Jan 25, 2009

Ibrahim, sem túnel e sem casa

Uma mulher toda de preto está sentada num bocado de cimento, com a cara pousada na mão. Não parece haver nada nos olhos dela. O vento vem e sacode o lenço, a saia, mas ela continua imóvel. "É a minha mulher", diz Ibrahim Mahdi, sentado num degrau, do outro lado da rua.

De lenço branco e bigode grisalho, Ibrahim é um mais-velho. Tem 63 anos, oito filhos, 60 netos e acaba de perder a casa para a qual poupou toda a vida. É junto aos destroços que a sua mulher está sentada.

Esta é a rua antes dos túneis que levam ao Egipto. Um alvo preferido da aviação israelita durante a guerra.

"Mandaram papéis do céu a dizer para sairmos das nossas casas porque iam bombardear", explica Ibrahim caminhando para os destroços. Mas em Gaza muita gente é duplamente refugiada, perdeu uma casa em 1948 e outra em 1967. Ibrahim tem idade para se lembrar e recusou-se a obedecer aos papéis.

"Não saímos. Até que uma manhã eram tantas as bombas que tivemos que fugir. E pouco depois a nossa casa foi destruída."

Desde 7 de Janeiro que está aqui. "Os meus vizinhos deixam-nos dormir naquele armazém", diz, mostrando os degraus onde estava sentado. "Tenho filhos fora e uma filha está em casa de parentes com os filhos." Perdeu tudo. "Quer ver as minhas roupas?" Aponta pedaços de tecido que aparecem entre o entulho.

Ibrahim compra e vende vegetais de Gaza. Não depende dos túneis e não tinha um túnel. "Um homem chegou a oferecer-me 150 mil dólares para fazer um túnel por baixo da minha casa, mas recusei, era onde eu vivia, não queria perdê-la."

Agora perdeu-a por causa dos túneis, mas mesmo assim não diz mal deles. "Israel fechou as fronteiras. Um litro de gasolina chegou a 25 shekels [cinco euros]. Hoje, graças aos túneis, custa 3,5 [70 cêntimos]. Não tínhamos fraldas, leite, comida. Estes túneis ligaram-nos à vida. Tudo o que possa imaginar que as pessoas precisam vem dos túneis." Incluindo armas. "Mas um míssil passa por estes túneis?", contesta Ibrahim. "Os túneis não permitem armas dessas. Mas se falamos de comida, sim, tudo vem para Gaza através dos túneis."

O seu vizinho do lado, por exemplo, teve mais sorte. "Tem três túneis por baixo, e não lhe destruíram a casa. Porque é que destroem a minha? Os túneis são uma desculpa. Querem que sejamos refugiados." E ao acenar, de volta ao seu degrau, diz: "O que sinto é como se fosse 1948 outra vez."

A.L.C., em Gaza

(publicado em 25 de Janeiro na edição impressa do Público)

1 comment:

Rui Magalhães said...

Com muros à volta como é que podem obter o que necessitam?! Só mesmo com túneis.
E armas?!
Nao teem direito a se defender quando sao atacados?!
Os rockets é uma desculpa e apenas sao usados pelo hamas para mostrar que estao vivos e para lhe darem atençao e de alguma forma pressionar israel..
Quantos mortos houve devido a rockets?
E quantos civis israel matou?!
Imcomparavel