckpoint, e é de dignidade que precisamos."
Sarraj mantém uma certeza: "Os palestinianos nunca sentirão que são derrotados." E sentiu algo que nunca sentira: "Se eu nesta guerra tivesse um rocket, tê-lo-ia atirado contra Israel."
Durante anos foi "crítico do Hamas por usar rockets", quando "usar rockets contra civis é muito errado". Nesta guerra ficou certo de que os rockets foram uma desculpa. "Israel provou-nos que a guerra não era contra o Hamas. Os palestinianos em geral sabem que não é. Se o Hamas fosse erradicado agora, acha que Israel nos daria direitos? Israel quer-nos sem direitos e sem resistência. Se não houvesse ocupação não havia Hamas."
O boicote é uma arma
Este psiquiatra deixou de acreditar na paz. É na resistência que vê a dignidade. E neste pós-guerra - passado o momento em que até atiraria um rocket - acredita na resistência não-violenta, com um princípio de base: "Não devemos abdicar de nenhum dos nossos direitos, particularmente do direito de retorno."
Essa resistência tem três caminhos: "Israel deve ser boicotado em todo o mundo, como um sistema de apartheid, como na África do Sul. Deve haver uma campanha de desinvestimento. E sanções."
Já há casos, diz. "Uma companhia sueca perdeu agora um contrato de três mil milhões de dólares porque estava a construir as estradas dos colonatos em Israel. Tenho recebido centenas de mensagens e assinaturas de académicos estrangeiros a pedir um boicote."
A comportar-se "assim, Israel nunca será aceite no Médio Oriente", diz.
Não foi o que pareceu nesta guerra. "Não", reconhece Sarraj. "Ao ponto de o Egipto dizer que os palestinianos de Gaza são uma ameaça à segurança nacional egípcia. É inacreditável! Mas existe uma diferença entre os governos e a população, que protestou."
Para quem se podem voltar os palestinianos?
"Para si próprios. E para os israelitas com consciência. Israel não pode sobreviver assim. É preciso aprender com a História. A minha mulher tem o cabelo claro e os olhos verdes. Num checkpoint um soldado parou-nos e perguntou-lhe 'É casada com ele?', com o tom de quem pergunta 'Como é que um ser humano pode ser casado com um animal?' Isto é racista. Aconteceu no checkpoint de Erez, em 1979. Hoje o racismo é pior."
E os palestinianos deixaram que isso acontecesse, diz. "A culpa também é nossa. Da estupidez de Arafat, a assinar aqueles acordos. Da violência dos suicidas, que destruiu o campo da paz em Israel." Um grande erro. "Se protejo as minhas crianças, tenho que proteger as crianças de Israel, é o mesmo sangue."
De tudo isto Sarraj vai falar no livro que está a escrever. Vai chamar-se Sozinho em Casa, por causa de todas as pessoas da sua família que foi vendo partir para o estrangeiro. "É uma espécie de autobiografia ligada à política. O impacto psicológico de tudo isto na causa palestiniana e em mim."
A guerra de Gaza será um ponto-chave. "Tornou-me consciente do racismo de Israel. É uma grande mudança."
(publicado em 26 de Janeiro na edição impressa do Público)
O ministro do Hamas vs porta-voz da Fatah: desunião em Gaza
(© Reuters)
O do Hamas diz que há liberdade. O da Fatah diz que foi preso três vezes e que o Hamas tem matado e alvejado nas pernas gente da Fatah. É a desunião nas ruínas da Faixa de Gaza
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, Gaza
O Parlamento de Gaza fica no meio da cidade. Quem estaciona o carro nas traseiras pensa que já não há Parlamento, tal a destruição. Mas depois contorna-se o edifício e na parte da frente ainda há fachada. Lá dentro restam algumas salas, ou parte de salas.
Por exemplo, o hemiciclo podia ser uma instalação de arte contemporânea, com os retratos dos deputados ainda emoldurados em cima das mesas, cobertas de areia e cacos, enquanto emaranhados de metal e tubos pendem do tecto, semiderrubado.
É o começo da manhã, e funcionários e deputados do Hamas estão a chegar. Alguns sentam-se no pátio, porque deixaram de ter gabinete. Outros passam por portas emperradas através dos vidros, que não existem. E entretanto chega o ministro da Justiça do Hamas, Mohammed Al Houl, de 51 anos, um homem pequeno e grisalho, sem barba e com bigode, que estudou Direito no Cairo.
Dispõe-se a ser entrevistado, procura uma sala quase inteira, os homens que o seguem endireitam e limpam cadeiras para os visitantes.
Al Houl começa por descrever a guerra em Gaza, insistindo nas palavras "holocausto" e "crimes de guerra". Hoje, domingo, termina o cessar-fogo declarado pelo Hamas e há negociações no Cairo. "Nós respeitámos o cessar-fogo. Mas descobrimos que os israelitas insistem em violá-lo. Houve uma série de incidentes: disparos no Norte, incursões esporádicas. Três agricultores foram mortos e cinco pessoas foram feridas, quase diariamente atiram dos barcos, uma criança foi alvejada."
(Este último caso está no Hospital Al Shifa, um menino de seis anos alvejado no dia 22 com uma bala de M16, que os médicos e a família dizem que veio dos soldados israelitas na fronteira, perto de casa.)
Como numa jaula
"E ainda estamos numa jaula", continua o ministro do Hamas. "Os israelitas ainda não abriram as fronteiras à passagem de bens."
Quais são as condições para manter o cessar-fogo? "A abertura das fronteiras e o fim do cerco são as mais importantes. E depois a libertação dos prisioneiros desta guerra."
Quem ganhou a guerra? "Apesar do massacre, Israel não conseguiu nenhum dos seus fins, e portanto nós ganhámos e continuámos." Os rockets estão acabados? "Enquanto há ocupação há resistência, é o direito de cada nação ocupada."
Que espera de Obama?
"Esperamos uma mudança, mas os primeiros sinais não são encorajadores. Ele falou em manter a segurança de Israel sem ter condenado este massacre, e o silêncio foi um desapontamento para nós. Esperamos que a posição dele melhore. Não podemos julgá-lo com preconceitos."
E está o Hamas pronto a reconciliar-se com a Fatah, com quem cortou relações desde a tomada de Gaza, em Junho de 2007? "Queremos o diálogo e queremos um governo de unidade nacional, absolutamente", garante Mohammed Al Houl. " Apesar de sermos o Governo legalmente eleito pelo povo", ressalva, remetendo para as eleições de Janeiro de 2006. "O Governo que está em Ramallah sequestrou o poder." Mas "não há outra saída deste labirinto", reconhece. "Não temos alternativa."
Então já estão a falar com a Fatah? "Estamos a pedir à Fatah que fale connosco. Claro que há gente como o traidor Mohammed Dahlan [um ex-todo-poderoso da Fatah, que controlava o aparelho de segurança em Gaza, hoje em parte incerta] com quem não podemos falar." Com quem é que podem falar? O ministro faz uma pausa. "Nabil Shaath, Saeb Erekat." Ex-ministros e negociadores que estão na Cisjordânia ou no estrangeiro.
Há bandeiras verdes do Hamas por toda a parte em Gaza, mas não se vê uma bandeira amarela da Fatah, e a Fatah acusa o Hamas de reprimir e maltratar os militantes não-Hamas.
Três vezes preso
O ministro da Justiça contesta. "Aqui há completa liberdade, e é isso que frustra Israel, que queria que fôssemos para o caos. O problema é ao contrário. Em Ramallah é que não se pode levantar uma bandeira do Hamas. Em Ramallah há centenas de militantes do Hamas nas prisões. Aqui, não há um único prisioneiro da Fatah."
Gaza já teve centenas de milhares de militantes da Fatah. Agora, é como se tivessem passado todos à clandestinidade. Correm relatos à boca pequena de mortos e torturados. Ninguém quer falar, nem dando só o nome próprio, sem fotografia. Ninguém, não. Resta um porta-voz, Ibrahim Naja."
Sou eu que venho ter com os jornalistas, porque o Hamas confiscou o meu escritório", explica, sentado a uma mesa do Hotel Al Deira, o mais bonito de Gaza, onde muitos jornalistas estrangeiros ficam alojados.
Aos 63 anos, é um típico deputado da velha guarda da Fatah, fato e gravata e relógio vistoso no pulso, cabelo e bigode grisalho. Esteve com Arafat no cerco de Beirute, foi com ele de barco para Tunes, todo o arsenal mítico da OLP. "
Hoje a Fatah está banida de Gaza. O Hamas confiscou-nos todos os edifícios e escritórios." E Ibrahim Naja ainda nem começou a escavar no pior. "
Fui preso três vezes pelo Hamas, em Julho de 2007, e em Janeiro e Agosto de 2008. Puseram--me um, dois e depois cinco dias numa cela subterrânea e raparam o meu bigode, o que aqui é um sinal de humilhação." Torturaram-no? "Quando um homem como eu é posto num subterrâneo sozinho, quando me rapam o bigode e o cabelo, quando ameaçam cortar--me as mãos e os pés, quando me insultam nas rádios e nos jornais do Hamas, o que é que isso quer dizer? Se eu não tivesse influência na rua, se não tivesse o apoio das pessoas, tinham-me torturado e matado. No dia em que me cortaram o bigode, milhares de homens raparam o bigode em solidariedade comigo, em Gaza e em Ramallah. Até em campos do Líbano e da Jordânia."
O Hamas acusava-o de quê? "Queriam que eu dissesse sim ao golpe deles, seria uma mensagem para os militantes da Fatah. Mas eu recusei e fui para casa." Não saiu de Gaza. "O Hamas foi eleito pelas pessoas, não há dúvida. O presidente Abbas deu-lhes autoridade para formar governo. Eles propuseram um governo de unidade. Depois fizeram o golpe e não percebemos porquê."
O Hamas alega que gente como Dahlan, por não ter engolido a derrota nas urnas, estava a promover tumultos para criar a impressão de caos em Gaza.
Ibrahim Naja contrapõe: "Os problemas foram começados pelo Hamas." E como é que a Fatah se tornou tão rapidamente invisível? "Porque não temos a mentalidade da guerra civil. Alguns foram embora, mas a maioria está aqui. Não é opção recuperarmos o poder pela guerra civil, portanto estamos em casa."
Mas muitos têm sofrido, afirma. "Dezenas de militantes da Fatah foram mortos em suas casas. Acha que isto não cria medo? Agora sou o único que fala, para manter os outros seguros." Já depois da guerra, garante, "cinco pessoas da Fatah foram mortas em casa, 80 foram presas e ainda estão nas mãos do Hamas". E o Hamas "alveja militantes nas pernas": "Tenho uma lista de nomes em casa. Depois de tomarem o poder, foram mais de 100."
O ministro da Justiça diz que o Hamas quer falar com a Fatah. Este deputado banido responde: "Porque não falam comigo? Eu estou aqui. Eles não estão a falar a sério. Se não têm prisioneiros, onde estive eu?" Em suma: "O Hamas está a mentir."
(publicado em 26 de Janeiro na edição impressa do Público)
Jan 25, 2009
Gaza, um túnel sem saída
É uma rede comercial subterrânea. Com o bloqueio, a faixa depende deles para tudo. Israel tentou destruí-los e arrasou as casas
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, Gaza
A família de Mohammed tem não um, mas dois túneis entre Gaza e o Egipto. Com o bloqueio das fronteiras, no último ano e meio, tem sido assim. Um boom. "Neste momento há 2000 ou 2500 túneis aqui", diz Mohammed, como se estivesse a falar de lojas. E de certa forma está.
Hoje [ontem], primeiro sábado depois do cessar-fogo, é dia de mercado em Rafah, a cidade no Sul de Gaza que faz fronteira com o Egipto, e Mohammed está a vender fogões a petróleo, um bem essencial ao longo da guerra. Durante semanas foi impossível encontrar gás. Ao lado dos fogões de cozinha, as famílias passaram a ter um pequeno fogão a petróleo, onde faziam toda a comida.
Agora, já se vende gás à entrada de Rafah, mas é preciso esperar horas numa fila de rapazes e homens sentados em botijas vazias.
Portanto, Mohammed continua a fazer negócio no mercado central. Tem um monte de pequenos fogões verdes no chão. "Trazemo-los por túneis, como tudo o que aqui está." Cafeteiras eléctricas, televisões, fraldas, queijo de triângulos.
"Antes desta guerra eu trabalhava nos túneis, trazia as coisas para o lado palestiniano, mas agora compro as coisas e vendo aqui." Com ajuda de alguém do outro lado. "Há um parceiro egípcio que põe as coisas no túnel. Não chegamos a andar nas ruas. A maior parte dos túneis vai sair por baixo de casas."
É assim que os túneis de Gaza são túneis sem saída. Os palestinianos arriscam a vida - e vários morrem - a andar de um lado para o outro debaixo da terra, mas não conseguem sair. Seriam repelidos. O Egipto não está interessado em ter refugiados, como se viu durante a guerra.
E por causa dos túneis, Rafah tornou-se o grande mercado da Faixa de Gaza desde que o Hamas tomou o poder, em Junho de 2007. Com Israel a bloquear as fronteiras, toda a zona junto à fronteira egípcia começou a ser escavada. Já havia algumas passagens, utilizadas pelos militantes para trazer armas e munições, mas agora é uma realidade doméstica. Faz parte de cada casa.
"As grandes famílias têm pelo menos um túnel", diz Mohammed, descontraidamente, já rodeado por uma multidão. Até que um velho de grandes barbas abre caminho e o ameaça com a bengala. "Porque estás a contar-lhe tudo isso? Os túneis são coisas nossas!"
Remendar a guerra
Entre o mercado e o muro da fronteira, os passeios de Rafah estão carregados de produtos frescos, acabados de chegar. Microondas, computadores, motas - até vacas são trazidas pelos túneis. O que não veio do Egipto vem da ajuda humanitária. Virando à direita, depois de mais um carro de burro carregado com um saco da ONU, aparece a linha da fronteira, ao fundo.
Esta é a zona de Rafah que mais sofreu durante a guerra. Já havia várias casas derrubadas por Israel, para garantir a vigilância da fronteira. Mas agora são mais as destruídas do que as que continuam em pé. Vêem-se montanhas de entulho fresco e famílias inteiras sentadas nas ruínas, de cabeça baixa, à espera de ajuda.
Já uns metros adiante, em plena Estrada de Filadélfia - o corredor poeirento que separa Gaza do Egipto -, vai uma actividade febril.
Para a direita, montes de terra com tendas brancas a perder de vista. Para a esquerda, mais montes de terra com tendas brancas a perder de vista. Cada tenda é um túnel. Ou seja, toda a linha de fronteira é agora uma linha de túneis. E ouvem-se tractores e escavadoras entre um formigueiro de miúdos e homens. Um estaleiro, a reparar os danos da guerra.
"Tudo isto começou com o bloqueio, se o bloqueio não existisse, não existiam túneis", resume Mustafá, de 28 anos, o dono do túnel mais próximo. É uma cratera de terra, com uma espécie de escada de metal por onde se desce. Agora não se pode descer porque a terra abateu. Uma escavadora anda para trás e para diante, enquanto dezenas assistem, com os pés enfiados na terra mole.
"Foi atingido por um F16", explica Mustafá. "Quarenta metros de túnel desabaram. E não sabemos dos danos do outro lado."
Quem está do outro lado? "Gente que trabalha para nós." O que é que costumam trazer? "O que as pessoas precisarem." A última vez que o túnel funcionou foi uns dias antes da guerra.
"Trouxemos roupa interior."Do outro lado da cratera, um miúdo fuma uma beata em cima de uma velha mesa de bilhar enfiada na terra, como a prancha de uma piscina. Ainda se vê o pano verde, em farrapos.
Mustafá demorou sete meses a construir o seu túnel. Tem 450 metros de comprimento e várias saídas do outro lado, consoante o que ele quer trazer. Ao longo da fronteira há túneis mais curtos e mais compridos. Alguns têm calhas para facilitar o transporte, outros têm a altura de um homem.
Neste é preciso ir a rastejar. "São 60 centímetros de altura e 40 de largura." Como é que se segura a terra lá dentro? "Com suportes de madeira e metal."
Mustafá não faz de conta que não é perigoso. "Já morreram cinco pessoas lá dentro, foram acidentes." Mas quanto a medo, o que tem a dizer é isto: "Deixámos de ter medo."
(publicado em 25 de Janeiro na edição impressa do Público)
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, Gaza
A família de Mohammed tem não um, mas dois túneis entre Gaza e o Egipto. Com o bloqueio das fronteiras, no último ano e meio, tem sido assim. Um boom. "Neste momento há 2000 ou 2500 túneis aqui", diz Mohammed, como se estivesse a falar de lojas. E de certa forma está.
Hoje [ontem], primeiro sábado depois do cessar-fogo, é dia de mercado em Rafah, a cidade no Sul de Gaza que faz fronteira com o Egipto, e Mohammed está a vender fogões a petróleo, um bem essencial ao longo da guerra. Durante semanas foi impossível encontrar gás. Ao lado dos fogões de cozinha, as famílias passaram a ter um pequeno fogão a petróleo, onde faziam toda a comida.
Agora, já se vende gás à entrada de Rafah, mas é preciso esperar horas numa fila de rapazes e homens sentados em botijas vazias.
Portanto, Mohammed continua a fazer negócio no mercado central. Tem um monte de pequenos fogões verdes no chão. "Trazemo-los por túneis, como tudo o que aqui está." Cafeteiras eléctricas, televisões, fraldas, queijo de triângulos.
"Antes desta guerra eu trabalhava nos túneis, trazia as coisas para o lado palestiniano, mas agora compro as coisas e vendo aqui." Com ajuda de alguém do outro lado. "Há um parceiro egípcio que põe as coisas no túnel. Não chegamos a andar nas ruas. A maior parte dos túneis vai sair por baixo de casas."
É assim que os túneis de Gaza são túneis sem saída. Os palestinianos arriscam a vida - e vários morrem - a andar de um lado para o outro debaixo da terra, mas não conseguem sair. Seriam repelidos. O Egipto não está interessado em ter refugiados, como se viu durante a guerra.
E por causa dos túneis, Rafah tornou-se o grande mercado da Faixa de Gaza desde que o Hamas tomou o poder, em Junho de 2007. Com Israel a bloquear as fronteiras, toda a zona junto à fronteira egípcia começou a ser escavada. Já havia algumas passagens, utilizadas pelos militantes para trazer armas e munições, mas agora é uma realidade doméstica. Faz parte de cada casa.
"As grandes famílias têm pelo menos um túnel", diz Mohammed, descontraidamente, já rodeado por uma multidão. Até que um velho de grandes barbas abre caminho e o ameaça com a bengala. "Porque estás a contar-lhe tudo isso? Os túneis são coisas nossas!"
Remendar a guerra
Entre o mercado e o muro da fronteira, os passeios de Rafah estão carregados de produtos frescos, acabados de chegar. Microondas, computadores, motas - até vacas são trazidas pelos túneis. O que não veio do Egipto vem da ajuda humanitária. Virando à direita, depois de mais um carro de burro carregado com um saco da ONU, aparece a linha da fronteira, ao fundo.
Esta é a zona de Rafah que mais sofreu durante a guerra. Já havia várias casas derrubadas por Israel, para garantir a vigilância da fronteira. Mas agora são mais as destruídas do que as que continuam em pé. Vêem-se montanhas de entulho fresco e famílias inteiras sentadas nas ruínas, de cabeça baixa, à espera de ajuda.
Já uns metros adiante, em plena Estrada de Filadélfia - o corredor poeirento que separa Gaza do Egipto -, vai uma actividade febril.
Para a direita, montes de terra com tendas brancas a perder de vista. Para a esquerda, mais montes de terra com tendas brancas a perder de vista. Cada tenda é um túnel. Ou seja, toda a linha de fronteira é agora uma linha de túneis. E ouvem-se tractores e escavadoras entre um formigueiro de miúdos e homens. Um estaleiro, a reparar os danos da guerra.
"Tudo isto começou com o bloqueio, se o bloqueio não existisse, não existiam túneis", resume Mustafá, de 28 anos, o dono do túnel mais próximo. É uma cratera de terra, com uma espécie de escada de metal por onde se desce. Agora não se pode descer porque a terra abateu. Uma escavadora anda para trás e para diante, enquanto dezenas assistem, com os pés enfiados na terra mole.
"Foi atingido por um F16", explica Mustafá. "Quarenta metros de túnel desabaram. E não sabemos dos danos do outro lado."
Quem está do outro lado? "Gente que trabalha para nós." O que é que costumam trazer? "O que as pessoas precisarem." A última vez que o túnel funcionou foi uns dias antes da guerra.
"Trouxemos roupa interior."Do outro lado da cratera, um miúdo fuma uma beata em cima de uma velha mesa de bilhar enfiada na terra, como a prancha de uma piscina. Ainda se vê o pano verde, em farrapos.
Mustafá demorou sete meses a construir o seu túnel. Tem 450 metros de comprimento e várias saídas do outro lado, consoante o que ele quer trazer. Ao longo da fronteira há túneis mais curtos e mais compridos. Alguns têm calhas para facilitar o transporte, outros têm a altura de um homem.
Neste é preciso ir a rastejar. "São 60 centímetros de altura e 40 de largura." Como é que se segura a terra lá dentro? "Com suportes de madeira e metal."
Mustafá não faz de conta que não é perigoso. "Já morreram cinco pessoas lá dentro, foram acidentes." Mas quanto a medo, o que tem a dizer é isto: "Deixámos de ter medo."
(publicado em 25 de Janeiro na edição impressa do Público)
Ibrahim, sem túnel e sem casa
Uma mulher toda de preto está sentada num bocado de cimento, com a cara pousada na mão. Não parece haver nada nos olhos dela. O vento vem e sacode o lenço, a saia, mas ela continua imóvel. "É a minha mulher", diz Ibrahim Mahdi, sentado num degrau, do outro lado da rua.
De lenço branco e bigode grisalho, Ibrahim é um mais-velho. Tem 63 anos, oito filhos, 60 netos e acaba de perder a casa para a qual poupou toda a vida. É junto aos destroços que a sua mulher está sentada.
Esta é a rua antes dos túneis que levam ao Egipto. Um alvo preferido da aviação israelita durante a guerra.
"Mandaram papéis do céu a dizer para sairmos das nossas casas porque iam bombardear", explica Ibrahim caminhando para os destroços. Mas em Gaza muita gente é duplamente refugiada, perdeu uma casa em 1948 e outra em 1967. Ibrahim tem idade para se lembrar e recusou-se a obedecer aos papéis.
"Não saímos. Até que uma manhã eram tantas as bombas que tivemos que fugir. E pouco depois a nossa casa foi destruída."
Desde 7 de Janeiro que está aqui. "Os meus vizinhos deixam-nos dormir naquele armazém", diz, mostrando os degraus onde estava sentado. "Tenho filhos fora e uma filha está em casa de parentes com os filhos." Perdeu tudo. "Quer ver as minhas roupas?" Aponta pedaços de tecido que aparecem entre o entulho.
Ibrahim compra e vende vegetais de Gaza. Não depende dos túneis e não tinha um túnel. "Um homem chegou a oferecer-me 150 mil dólares para fazer um túnel por baixo da minha casa, mas recusei, era onde eu vivia, não queria perdê-la."
Agora perdeu-a por causa dos túneis, mas mesmo assim não diz mal deles. "Israel fechou as fronteiras. Um litro de gasolina chegou a 25 shekels [cinco euros]. Hoje, graças aos túneis, custa 3,5 [70 cêntimos]. Não tínhamos fraldas, leite, comida. Estes túneis ligaram-nos à vida. Tudo o que possa imaginar que as pessoas precisam vem dos túneis." Incluindo armas. "Mas um míssil passa por estes túneis?", contesta Ibrahim. "Os túneis não permitem armas dessas. Mas se falamos de comida, sim, tudo vem para Gaza através dos túneis."
O seu vizinho do lado, por exemplo, teve mais sorte. "Tem três túneis por baixo, e não lhe destruíram a casa. Porque é que destroem a minha? Os túneis são uma desculpa. Querem que sejamos refugiados." E ao acenar, de volta ao seu degrau, diz: "O que sinto é como se fosse 1948 outra vez."
A.L.C., em Gaza
(publicado em 25 de Janeiro na edição impressa do Público)
De lenço branco e bigode grisalho, Ibrahim é um mais-velho. Tem 63 anos, oito filhos, 60 netos e acaba de perder a casa para a qual poupou toda a vida. É junto aos destroços que a sua mulher está sentada.
Esta é a rua antes dos túneis que levam ao Egipto. Um alvo preferido da aviação israelita durante a guerra.
"Mandaram papéis do céu a dizer para sairmos das nossas casas porque iam bombardear", explica Ibrahim caminhando para os destroços. Mas em Gaza muita gente é duplamente refugiada, perdeu uma casa em 1948 e outra em 1967. Ibrahim tem idade para se lembrar e recusou-se a obedecer aos papéis.
"Não saímos. Até que uma manhã eram tantas as bombas que tivemos que fugir. E pouco depois a nossa casa foi destruída."
Desde 7 de Janeiro que está aqui. "Os meus vizinhos deixam-nos dormir naquele armazém", diz, mostrando os degraus onde estava sentado. "Tenho filhos fora e uma filha está em casa de parentes com os filhos." Perdeu tudo. "Quer ver as minhas roupas?" Aponta pedaços de tecido que aparecem entre o entulho.
Ibrahim compra e vende vegetais de Gaza. Não depende dos túneis e não tinha um túnel. "Um homem chegou a oferecer-me 150 mil dólares para fazer um túnel por baixo da minha casa, mas recusei, era onde eu vivia, não queria perdê-la."
Agora perdeu-a por causa dos túneis, mas mesmo assim não diz mal deles. "Israel fechou as fronteiras. Um litro de gasolina chegou a 25 shekels [cinco euros]. Hoje, graças aos túneis, custa 3,5 [70 cêntimos]. Não tínhamos fraldas, leite, comida. Estes túneis ligaram-nos à vida. Tudo o que possa imaginar que as pessoas precisam vem dos túneis." Incluindo armas. "Mas um míssil passa por estes túneis?", contesta Ibrahim. "Os túneis não permitem armas dessas. Mas se falamos de comida, sim, tudo vem para Gaza através dos túneis."
O seu vizinho do lado, por exemplo, teve mais sorte. "Tem três túneis por baixo, e não lhe destruíram a casa. Porque é que destroem a minha? Os túneis são uma desculpa. Querem que sejamos refugiados." E ao acenar, de volta ao seu degrau, diz: "O que sinto é como se fosse 1948 outra vez."
A.L.C., em Gaza
(publicado em 25 de Janeiro na edição impressa do Público)
Ahmad, seis anos, alvejado depois do cessar-fogo
A cama parece muito grande com um corpo tão pequeno, de fraldas. Ahmad, seis anos, está deitado, entubado, em coma, numa cama da Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital Al-Shifa, o maior de Gaza. Como faz calor, não há nada a cobri-lo. A barriga sobe e desce com a respiração. O relatório diz que foi alvejado a 22 de Janeiro.
Ou seja, vários dias depois do cessar-fogo.
Hani Al Shanti, um dos médicos intensivistas, mostra as radiografias. A bala aparece perfeitamente nítida no centro do crânio. "É uma bala de M16, as dos israelitas", diz. "Em Gaza só se usam kalashnikovs russas e essas balas são duas vezes mais compridas."
Mas como, se Israel declarou cessar fogo sábado à noite? "A família dele vive ao pé da fronteira, os soldados israelitas estavam a disparar e ele foi atingido." Foi o que os familiares de Ahmad contaram aos médicos.
"Eles estão lá fora, quer falar-lhes?", pergunta Hani. E leva o PÚBLICO ao átrio, onde Hajid, o pai da criança, espera com um grupo de familiares e vizinhos.
"Vivemos a um quilómetro da fronteira", conta ele. "Na quinta-feira, pelas nove e meia da manhã ouvimos tiros na fronteira e no mar, Ahmad estava a brincar lá fora e foi atingido." O genro acrescenta: "Eu estava com as crianças, Ahmad estava a comer um doce, e de repente caiu com a cara no chão."
Como sabem que a bala é israelita? "É uma bala de M16, que os israelitas usam, o que é comum em Gaza é a kalashnikov, e ninguém estava a disparar do nosso lado", diz o pai.
Toda a gente à volta quer dizer mais. "Os soldados continuam a disparar só para assustar as pessoas, afastá-las da fronteira", diz um. "Ainda ontem atingiram pessoas no campo de Bourj", diz outro. E o genro do pai: "Está convidada para vir a nossa casa esta noite e ouvir os disparos."
Morto no último dia
De volta à sua unidade, Hani Al Shanti vai até à cama em frente à de Ahmad, onde um homem parece dormir. "Já está morto, mas não podemos desligar a máquina, é ilegal, só quando a linha do coração estiver plana."
Este homem chama-se Mohammed Sarbou, tem 25 anos e é pescador. Estava na praia quando foi alvejado por um navio israelita. O relatório diz que isso aconteceu a 17 de Janeiro, o último dia da guerra. "A bala entrou pelo meio da testa", explica Hani.
Todos os médicos do Al Shifa têm histórias terríveis desta guerra, desde os primeiros minutos, quando chegaram 188 mortos e centenas de feridos ao hospital.
"Vi uns 150 feridos morrerem nesse dia", conta Hani. "Não consegui não chorar. Eles estavam simplesmente aqui pelo chão e não podíamos fazer nada por eles."
Kamal Abu Abada, outro médico intensivista, tinha acabado de sair de serviço quando começou o bombardeamento. "Fiquei parado à porta do hospital sem saber se ia ver da minha família ou se voltava ao trabalho." Decidiu voltar. "No tempo de vestir a bata já o hospital tinha sido inundado com mortos e feridos."
Um dos alvos desse megabombardeamento simultâneo foi uma sede da polícia a 130 metros do hospital. " Começámos a abrir mais unidades de cuidados intensivos em todo o lado. Passámos de 11 para 35 camas." Ao longo de toda a guerra receberam 5500 feridos.
Abada tem 52 anos, Hani 32. Duas gerações de intensivistas. Como descrevem o que aconteceu a Gaza nesta guerra? "Um tsunami", diz Abada. "Foi a Zeytun? A Atattra?. Quando voltei lá nem consegui encontrar as casas que me eram familiares. E neste hospital foi a pior situação que já vivemos. A quantidade de casos e o tipo de casos."
A. L. C., Gaza
(publicado em 25 de Janeiro na edição impressa do Público)
Ou seja, vários dias depois do cessar-fogo.
Hani Al Shanti, um dos médicos intensivistas, mostra as radiografias. A bala aparece perfeitamente nítida no centro do crânio. "É uma bala de M16, as dos israelitas", diz. "Em Gaza só se usam kalashnikovs russas e essas balas são duas vezes mais compridas."
Mas como, se Israel declarou cessar fogo sábado à noite? "A família dele vive ao pé da fronteira, os soldados israelitas estavam a disparar e ele foi atingido." Foi o que os familiares de Ahmad contaram aos médicos.
"Eles estão lá fora, quer falar-lhes?", pergunta Hani. E leva o PÚBLICO ao átrio, onde Hajid, o pai da criança, espera com um grupo de familiares e vizinhos.
"Vivemos a um quilómetro da fronteira", conta ele. "Na quinta-feira, pelas nove e meia da manhã ouvimos tiros na fronteira e no mar, Ahmad estava a brincar lá fora e foi atingido." O genro acrescenta: "Eu estava com as crianças, Ahmad estava a comer um doce, e de repente caiu com a cara no chão."
Como sabem que a bala é israelita? "É uma bala de M16, que os israelitas usam, o que é comum em Gaza é a kalashnikov, e ninguém estava a disparar do nosso lado", diz o pai.
Toda a gente à volta quer dizer mais. "Os soldados continuam a disparar só para assustar as pessoas, afastá-las da fronteira", diz um. "Ainda ontem atingiram pessoas no campo de Bourj", diz outro. E o genro do pai: "Está convidada para vir a nossa casa esta noite e ouvir os disparos."
Morto no último dia
De volta à sua unidade, Hani Al Shanti vai até à cama em frente à de Ahmad, onde um homem parece dormir. "Já está morto, mas não podemos desligar a máquina, é ilegal, só quando a linha do coração estiver plana."
Este homem chama-se Mohammed Sarbou, tem 25 anos e é pescador. Estava na praia quando foi alvejado por um navio israelita. O relatório diz que isso aconteceu a 17 de Janeiro, o último dia da guerra. "A bala entrou pelo meio da testa", explica Hani.
Todos os médicos do Al Shifa têm histórias terríveis desta guerra, desde os primeiros minutos, quando chegaram 188 mortos e centenas de feridos ao hospital.
"Vi uns 150 feridos morrerem nesse dia", conta Hani. "Não consegui não chorar. Eles estavam simplesmente aqui pelo chão e não podíamos fazer nada por eles."
Kamal Abu Abada, outro médico intensivista, tinha acabado de sair de serviço quando começou o bombardeamento. "Fiquei parado à porta do hospital sem saber se ia ver da minha família ou se voltava ao trabalho." Decidiu voltar. "No tempo de vestir a bata já o hospital tinha sido inundado com mortos e feridos."
Um dos alvos desse megabombardeamento simultâneo foi uma sede da polícia a 130 metros do hospital. " Começámos a abrir mais unidades de cuidados intensivos em todo o lado. Passámos de 11 para 35 camas." Ao longo de toda a guerra receberam 5500 feridos.
Abada tem 52 anos, Hani 32. Duas gerações de intensivistas. Como descrevem o que aconteceu a Gaza nesta guerra? "Um tsunami", diz Abada. "Foi a Zeytun? A Atattra?. Quando voltei lá nem consegui encontrar as casas que me eram familiares. E neste hospital foi a pior situação que já vivemos. A quantidade de casos e o tipo de casos."
A. L. C., Gaza
(publicado em 25 de Janeiro na edição impressa do Público)
"Encontrámos queimaduras estranhas"
Israel admite ter usado fósforo branco em Gaza, embora não de forma criminosa, e anunciou um inquérito. Arma incendiária, o fósforo branco tem sido usado por tropas internacionais como ecrã de fumo em zonas do Afeganistão e do Iraque. Mas é considerado crime de guerra quando aplicado em zonas muito povoadas. A Faixa de Gaza, com um milhão e meio de habitantes, é uma das zonas mais densamente povoadas do mundo.
Na Unidade de Queimados do Hospital Al Shifa, em Gaza, o especialista Aladin Ali diz que várias análises foram enviadas para o estrangeiro e estão à espera de resultados. Até lá, o que adianta é isto: "Encontrámos algumas estranhas queimaduras nesta guerra, que nunca tínhamos visto. Queimaduras em grandes áreas do corpo, 70 por cento, às vezes 100 por cento. Uma queimadura circular, muito profunda, até ao osso, o que significa que estranhas armas foram usadas." Os feridos mais graves morreram logo, mas ainda há centenas de internados nesta unidade.
O Comité Internacional da Cruz Vermelha confirmou que Israel usou fósforo branco na guerra em Gaza, mas não adianta conclusões sobre se o uso que Israel fez pode ser considerado criminoso. A ONU criticou o uso de fósforo branco em Gaza, e tanto a Amnistia Internacional como a Humans Right Watch estão a investigar.
A.L.C., Gaza
Na Unidade de Queimados do Hospital Al Shifa, em Gaza, o especialista Aladin Ali diz que várias análises foram enviadas para o estrangeiro e estão à espera de resultados. Até lá, o que adianta é isto: "Encontrámos algumas estranhas queimaduras nesta guerra, que nunca tínhamos visto. Queimaduras em grandes áreas do corpo, 70 por cento, às vezes 100 por cento. Uma queimadura circular, muito profunda, até ao osso, o que significa que estranhas armas foram usadas." Os feridos mais graves morreram logo, mas ainda há centenas de internados nesta unidade.
O Comité Internacional da Cruz Vermelha confirmou que Israel usou fósforo branco na guerra em Gaza, mas não adianta conclusões sobre se o uso que Israel fez pode ser considerado criminoso. A ONU criticou o uso de fósforo branco em Gaza, e tanto a Amnistia Internacional como a Humans Right Watch estão a investigar.
A.L.C., Gaza
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