Jan 29, 2009

Um míssil entre duas escolas, dois rockets populares

Reportagem

Alexandra Lucas Coelho, em Gaza

O buraco do míssil israelita está no asfalto, numa rua movimentada, frente a um hospital e entre duas escolas, uma à direita, outra à esquerda. Foi por isso que hoje, quando as forças israelitas quiseram matar um militante do Hamas — em retaliação pela morte de um soldado israelita — acabaram por ferir seis crianças, além de um homem.

“Eram umas 11 e meia da manhã”, conta Bassam, de 35 anos, que está na loja em frente ao buraco. O militante do Hamas ia a passar numa mota quando o míssil lhe acertou, ferindo quem estava mais perto. Na rua ainda há restos de sangue.

“As minhas portas caíram e os meus frigoríficos ficaram destruídos”, diz Bassam, mostrando os destroços.

Esta é uma das ruas comerciais do campo de refugiados de Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza. A explosão do lado israelita da fronteira — que na terça-feira matou um soldado e feriu três — aconteceu não muito longe daqui. Israel contra-atacou, alvejando um militante do Hamas, e além dele matou um agricultor. Na madrugada de quarta, bombardeou os túneis de Rafah que vão dar ao Egipto. O míssil nesta rua foi a terceira resposta, depois de Israel ter avisado os habitantes que ia proceder em breve à operação Flor Vermelha.

Entretanto, dois rockets foram lançados para o lado israelita, sem ferir ninguém. Um deles foi atribuído às Brigadas Al Aqsa, ligadas à Fatah, e o outro a um pequeno grupo islâmico. Eram rockets muito artesanais, sem o alcance dos do Hamas. Mas sejam de quem for, estes rockets têm aprovação popular. “É natural, porque vivemos sob ocupação e devemos resistir”, diz Bassam. E em volta, mais vozes. “Queremos mais rockets”, diz um. “Queremos rockets até abrirem as fronteiras de Gaza”, diz outro.

Que conseguiram os rockets, além de terem sido argumento para uma guerra devastadora? “Pelo menos afirmam os nossos direitos, é uma forma de a nossa causa não ser esquecida”, diz Bassam.

Os feridos foram para o Hospital Nasser, que fica do outro lado da rua. Os mais graves estão na cirurgia. Abdelmajid é dos menos graves e por isso está numa camarata sem qualquer aparelho nem pessoal médico, simplesmente deitado em cima de um colchão, com as duas pernas ligadas. Foi ferido por estilhaços. A mãe, de cara completamente tapada, conta que ele vinha da escola quando o míssil caiu.

Atravessando de novo a rua para a escola da esquerda, uma jovem mãe, Hansan, 25 anos, veio buscar a sua filha de oito. Sabe do que aconteceu esta manhã, e também aprova os rockets. “São uma auto-defesa. Apesar de não atingirem os israelitas, concordo com eles.” É apoiante do Hamas? Ela sorri. “Não, mas sou uma apoiante da resistência.”

Chega um pai, de fato ocidental. Chama-se Mussa e tem dez filhos. Só mais a nova ainda está nesta escola. Não é da Fatah nem do Hamas. E também ele defende os rockets. “A nossa vida desde há muito é a guerra. Os israelitas estão decididos a continuar com ela. Nós não temos alternativa senão resistir. [o presidente] Abu Mazen passou anos em negociações e não lhe deram nada. Claro que eu rezo para a paz, é o nosso objectivo, mas não qualquer paz — uma paz justa.”

5 comments:

Maria said...

Cara Alexandra:

Muito obrigada pelo seu trabalho. Como ser humano em primeiro lugar e como defensora da causa palestiniana agradeço-lhe todas as palavras!

Maria

Anonymous said...

Olá Alexandra,

Entendo que é importante falarmos do que se passa na faixa de Gaza, como tal o seu blogue é fundamental para não deixar cair no esquecimento o que lá acontece, nem as atrocidades que são cometidas.

Numa altura em que o jornalismo está todo focalizado para o jornalismo económico de sensação, caso "Freeport", é vital que se informe o que se passa nesta guerra profundamente desumana.

De um lado temos os famosos rockets, que segundo as notícias em seis anos mataram 8,9..10 israelitas. De o outro lado temos uma máquina de guerra que em 30 dias matou mil y muitos palestenianos, incluindo trezentas y n crianças !!!

Serão os rockets uma forma de defesa ? De resistência ? Entendo que o desespero da gente da palestina é tão grande e profundo, perante as constantes atrocidades cometidas por Israel, que chego a pensar que o "envio" dos "famosos" rockets serve "provocar" os ataques de Israel, servindo desta forma para que a Comunidade Internacional não esquece o conflito que se arrasta desde há vários anos.

É importante blogues como o seu, só espero que com ele todos nós façamos o que está ao nosso alcance para que este sofrimento desapareça!!

JAC

PR said...

Ainda não aprendemos a educar as pessoas. o pior é que nunca o vamos conseguir

PR said...

Ainda nao aprendemos a educar as pessoas, e nunca mais o vamos aprender.

PR said...

Ainda nao sabemos educar os seres humanos.