Israel precisa de pais e os trabalhistas são os avós. Estão em quarto nas sondagens. O senso comum andou para a direita e acha que a guerra foi pouco
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, em Telavive
Erez Abu tem um nariz de borracha comprido e arrebitado. “É o nariz do Bibinóquio”, diz ele, em frente à sede de Bibi Netanyahu, em Telavive. A rua está cheia de bicicletas, gente a fazer “jogging” e às compras para o jantar de Shabat, porque é sexta-feira de manhã e faz um sol esplêndido.
Os camaradas de Erez vão dando cartões a quem passa. O cartão tem a cara de Netanyahu metida num Pinóquio do Walt Disney, e por baixo diz: “Bibinóquio bem amado, vem contar-nos histórias.”
Um dos camaradas faz de Bibinóquio, com máscara, megafone e uma etiqueta a dizer “Ricos” no peito, enquanto brada: “É preciso salvar os ricos!”
Do outro lado da rua, o quartel-general do Likud mantém-se impávido, sem sinais de vida.
“Netanyahu é alguém em que não se pode confiar, e estamos aqui a contar todos os disparates que ele conta”, explica Erez, 26 anos, coordenador de campanha da Juventude Trabalhista e ex-conselheiro de Ehud Barak, líder do partido, actual ministro da Defesa.
O Partido Trabalhista é uma instituição centenária. Os seus líderes fundaram o Estado de Israel e durante 30 anos estiveram no poder. E a partir do momento em que a direita – o Likud de Menahem Begin – conquistou o poder em 1977, os trabalhistas entraram em queda, com altos e baixos.
Em 2005, quando Sharon saiu do Likud para formar o Kadima, uma parte dos trabalhistas, a começar por Shimon Peres, mudou-se para o novo partido.
E estas eleições são um momento particularmente baixo para os trabalhistas. Na última sondagem antes das eleições publicada ontem pelo diário “Ha’aretz”, continuavam claramente em quarto lugar (Likud 27, Kadima 25, Yisrael Beytenu 18, Labour 14).
Como é que o partido dos pais fundadores chegou a uma decadência tal que está quatro lugares atrás da extrema-direita de Avigdor Lieberman?
“As pessoas estão a punir-nos por durante muito tempo o partido não ter acreditado em si próprio e por se ter juntado a toda a gente em coligações”, diz Erez. “Mas espero que percebam que este partido é muito importante para a democracia. Se não for segundo ou terceiro, é um perigo, porque o Kadima e o Likud são quase o mesmo, e desaparece a alternativa.” Esta campanha, diz Erez, é uma nova tentativa dos trabalhistas.
Mas as tensões internas continuam. Barak disse que não excluía uma coligação com Lieberman. Vários membros do partido, como a ministra da Educação, Yuli Tamir, são contra.
E a juventude trabalhista está com eles. “As ideias de Lieberman são assustadoras. Vemo-lo como um fenómeno social perigoso, e temos que o parar. Dar legitimidade a um político destes será o caminho para ele ser o próximo primeiro-ministro.”
O recém-chegado
Apesar da queda, os trabalhistas ganharam há seis meses um reforço, Daniel Bensimon, nome conhecido da imprensa. “Eu era um jornalista frustrado”, diz. “Achava que tinha o poder de mudar a realidade e concluí que os jornalistas influenciam, mas o poder está nos políticos, por isso decidir dar o salto.” A pensar na liderança? “Seria presunçoso dizer isso. Sou o novo tipo na cidade, a tentar encontrar o seu lugar num partido muito complicado. Pergunte-me daqui a dois ou três anos.”
Como explica a decadência trabalhista? “Este partido existe há 100 anos, criou um país e está a ficar cansado. Há a ideia de que o país precisa de novos pais, e os trabalhistas são vistos como os avós.” E se se confirmar o quarto lugar? “Será sinal de que nada mudou. De que precisamos de uma nova agenda e de uma nova liderança.”
Que faria Bensimon quanto a uma coligação com Lieberman? “Sou contra.” Discorda, pois, de Barak. “Barak é Barak e Bensimon é Bensimon. Os trabalhistas nunca foram totalitários. Pode encontrar-se de tudo no partido.”
Esse parece ser, justamente, um dos problemas.
De volta ao protesto da juventude trabalhista, Erez avalia Bensimon: “Tem os traços de um líder, é muito carismático, as pessoas simplesmente se rendem ao seu charme. Mas precisa de muita experiência.” É o que outros votantes tradicionais também acham.
Guerra pouco brutal
“Barak é visto como um bom ministro da Defesa, e as pessoas querem que ele continue no posto, mas não que seja primeiro-ministro”, diz Uzi Benziman, colunista do “Ma’ariv”. “Talvez se lembrem de como ele foi incompetente como primeiro-ministro.”
Há uma imagem de duro associada a Barak, e a sua actuação na Defesa, durante a guerra de Gaza, fortaleceu essa imagem. Mas ao mesmo tempo a guerra levou os israelitas para a direita. A sensação comum é que Israel está cercado: de um lado o Hamas em Gaza, por cima o Hezzbollah do Líbano, e acima de tudo isto o inimigo-mor, o Irão, apostado em destruir o Estado judaico.
Este clima é tão forte que não só a guerra de Gaza foi muito popular como, alerta Benziman, muita gente acha que podia ter sido mais dura. “Duas ou três semanas depois, as pessoas estão desapontadas por não se terem partido os ossos ao Hamas, por não se ter resolvido o problema. O senso comum é que devíamos ter sido mais brutais.”
Isso enfraquece toda a esquerda, incluindo os trabalhistas, e fortalece um fenómeno como Lieberman. “As pessoas estão fartas. A forma como vêem o conflito é assim: “Saímos de Gaza e do Líbano e o Hamas e o Hezzbolah continuam a ser uma ameaça, nós somos os bons tipos e olha a recompensa.”
Este analista acha que Likud e Kadima terão só uns três ou quatro lugares de diferença. “Nenhum será suficientemente forte e terão que ficar dependentes dos outros.” Que outros? “Se Bibi ganhar, creio que se virará para Barak e talvez também para o Kadima.” Portanto, os trabalhistas poderão manter-se no governo.
Netanyahu disse que ofereceria um ministério “importante” a Lieberman. “É possível. Mas ninguém sabe se Lieberman se manterá na política depois das eleições. Está a ser investigado criminalmente.” E se acontecer que Lieberman seja preso por corrupção? “Aquele partido tem 18 lugares nas sondagens e ninguém sabe quem são os outros candidatos.”
(publicado em 7 de Fevereiro na edição impressa do Público)
Feb 7, 2009
Feb 6, 2009
As meninas
Crónica
Houve correio em Gaza. No dia a seguir a eu ter escrito que não havia, Ayman recebeu uma carta da Al Jazeera. Ficou a olhar para o envelope. No ano passado, Lulu tinha enviado um email à Al Jazeera Crianças, com a sua morada (Al Zahra City, prédio tal, 6º andar, Gaza) e lá do Qatar eles enviaram-lhe um postal de Ramadão a 3 de Agosto de 2008. É verdade que demorou seis meses, mas há 10 anos que Ayman não vê correio em Gaza.
É a idade de Lulu, a mais velha das meninas.
Fiquei a matutar. As fronteiras de Gaza mantêm-se fechadas, e não circulam carteiros de emergência entre os destroços de 20 mil casas. Como terá chegado a carta?
Ayman recebeu-a do merceeiro ao lado da farmácia. Alguém a entregou, sabendo que a família do 6º andar lá passaria. Mas quem?
A Al Jazeera tem os seus meios, diz Ayman, que acha que a carta veio por um dos túneis que ligam Gaza ao Egipto, onde os palestinianos rastejam centenas de metros para trazer tudo o que falta.
Claro que muitas coisas não há meio de caberem nos túneis, como Ayman ir ver a tia a Beersheva, Heba ir ver a prima ao Canadá, ou parques como Lulu, Mimi e Nunu vêem na televisão.
Nunca ouvi as meninas a chorar e não as imagino a fazer uma birra.
Em Agosto de 2005, quando os colonos saíram de Gaza, Lulu mostrou-me o seu primeiro caderno de inglês ao som daquele poc-poc-poc, que parece pipocas e são tiros. Em Junho de 2006, quando os F16 cortavam a barreira do som todas as noites, o que é como se a cabeça explodisse, e depois começaram a largar bombas, as meninas saltavam à corda na sala iluminada a gás. Em Junho de 2007, quando o Hamas tomou o poder após um combate com a Fatah que fez mais de 100 mortos, Lulu, Mimi e Nunu encavalitaram-se no sofá para mostrar as fotografias do casamento dos pais, e antes, e depois.
Voltámos às fotografias agora, e lá estava Ayman, bolseiro de Farmácia nas Filipinas, lá está Heba, de longos cabelos brilhantes, as meninas bebés, pestanudas, Lulu e Mimi cheias de caracóis, como o pai. E agora Nunu, a pequenina, já tem sete anos e menos dois dentes à frente. Como estão os teus túneis?, pergunta-lhe Ayman. E ela ri, e esconde-se no pescoço dele.
As meninas dormem em duas camas encostadas como se fosse uma grande. De manhã só se acham prontas depois dos caracóis estaram bem puxados para trás, e com uma fita.
Quando vêm ter com os pais, ficam com um braço à volta deles, ou meio sentadas no colo. Numa das noites em que não havia luz, estavam a brincar no patamar do vizinho que tem gerador. Em Al Zahra City, quem tem água oferece água, quem tem gerador oferece luz. Havia dezenas de meninos. Nunu, com os seus olhos de chinesa a rir, tomava conta de um ainda com fraldas.
Andam as três ansiosas por um irmãozinho. Os pais estão a tentar. Até tentaram na guerra. Uma das coisas que Ayman descobriu na guerra é que Heba não tem medo de morrer. Os tanques a dispararem e ela a estender roupa. Toda a gente colada ao chão e ela a arrumar a casa. Chegou o dia de tentar e qual guerra.
Quando lá estive, depois da guerra, as meninas saíam para a escola de manhã e eu saía com Ayman. Heba passou dias a inventar bordados da Palestina. Borda tão bem como cozinha, mesmo num pequeno fogareiro, mesmo à luz de um candeeiro a gás, compotas ou frango com sementes de sésamo. As meninas ajudam sempre.
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O terceiro lugar nas eleições ainda não é certo
Análise
Alexandra Lucas Coelho, Ashdod
As sondagens dão o Likud em primeiro, o Kadima em segundo, a curta distância, e o Yisrael Beytanu, de Avigdor Lieberman, em terceiro. Só depois vem o Partido Trabalhista, que durante os primeiros 30 anos de Israel foi dominante.
É uma viragem à direita, acentuada pela guerra de Gaza. E um dos mais lidos analistas políticos, Nahum Barnea, do jornal Yedioth Aharonot, não tem dúvidas de que "Lieberman vai conseguir uma votação impressionante, sim", mas não é seguro que consiga o terceiro lugar.
"As sondagens são um problema em Israel", explica Barnea. "As pessoas estão cépticas, tão cínicas em relação à política que não se expõem. Militantes da Rússia dizem que ainda não decidiram ou então enganam. Tornou-se uma piada."
Este analista não confia nos números, confia na tendência. E a tendência é uma subida de Lieberman. "Se nas anteriores eleições ele já tinha conseguido os votos russos, agora está a conseguir jovens votantes nascidos em Israel, e soldados, veteranos, que tendem a ser mais à direita que o establishment. O Likud de Bibi é parte do establishment."
Mas Lieberman está também a conseguir votos tradicionais do Likud.
Ontem, Netanyahu declarou-se pronto a oferecer um ministério "importante" a Lieberman. Segundo o Yedioth Ahronot, Lieberman quereria a Defesa, o que não será provável.
Mas tudo isto são especulações muito à frente dos resultados.
Devido ao sistema eleitoral israelita, não haverá um governo "antes de meio de Março", ressalva Barnea.
Há duas batalhas. Uma está em curso, é a batalha pela vitória nas eleições. Outra será em torno dos vários cenários de coligação.
Barnea aponta 70 por cento de hipóteses de Bibi formar governo, contra 30 de Tzipi Livni. E resta em aberto que tipo de governo poderá Bibi formar. "Ele prefere um governo de unidade nacional a um governo de direita", diz Barnea. Não é uma questão ideológica, é pragmática. "Prefere aquele que seja mais forte."
Alexandra Lucas Coelho, Ashdod
As sondagens dão o Likud em primeiro, o Kadima em segundo, a curta distância, e o Yisrael Beytanu, de Avigdor Lieberman, em terceiro. Só depois vem o Partido Trabalhista, que durante os primeiros 30 anos de Israel foi dominante.
É uma viragem à direita, acentuada pela guerra de Gaza. E um dos mais lidos analistas políticos, Nahum Barnea, do jornal Yedioth Aharonot, não tem dúvidas de que "Lieberman vai conseguir uma votação impressionante, sim", mas não é seguro que consiga o terceiro lugar.
"As sondagens são um problema em Israel", explica Barnea. "As pessoas estão cépticas, tão cínicas em relação à política que não se expõem. Militantes da Rússia dizem que ainda não decidiram ou então enganam. Tornou-se uma piada."
Este analista não confia nos números, confia na tendência. E a tendência é uma subida de Lieberman. "Se nas anteriores eleições ele já tinha conseguido os votos russos, agora está a conseguir jovens votantes nascidos em Israel, e soldados, veteranos, que tendem a ser mais à direita que o establishment. O Likud de Bibi é parte do establishment."
Mas Lieberman está também a conseguir votos tradicionais do Likud.
Ontem, Netanyahu declarou-se pronto a oferecer um ministério "importante" a Lieberman. Segundo o Yedioth Ahronot, Lieberman quereria a Defesa, o que não será provável.
Mas tudo isto são especulações muito à frente dos resultados.
Devido ao sistema eleitoral israelita, não haverá um governo "antes de meio de Março", ressalva Barnea.
Há duas batalhas. Uma está em curso, é a batalha pela vitória nas eleições. Outra será em torno dos vários cenários de coligação.
Barnea aponta 70 por cento de hipóteses de Bibi formar governo, contra 30 de Tzipi Livni. E resta em aberto que tipo de governo poderá Bibi formar. "Ele prefere um governo de unidade nacional a um governo de direita", diz Barnea. Não é uma questão ideológica, é pragmática. "Prefere aquele que seja mais forte."
O paizinho deles chama-se Avigdor Lieberman
Lieberman está a atrair também israelitas que não vieram da ex-URSS
Gali Tibbon/AFP
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, Ashdod
A URSS não acabou. Isto é a URSS numa sala em Israel: Victoria, de 67 anos, de Murmansk. Ludmila, de 72, de São Petersburgo. Elisavieta, de 61, de Minsk. Ela, de 55, de Moscovo. Avraham, de 76, de Odessa. E na outra sala: Lvov, Nijninovgorod, Baku, Ekaterineburgo.
Quem são estas pessoas? Cidadãos de Israel. Chegaram quase todos entre 1991 e 2000, depois do império soviético cair. Que fazem nestas salas? Trabalham para Avigdor Lieberman, a avalanche da campanha israelita.
Lieberman também veio de lá, da URSS (da Moldova). Fala russo. Sabe falar com eles. E, sobretudo, depois da guerra de Gaza, já fala para muitos israelitas da direita tradicional, nascidos em Israel, que não sabem ler cirílico nem nunca comeram porco.
Aqui, em Ashdod - cidade à beira-mar, entre Telavive e Gaza -, cirílico é mato, e porco, já vão ver. Não é kosher, mas Ashdod não é uma cidade religiosa, pelo menos vista desta Praça da Cidade, reconhecível por um enorme bico de metal no meio. "À noite projecta um laser que cobre Ashdod e é maravilhoso", descreve Eli Nacht.
Quem é Eli Nacht? Um cavalheiro. Guiou o PÚBLICO pela campanha Lieberman em três línguas (hebraico, russo, inglês) e sem uma falha de etiqueta (deixar passar as senhoras, abrir-lhes a porta do carro, desculpar-se porque está sujo).
O carro reluzia de novo, e Eli reluzia num fato cinza, sapatos em bico, gel e barba desenhada. Aos 26 anos, advogado, a tirar um mestrado de Comunicação em Política, é um candidato do partido Yisreal Beytenu, de Lieberman, em terceiro nas sondagens, à frente dos trabalhistas. E também está nos cartazes, numa das salas de campanha, na Praça da Cidade.
Lá dentro, milhares de posters e ímanes Lieberman. E quatro mulheres mais do que avós, atarefadas. "Estão a telefonar para saber se as pessoas precisam que as vamos buscar no dia das eleições", explica Eli. "São voluntárias."
Por exemplo, Victoria e Ludmilla. "Lieberman é sólido", diz uma. "Nós queremos paz, mas não acreditamos nos árabes." E a outra: "Todas as nossas crianças têm medo deles." Uma diz mata: "Passámos por muitos governos, todos lhes deram a mão e fomos enganados." A outra diz esfola: "Não acredito nos árabes, sejam de Israel ou dos territórios."
Avigdor Lieberman tem uma ideia para os árabes de Israel (aqueles que já cá estavam em 1948, e não se viram forçados a deixar as suas casas). Ou assinam uma declaração de "lealdade" com o Estado judaico ou deixam de ter direitos.
Os árabes de Israel deviam deixar de ser israelitas? Vitória e Ludmilla acenam com a cabeça. "Da, kanieshna." Sim, claro.
Aqui toda a gente fala russo entre si. E mesmo Eli, que chegou a Israel quando tinha sete anos, fala russo com vários amigos da sua idade, porque sempre falou russo em casa, com os pais. "Lembro-me da guerra do Iraque, das bombas em Telavive, e os árabes a celebrar", continua Ludmilla. Para onde acham elas que os árabes de Israel deviam ir? "Há muitos países árabes."
Não é racismo, é sionismo
Eli, com as suas responsabilidades de candidato - e advogado - intervém, para que não fique uma impressão errada. "Se ler os jornais da esquerda, parece que Lieberman quer os árabes todos fora. Isso é errado. Ele só quer lidar com os que não são leais. É simples: as pessoas que vivem em Israel têm de querer viver em Israel. Não os queremos exilar. Só queremos que quando somos bombardeados eles não ajudem quem nos ataca. Isto não é racismo, é sionismo."
Mas não são só os jornais que põem Lieberman na extrema-direita. Do centro para a esquerda, este populista é abertamente visto como fascista ou racista. Ontem, o ministro da Educação, Yuli Tamir, um trabalhista, considerou "imorais" as posições de Lieberman sobre os árabes israelitas e pediu a Ehud Barak, líder do partido, que os trabalhistas não se coligassem com ele. Barak tinha dito que Lieberman não era a sua "chávena de chá" mas não excluía a coligação.
Aqui em Ashdod, o jovem Eli fala em nome da grandeza de Israel. "Nós não queremos que as pessoas sejam soldados a fazer continência. O nosso país tem 60 anos, e quando os países tinham 60 anos tinham escravos. Nós crescemos rápido, temos uma grande justiça e direitos humanos. O que não podemos é deixar que as pessoas no meio da guerra celebrem o Hamas, quando matam os nossos soldados, não só judeus também drusos."
O Exército é um bom exemplo. Eli teve um aneurisma aos 17 anos que lhe deixou metade do corpo paralisado. Recuperou com fisioterapia, mas a perna continua manca. "Voluntariei-me para o exército. Fui porta-voz e redactor do site. Queria ser como os outros. Se queremos ser parte deste país, essa é a nossa contribuição."
Eli lembra-se de ser pequeno na Ucrânia, e lhe baterem por ser judeu. Quando a URSS caiu, veio com os pais. Foi em 1991. Agora, acaba de voltar de um mês na Rússia, onde foi em negócios, pela primeira vez, e pela primeira vez sentiu "o que era ter uma casa como judeu", por causa do anti-semitismo. "Fui quase espancado por dois homens no comboio entre Moscovo e São Petersburgo, porque lhes disse que era de Israel. Quando aterrei em Israel, fiquei tão aliviado por não ter que ter medo de dizer a ninguém quem era, que me apeteceu ajoelhar e beijar o chão."
Fiambre para Bibi
No universo russófono há a ideia do paizinho do povo, e, visto de Ashdod, o paizinho do povo chama-se, pois, Avigdor Lieberman, aquele que terá mão nas ameaças a Israel e manterá a casa dos judeus, de todos os judeus, nascidos aqui ou acabados de chegar, por exemplo de Jitomir, a cidade ucraniana de Eli Nacht.
Na Praça da Cidade, com "quatro edifícios de 42 andares", orgulha-se Eli, este povo - laico, conservador, nacionalista - gosta menos de hummus, a pasta de grão tradicional do Médio Oriente, do que de fiambre. Basta andar uns passos até à charcutaria Coral, que tem letreiro em cirílico, a montra cheia de vodka e o expositor atulhado de salpicões, salsichas e fiambres, ao lado do peixe em conserva.
Quem compra porco, o animal sujo, não kosher? "Toda a gente", responde a empregada israelo--russa que esteve a cortar fatias de fiambre. "Muitos idosos, mas também jovens."
Uma jovem idosa, de cabelos branco-neve, está justamente a levar as fatias de fiambre embrulhadas. Chama-se Dina, e veio de Nijninovgorod em 1995. "Prove! Já provou? Isto não é uma loja kosher e eu não sou religiosa." Vai votar? "Claro!" Por quem? "Bibi, claro!"
Pois se em Jerusalém Lieberman anda a ocupar o ninho de Bibi, Bibi tem direito a pelo menos umas 250 gramas de fiambre em Ashdod.
Feb 5, 2009
Livni, a mulher do meio, ainda pode ganhar
Gali Tibbon/AFP
A paz não virá da esquerda nem da direita. Os indecisos votam ao centro, a ministra dos Negócios Estrangeiros é o centro e será primeira-ministra, acreditam os membros do Kadima
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, em Telavive
O hino parece do festival da canção, mas o refrão é claro, "Kadima! Kadima! Kadima!" Então, os altifalantes anunciam: "A próxima primeiro-ministro de Israel, Tzipi Livni!!!" E, a seis dias das eleições, a cabeça loura - sempre hirta nos outdoors de Telavive - aparece a sorrir, à esquerda e à direita, entre presidentes de câmara do Kadima, que aplaudem de pé.
É uma manhã cálida, típica do Inverno em Telavive. Enquanto Jerusalém veste o casaco e a Europa congela, aqui anda-se de t-shirt, e há gente a tomar banho no mar, em frente.
A maior cidade de Israel é a cidade easy going, sempre a uns quarteirões da praia, e esta acção Kadima passa-se num hotel da marginal, numa sala com parede de vidro. Mas, mesmo de costas, a outra parede está coberta por espelhos que reflectem a praia.
É assim que enquanto a candidata avança, abraçando os autarcas, o salão parece estar na areia, com o Mediterrâneo dos dois lados, cães, bicicletas e biquinis.
Esta imagem, ao mesmo tempo real e irreal - paz num país que há 60 anos ainda não conseguiu paz - contém toda a ambição de Tzipi Livni, uma princesa da dinastia sionista de direita.
Os seus pais, combatentes da milícia Irgun, aspiraram a nada menos que à Grande Israel (Israel, territórios palestinianos, Sinai, Golã). As credenciais familiares de Livni são impecáveis do ponto de vista dos "falcões". E ela não as desmereceu: estudante brilhante de Direito, oficial distinguida no Exército, agente da Mossad quatro anos, ascensão no Likud pela mão de Bibi Netanyahu e Ariel Sharon. E quando Sharon retirou os colonos de Gaza, para fúria dos crentes na Grande Israel, Livni fez a sua escolha, apoiou Sharon e saiu com ele do Likud para formar o Kadima.
Livni é a herdeira pragmática - aquela que cortou com a Grande Israel para ter as outras pedras do sionismo, um estado para os judeus e democracia. Numa entrevista ao New York Times em 2007, explicou que a sua ambição se foca nisso: Israel continuar a existir como estado judaico, quando isso tende a ser "deslegitimizado".
Para o conseguir, promete negociar com os palestinianos, fazendo-lhes frente quando necessário. É o caminho do meio, resume o Kadima, e o que esta sala diz é que Livni tem as mãos limpas para ir a direito, até à paz.
Num país abalado por escândalos, com Ehud Olmert - primeiro-ministro em exercício - visto como corrupto-mor, "honestidade" é uma grande palavra, e aqui usam-na para descrever Livni.
O marroquino
Um dos autarcas presentes é David Buskila, presidente da câmara da minúscula Sderot. A maioria dos israelitas nunca lá pôs os pés, mas como é a povoação mais perto de Gaza tornou-se um símbolo do que é viver ao alcance de rockets.
E é por isso que quando Livni se sentar, este autarca ficará à sua direita, e será um dos primeiros oradores. Mas por enquanto Buskila ainda está na fase do sumo de laranja e dos bolinhos. "Quase de certeza que ela será o próximo primeiro-ministro. Sabemos que 35 por cento dos eleitores ainda não decidiram e o mapa pode mudar."
Porquê? "Desde que está na política, Tzipi Livni comportou-se de forma honesta. Há menos de um ano, o Kadima tinha 8 a 10 lugares nas sondagens, agora está com 25, e é por causa de Livni. Trouxe uma atmosfera limpa." Depois: "Tem uma posição clara sobre o Médio Oriente e diz a verdade. Quer tentar um acordo com a Autoridade Palestiniana, mas lutará contra ela se fizer mal a Israel." Mais: "Fez excelente trabalho durante a guerra." Como ministra dos Negócios Estrangeiros, e internamente: "Esteve cinco vezes em Sderot."
Economista, 52 anos, Buskila tem origens muito diferentes de Livni. Filho de judeus de Casablanca, nasceu num lugar de pobres recém-chegados, então baptizado como Sderot. Quando Livni chega à sua mesa, abraçam-se, e ela senta-se a ouvir. Buskila, o de pele escura, dirá. "Nem a esquerda nem a direita nos vão trazer paz, a paz virá do centro."
As mulheres
"Ela ainda tem hipóteses", avalia a analista Dahlia Scheindlin. "Nos últimos ciclos eleitorais tivemos surpresas, como o partido dos pensionistas. Agora, a surpresa à direita é Lieberman, mas penso que o Kadima vai conseguir mais do que se espera."
Nas sondagens, o Likud está em primeiro, a curta distância do Kadima. Em terceiro, o fenómeno da extrema-direita, Avigdor Lieberman, rouba votos sobretudo ao Likud, o que favorece Livni. "A direita está a ficar mais fracturada", nota esta analista. "Livni já tem o centro-esquerda, agora precisa do centro-direita."
E nos últimos dias apostou nos jovens - bares de Telavive, terça-feira à noite -, e nas mulheres. "Publicamente não é uma feminista, mas agora acho que houve uma decisão estratégica, não de agenda, mas de discurso, de dizer que o chauvinismo não pode ganhar."
Israel é uma sociedade não apenas masculina, machista, e a estratégia de Livni, resume Scheindlin, foi "provar que era mais general que um general". É a segunda mulher chefe da diplomacia israelita depois de Golda Meir, e quer seguir-lhe os passos na chefia do Governo.
No salão frente ao mar estarão 70 ou 80 pessoas, e é fácil contar as mulheres: oito. Dá uns 10 por cento.
Por isso, a presidente do Parlamento e candidata do Kadima Dalia Itzik insiste na força, quando chega a sua vez de falar: "Sim, Tzipi Livni é forte. É forte a dizer a verdade, é forte no amor por Israel, é forte na forma como lida com o Hamas, é forte por não nos tentar fazer medo todos os dias."
E Tzipi Livni, blaser e calças pretas, tensa, angulosa, falará com força, antes de desaparecer pela porta da cozinha, escapando aos jornalistas.
Uma das oito mulheres que a ouviu foi Mati Yogev, de 43 anos, que lidera o comité de mulheres do partido. Funcionária de uma seguradora, foi fiel ao Likud até Tzipi a trazer para o Kadima. "Já não acredito na via do Likud. Há uma nova realidade. Quero que os palestinianos tenham o seu estado. E Tzipi, tudo o que diz, pensa e acredita. Nunca a vi prometer nada e não fazer."
Dos três filhos de Mati, um está no Exército. "Tenho muito medo por ele, mas se Tzipi for primeiro--ministro tenho a certeza de que haverá paz. Até os chefes dos países do mundo confiam nela."
(publicado em 5 de Fevereiro na edição impressa do Público)
Feb 4, 2009
O ninho de Bibi está a ser ocupado por Lieberman
Em Mahane Yehuda, um ninho da direita, uns acham que Bibi Netanyahu é “o menos mau”, outros já se mudaram para a extrema-direita. O grande herói continua a ser Menahem Begin.
Alexandra Lucas Coelho, em Jerusalém
A careca e os óculos não mentem.
Menahem Begin – o guerrilheiro pela fundação de Israel, o líder do Likud que pôs fim a 30 anos de poder trabalhista, o primeiro-ministro que fez a paz com o Egipto e ganhou o Nobel, o decisor dos colonatos e da invasão do Líbano em 1982 – continua a ser o grande herói israelita de Mahane Yehuda.
Este grande mercado em Jerusalém é um bastião da direita tradicional, aqueles apoiantes do Likud que são filhos e netos de apoiantes do Likud. E por várias vezes souberam o que era um bombista suicida a explodir aqui dentro, entre as maçãs dos Golã e os morangos de Netanya, as azeitonas temperadas e as tâmaras, os queijos, a carne, o pão, tudo isto com “kipas” na cabeça, certificados “kosher” e casais laicos misturados com ultra-ortodoxos às compras.
Por exemplo, o sorridente Yuv, que tem 45 anos, três filhos e uma parede da sua frutaria pintada com a cara de Begin. “O meu pai gostava muito dele. Era um verdadeiro líder, um homem especial, não mentia.” E agora? “Estamos num grande problema. Não temos ninguém que possa fazer este país melhor, fazer a paz.” O conflito com os palestinianos é o problema número um, acha Yuv.
Como vê ele Benjamin (Bibi) Netanyahu, sucessor de Begin na liderança do Likud e favorito nas eleições da próxima terça-feira? “É o melhor que há”, suspira Yuv. “É forte. Quando era ministro das Finanças foi o melhor, tornou a Economia forte.” Portanto, vai votar nele? “Não tenho opção. Lieberman é demasiado à direita, não gosto da forma como fala dos árabes.”
Avigdor Lieberman é a sensação da campanha.
Já se sabia que este moldavo emigrado para Israel há 30 anos defende coisas como retirar a cidadania aos árabes israelitas que não se declararem fiéis ao Estado de Israel, bombardear o centro de Ramallah ou afogar prisioneiros. A sensação é que o seu partido, Yisrael Beytenu, está em terceiro lugar nas sondagens, com 15 lugares, depois do Likud (28) e do Kadima (24). Ou seja, à frente dos trabalhistas (14).
Mas não convenceu o fruteiro Yuv, apesar dele estar zangado com os palestinianos. “Queriam Gaza, demos-lhes Gaza, e o que temos? Acho que nunca haverá paz. Há 20 anos era melhor. Sem paz, tínhamos paz. Podíamos ir a Ramallah, até a Gaza, e os árabes estavam aqui.”
Como quase toda a gente aqui, diz “os árabes” e não “os palestinianos”. Desta banca, herdada do pai, testemunhou “umas cinco ou seis bombas suicidas”, em que lhe morreram amigos. “As pessoas deixaram de acreditar na paz.”
Várias lojas à frente, Moshe, que nasceu “com o país, em 1948”, vende queijos, pickles, peixe em conserva mas também doces. E não é um segredo que Bibi perdeu aqui um voto. Lieberman debaixo dos doces, Lieberman na porta do frigorífico, Lieberman na porta da despensa, três cartazes mostram em quem vai votar este afável mercador de barba barnca, que põe o braço à volta dos ombros de qualquer cliente.
E quem está na fotografia emoldurada ao pé da caixa? “Begin com o meu pai”, explica Moshe.
“Begin foi um grande ser humano antes de ser um grande líder. Nunca dizia uma coisa e depois outra. Nunca mais vamos encontrar alguém como ele, honesto, decente. Se ele estivesse vivo, eu não mudava do Likud, mas o Likud já não é o mesmo.”
O que é que Lieberman tem de melhor? “Diz algo e não muda, diz o que pensa e faz. Os políticos mudam sempre, tenho pena de dizer isto do meu país, mas é verdade.”
E Moshe não está sozinho. “Mahane Yehuda é o lugar do Likud, mas há dois dias fizemos um inquérito e se a votação fosse aqui Bibi tinha 30 lugares e Lieberman 19.”
Estancar as perdas
Estará Bibi a perder o coração do Likud? Não, crê Yossi Verter, analista político do diário “Ha’aretz”. “Netanyahu sempre foi um líder popular no Likud, e continua a ter o núcleo duro dos votantes.” Mas não há dúvida de que tem perdido para a extrema-direita, e esse será o maior desafio dos próximos dias: “Se caírem rockets em Israel, isso ajuda tanto Netanyahu como Lieberman. Netanyahu tem que conseguir parar o processo de perder votos para Lieberman.”
É cedo para dar Bibi como vencedor? “As coisas estão a mudar constantemente, e muita gente decide na última semana”, diz Verter. “Não creio que Bibi perca, mas se perder mais votos pode não conseguir formar um governo estável. Precisa de 30 a 32 lugares para isso.”
As sondagens dão-lhe 28. Estratégia até terça-feira? “Convencer os eleitores de que se votarem pela extrema-direita podem não o ter a ele como primeiro-ministro. Tem que dizer: se me querem, não votem por quem diz que se vai aliar comigo, porque me podem perder.”
Antes desta ascensão de Lieberman, Netanyahu tinha consolidado uma subida do Likud nas sondagens. Em dois anos, mais que duplicou.
E no mercado de Mahane Yehuda, pode contar com a campanha fiel de Avraham. É que este fruteiro não tem apenas duas fotografias de Menahem Begin. Também tem uma de Bibi Netanyahu, embora mais pequena.
Neste momento discute energicamente com um casal, Rodni e Anzi. Os israelitas adoram discutir, e põem toda uma veemência física nisso. Durante uns bons minutos o que um não falante de hebraico entende é Sharon!, Tipzi! Bibi! Bibi!, com muita garganta e braços.
Rodni ainda não sabe se vai votar Kadima (Tipzi Livni) ou Meretz (centro-esquerda), Anzi vai votar Hadash (o partido árabe-judeu do comunista Dov Hanin) e é por isso que discutem com o fruteiro Avraham. E enquanto um discute o outro vai traduzindo para inglês.
“Bibi vai ser melhor primeiro-ministro!”, clama Avraham. “Quando Rabin foi primeiro-ministro a primeira vez, foi mau. Da segunda vez foi excelente. Vai ser assim com Bibi!”
O fruteiro em frente junta-se à discussão, para apoiar Avraham. “Saímos de Gaza sem nenhum acordo, e agora querem que saiamos de Jerusalém? O próximo governo vai ser Bibi, Lieberman e Shas!” Shas é o partido religioso sefardita, que está em quinto, atrás dos trabalhistas.
Quando a repórter tenta abordar este nova voz pró-Bibi em inglês, ele responde “No. No.” E depois em hebraico: “Pergunte à Livni, ela fala inglês. Aqui, é só a direita, só a direita. Bibi é que nos vai livrar de Obama e dos árabes.”
Alexandra Lucas Coelho, em Jerusalém
A careca e os óculos não mentem.
Menahem Begin – o guerrilheiro pela fundação de Israel, o líder do Likud que pôs fim a 30 anos de poder trabalhista, o primeiro-ministro que fez a paz com o Egipto e ganhou o Nobel, o decisor dos colonatos e da invasão do Líbano em 1982 – continua a ser o grande herói israelita de Mahane Yehuda.
Este grande mercado em Jerusalém é um bastião da direita tradicional, aqueles apoiantes do Likud que são filhos e netos de apoiantes do Likud. E por várias vezes souberam o que era um bombista suicida a explodir aqui dentro, entre as maçãs dos Golã e os morangos de Netanya, as azeitonas temperadas e as tâmaras, os queijos, a carne, o pão, tudo isto com “kipas” na cabeça, certificados “kosher” e casais laicos misturados com ultra-ortodoxos às compras.
Por exemplo, o sorridente Yuv, que tem 45 anos, três filhos e uma parede da sua frutaria pintada com a cara de Begin. “O meu pai gostava muito dele. Era um verdadeiro líder, um homem especial, não mentia.” E agora? “Estamos num grande problema. Não temos ninguém que possa fazer este país melhor, fazer a paz.” O conflito com os palestinianos é o problema número um, acha Yuv.
Como vê ele Benjamin (Bibi) Netanyahu, sucessor de Begin na liderança do Likud e favorito nas eleições da próxima terça-feira? “É o melhor que há”, suspira Yuv. “É forte. Quando era ministro das Finanças foi o melhor, tornou a Economia forte.” Portanto, vai votar nele? “Não tenho opção. Lieberman é demasiado à direita, não gosto da forma como fala dos árabes.”
Avigdor Lieberman é a sensação da campanha.
Já se sabia que este moldavo emigrado para Israel há 30 anos defende coisas como retirar a cidadania aos árabes israelitas que não se declararem fiéis ao Estado de Israel, bombardear o centro de Ramallah ou afogar prisioneiros. A sensação é que o seu partido, Yisrael Beytenu, está em terceiro lugar nas sondagens, com 15 lugares, depois do Likud (28) e do Kadima (24). Ou seja, à frente dos trabalhistas (14).
Mas não convenceu o fruteiro Yuv, apesar dele estar zangado com os palestinianos. “Queriam Gaza, demos-lhes Gaza, e o que temos? Acho que nunca haverá paz. Há 20 anos era melhor. Sem paz, tínhamos paz. Podíamos ir a Ramallah, até a Gaza, e os árabes estavam aqui.”
Como quase toda a gente aqui, diz “os árabes” e não “os palestinianos”. Desta banca, herdada do pai, testemunhou “umas cinco ou seis bombas suicidas”, em que lhe morreram amigos. “As pessoas deixaram de acreditar na paz.”
Várias lojas à frente, Moshe, que nasceu “com o país, em 1948”, vende queijos, pickles, peixe em conserva mas também doces. E não é um segredo que Bibi perdeu aqui um voto. Lieberman debaixo dos doces, Lieberman na porta do frigorífico, Lieberman na porta da despensa, três cartazes mostram em quem vai votar este afável mercador de barba barnca, que põe o braço à volta dos ombros de qualquer cliente.
E quem está na fotografia emoldurada ao pé da caixa? “Begin com o meu pai”, explica Moshe.
“Begin foi um grande ser humano antes de ser um grande líder. Nunca dizia uma coisa e depois outra. Nunca mais vamos encontrar alguém como ele, honesto, decente. Se ele estivesse vivo, eu não mudava do Likud, mas o Likud já não é o mesmo.”
O que é que Lieberman tem de melhor? “Diz algo e não muda, diz o que pensa e faz. Os políticos mudam sempre, tenho pena de dizer isto do meu país, mas é verdade.”
E Moshe não está sozinho. “Mahane Yehuda é o lugar do Likud, mas há dois dias fizemos um inquérito e se a votação fosse aqui Bibi tinha 30 lugares e Lieberman 19.”
Estancar as perdas
Estará Bibi a perder o coração do Likud? Não, crê Yossi Verter, analista político do diário “Ha’aretz”. “Netanyahu sempre foi um líder popular no Likud, e continua a ter o núcleo duro dos votantes.” Mas não há dúvida de que tem perdido para a extrema-direita, e esse será o maior desafio dos próximos dias: “Se caírem rockets em Israel, isso ajuda tanto Netanyahu como Lieberman. Netanyahu tem que conseguir parar o processo de perder votos para Lieberman.”
É cedo para dar Bibi como vencedor? “As coisas estão a mudar constantemente, e muita gente decide na última semana”, diz Verter. “Não creio que Bibi perca, mas se perder mais votos pode não conseguir formar um governo estável. Precisa de 30 a 32 lugares para isso.”
As sondagens dão-lhe 28. Estratégia até terça-feira? “Convencer os eleitores de que se votarem pela extrema-direita podem não o ter a ele como primeiro-ministro. Tem que dizer: se me querem, não votem por quem diz que se vai aliar comigo, porque me podem perder.”
Antes desta ascensão de Lieberman, Netanyahu tinha consolidado uma subida do Likud nas sondagens. Em dois anos, mais que duplicou.
E no mercado de Mahane Yehuda, pode contar com a campanha fiel de Avraham. É que este fruteiro não tem apenas duas fotografias de Menahem Begin. Também tem uma de Bibi Netanyahu, embora mais pequena.
Neste momento discute energicamente com um casal, Rodni e Anzi. Os israelitas adoram discutir, e põem toda uma veemência física nisso. Durante uns bons minutos o que um não falante de hebraico entende é Sharon!, Tipzi! Bibi! Bibi!, com muita garganta e braços.
Rodni ainda não sabe se vai votar Kadima (Tipzi Livni) ou Meretz (centro-esquerda), Anzi vai votar Hadash (o partido árabe-judeu do comunista Dov Hanin) e é por isso que discutem com o fruteiro Avraham. E enquanto um discute o outro vai traduzindo para inglês.
“Bibi vai ser melhor primeiro-ministro!”, clama Avraham. “Quando Rabin foi primeiro-ministro a primeira vez, foi mau. Da segunda vez foi excelente. Vai ser assim com Bibi!”
O fruteiro em frente junta-se à discussão, para apoiar Avraham. “Saímos de Gaza sem nenhum acordo, e agora querem que saiamos de Jerusalém? O próximo governo vai ser Bibi, Lieberman e Shas!” Shas é o partido religioso sefardita, que está em quinto, atrás dos trabalhistas.
Quando a repórter tenta abordar este nova voz pró-Bibi em inglês, ele responde “No. No.” E depois em hebraico: “Pergunte à Livni, ela fala inglês. Aqui, é só a direita, só a direita. Bibi é que nos vai livrar de Obama e dos árabes.”
Feb 3, 2009
Mercado de Mahane Yehuda, Jerusalém
Avigdor Lieberman, o moldavo que emigrou para Israel há 30 anos e quer retirar a cidadania aos árabes israelitas se eles não fizeram uma declaração de lealdade ao Estado de Israel. Está em terceiro lugar nas sondagens para as eleições da próxima terça-feira, à frente dos trabalhistas. E no mercado de Mahane Yehuda, em Jerusalém, tradicional bastião da direita Likud, já rouba votos, como o de Moshe, o dono desta loja, que tem na parede uma foto do pai com Menahem Begin e espalhou cartazes de Lieberman à volta.
Não muito longe, no mercado, o fruteiro Avraham, que também tem uma fotografia de Begin, continua fiel a Bibi Netanyahu
Tom Segev: A ascensão da extrema-direita em Israel é alarmante
Tom Segev
Entrevista
Alexandra Lucas Coelho, em Jerusalém
Tom Segev, 64 anos, é um dos mais relevantes e traduzidos historiadores israelitas. Publicou “One Palestine Complete”, “The Seventh Million”, “Elvis in Jerusalem” e “1967”. Acabou de escrever uma biografia de Simon Wiesenthal, o “caçador” de nazis. Esta entrevista foi feita na sua casa de Jerusalém, cheia de livros e com uma velha primeira página de jornal emoldurada. É do dia em que o Estado de Israel foi declarado.
Entre os israelitas, esta guerra parece ter sido a mais popular em anos. É verdade?
Foi definitivamente mais popular que a anterior do Líbano, que não correu bem.
Há quem fale em euforia.
Não foi euforia, mas as pessoas dizem que algo tinha que ser feito contra o Hamas. Temos esta tradição de acreditar que determinamos a política palestiniana bombardeando o Hamas, ou quem não gostamos. E convencemo-nos de que é só uma organização terrorista. Mas é também um movimento político e religioso genuíno.
A tentativa de ditar aos palestinianos os seus líderes não resulta. Estão a disparar rockets até hoje.
O que é que a satisfação quanto à guerra revela sobre o estado da sociedade israelita?
Primeiro, nenhum país pode viver com rockets nas suas cidades. Netanyahu continua a dizer às televisões do mundo, consoante de onde vêem: “Imagine que isto acontecia em Lisboa...”
Com a diferença de que Lisboa não ocupa Espanha.
Mas é verdade que não é possível viver com rockets, sobretudo antes de eleições. Portanto, por várias razões, a sociedade israelita moveu-se para a direita – para a extrema-direita.
Agora temos um partido de extrema-direita muito forte [Yisrael Beytenu, dirigido por Avigdor Lieberman, em terceiro nas sondagens, à frente dos trabalhistas]. É o nosso Haider. O ódio racista agora é legítimo, ele está a legitimá-lo. E não é dirigido contra os palestinianos nos territórios, pior, é dirigido contra palestinianos que são cidadãos israelitas. É xenófobo, é racista. Este é o tipo de partido por causa do qual Israel chamou o seu embaixador na Áustria, quando Haider teve 25 por cento dos votos.
Porque é que é forte? Porque há um sentimento de desespero quanto à paz. A maior parte dos israelitas já não acredita na paz. Dêem-lhes paz, eles ficarão felizes, mas já não acreditam nisso.
Isto é fúria, mas também há um elemento de vingança.
Tendo em conta que não há hipótese de paz, que os palestinianos continuam a disparar rockets, que os governos anteriores falharam, primeiro com a guerra no Líbano, depois com toda a corrupção de Olmert – e este corrupto Olmert, que toda a gente odeia, vem com estranhas declarações sobre como devíamos devolver os territórios –, as pessoas moveram-se para o outro lado. Acho que é natural.
E não nos devemos enganar. Não são só pessoas vindas da Rússia. São também israelitas nascidos aqui. Portanto, ele [Lieberman] está a trazer ao de cima o pior que temos.
Geralmente diz-se que não há nenhuma sociedade democrática sem cerca de cinco por cento de fascistas. Mas este partido é muito mais forte. Acho isso alarmante.
O psiquiatra palestiniano Eyad Sarraj diz que a sociedade israelita está doente.
Não é como se o Hamas fosse um movimento liberal, democrático, aberto... O melhor que se pode dizer é que temos duas sociedades doentes, aqui. O Hamas é apoiado por uma maioria de pessoas em Gaza – porque é que apoiam uma organização tão horrível? Para mim, qualquer sociedade que se desloque em números maciços para a extrema-direita está de alguma forma doente. O fascismo é uma espécie de doença.
O desespero quanto à paz, o sentimento de que a política não serve para nada, e a continuação do terrorismo palestiniano – tudo isto levou a Lieberman.
A guerra em Gaza fortaleceu Lieberman?
Absolutamente. E é também um resultado de Lieberman, porque este é o tipo de pessoas que pressiona o governo, e com a eleição era inevitável que a guerra acontecesse.
Começou quando começou por causa dos rockets, das eleições, de serem os últimos dias de Bush, de ser época de festas, e de os céus estarem azuis, tornando fácil os aviões voarem. Era inevitável.
Não nos levou a lado algum. Não há um cessar-fogo que não pudéssemos ter alcançado antes. E a coisa alarmante é o pouco que os israelitas se estão a importar com a destruição de Gaza.
Isto, claro, tem a ver com o facto de não termos visto muito, mas também de não termos querido ver mais. Se os media realmente quisessem teriam feito um esforço para mostrar a destruição.
Há uma investigação agora sobre se Israel cometeu crimes de guerra. A primeira tendência israelita é desconfiar deste debate.
Os media não deram muita informação. As pessoas, naturalmente, já não querem saber, e como não sabem é mais fácil justificarem os acontecimentos.
As organizações internacionais são geralmente vistas com desconfiança nos países que cometem crimes de guerra. E é por isso que são importantes. Mas a maior parte dos israelitas tende a pensar que agimos em auto-defesa e tem vontade de acreditar que os palestinianos puseram rockets naquelas escolas e casas que foram destruídas.
Os israelitas têm muita vontade de acreditar que não violamos os direitos humanos. Não entendem que isso, claro, é uma ficção. A ascensão de Lieberman mostra que até a ficção é mais fraca hoje. Houve um tempo em que dizíamos para nós próprios: somos melhores que os outros. As pessoas que votam por Lieberman agora odeiam abertamente. São pessoas zangadas.
Gideon Levi [um dos poucos jornalistas israelitas que cobre a Cisjordânia] escreveu sobre o silêncio dos juristas em Israel quanto ao debate dos crimes de guerra.
Dos juristas, dos médicos. Até o Meretz [partido de centro-esquerda] apoiou a guerra por um dia ou dois.
Se quisermos ser justos, temos que nos lembrar que algo tem que ser feito quanto aos rockets. Provavelmente, esta foi a forma errada. A forma certa seria negociar com o Hamas. Não são pessoas agradáveis, mas são as que temos.
Tenho idade para me lembrar que há 30 anos as pessoas iam para a cadeia por falar com a OLP, porque era uma organização terrorista.
E mesmo que se avance para uma acção militar, não se pode magor civis. Não se podem bombardear cidades. Isso nunca está certo. Na II Guerra Mundial, em Hiroxima, em Hanói, em Beirute, em Sderot ou em Gaza.
Mas a maior parte dos israelitas apoiou. O apoio só começou a estalar quando emergiu a história muito dramática do médico palestiniano [que perdeu as filhas num bombardeamento e apelou em directo na televisão israelita]. Toda a vida ele trabalhou em Israel, toda a sua vida é sobre cooperação, e foi na televisão. Calculo que houvesse 200 histórias igualmente dramáticas, mas esta foi ao vivo. E foi quando as pessoas começaram a dizer: ok, talvez seja suficiente.
Isso leva a outra questão, o que os israelitas não sabem da ocupação, a noção de que há meio milhão de colonos.
Os israelitas não podem ir lá, os jornalistas geralmente não vão lá. Não sabem nada da Cisjordânia. É como se estivesse sob controle.
Porque está quieta.
E o terrorismo quase desapareceu.
Escreveu que provavelmente foi o maior erro da história israelita, quando Moshe Dayan e Menahem Begin quiseram reservar a Cisjordânia para os colonos. Hoje vê-se o resultado. A sua opinião é que será difícil traçar fronteiras razováveis e conseguir a paz.
Muito difícil, absolutamente.
Quando deixou de acreditar na paz?
Provavelmente antes da guerra no Líbano. Não sei bem. Para muitos israelitas foi o desapontamento de Oslo. E depois, a administração Bush deixou-nos fazer o que quiséssemos e vendeu a toda a gente a estúpida ficção do processo de paz, que no fim do ano haveria paz.
Paz como entre Portugal e Espanha é impossível. Há muitos lugares do mundo que gerem as crises de uma forma que torna a vida melhor. Israel tem muito a oferecer aos palestinianos em Gaza. Podemos abrir Gaza à Cisjordânia, o Egipto pode abrir Gaza.
O Hamas diz que está disposto a estabelecer um estado sem atacar Israel, mas não pode reconhecer Israel.
É uma espécie de gestão. Se pudéssemos lá chegar seria um acordo – eu olho todo o país como meu, tu olhas todo o país como teu, vamos esperar 100 anos e ver onde estamos. Acho que podemos alcançar isso. Paz é uma grande palavra. Para que precisamos de uma cerimónia em frente à Casa Branca?
Mesmo desmantelarmos colonatos na Cisjordânia não leva necessariamente à paz. Temos que fazer isso sem paz. Temos que os tirar de lá.
300 mil pessoas em colonatos que por vezes são cidades?
Ninguém fala em 300 mil, mas em 60 mil – os palestinianos falam em mais. Na verdade estamos a aumentar os colonatos todo o tempo. E quanto mais colonos, mais difícil. Do ponto de vista de Israel – ideológico, sionista –, é a coisa errada. É realmente irracional.
Porque é que continuam a aumentar?
Porque este é um país louco. Pensamos que as pessoas agem racionalmente, mas não. Não tenho uma explicação. É a coisa mais auto-destrutiva que não temos sensatez para ver.
Será o fim do sonho sionista?
Para mim, o sionismo é uma experiência que ainda não foi bem sucedida e ainda não falhou. Ainda estamos a experimentá-lo. Não posso assegurar que Israel como estado judaico tem um futuro. Não sei o que vai acontecer.
É um tabu?
Não, mas a maioria dos israelitas não concorda, portanto é irrelevante. Na América, entre intelectuais, toda a gente está a discutir um estado binacional, a velha ideia. Mas os árabes não querem viver connosco.
Como sabe?
Porque as pessoas querem ter o seu próprio estado.
O Hamas diz que não tem problema em viver com judeus.
Não nos tratariam melhor do que tratam a gente da Fatah. Se vamos ter um estado comum para judeus e árabes, isso só pode acontecer depois dos palestinianos terem o seu próprio estado. Não podemos querer que eles desistam de uma coisa que ainda não têm. Deixá-los ter o seu estado, definir a sua identidade, construir as suas instituições, fazer os seus erros. Porque quereriam viver com os judeus?
E entre os judeus não encontrará nem uma pequena minoria que queira isso.
Feb 2, 2009
A Cisjordânia quieta
(Saif Dahlah/AFP)
Não se vêem armas nem protestos, entre checkpoints e mais colonatos. Viagem de Jenin a Hebron, em transportes colectivos
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, na Cisjordânia
1. Jenin
Coração cansado
Pela Cisjordânia - o maior território ocupado - viajam, em geral, palestinianos, estrangeiros, e dois tipos de israelitas: soldados e colonos.
Os palestinianos têm um sistema de mini-autocarros (brancos) e carrinhas (amarelas), que partem quando estão cheios. Por causa das barreiras israelitas, de Jerusalém a Jenin é preciso apanhar dois transportes. Um mini-autocarro até Ramallah, e a partir daí uma carrinha. Ao todo, são 110 quilómetros e três checkpoints. No sábado, dia sem trânsito, o PÚBLICO demorou duas horas e meia.
Depois das colinas de Ramallah, pujantes de construção, a paisagem segue ondulante, coberta de pedras e oliveiras. Mas logo aparecem setas para os colonatos (Eli, Ariel, Ma'ale Efrayim...), e lá em cima os telhados cercados por arame farpado.
Bem iluminada, com várias faixas, bombas de gasolina e paragens de autocarro, esta é a estrada feita para os colonos. Na Cisjordânia, são já 285.800 (somados aos de Jerusalém Leste, rondam meio milhão, com infra-estruturas e autênticas cidades).
Isto afecta todo o território, e, dentro dele, Ismail Al Khatib.
Este nome correu mundo em 2005. O seu filho Ahmed brincava com uma arma de plástico quando um soldado israelita o matou, julgando que a arma era verdadeira. Ismail doou os órgãos a quatro crianças israelitas. Foi feito um filme (Heart of Jenin) que ganhou prémios e comoveu israelitas.
E aqui está esse pai, entre as ruelas do campo de refugiados de Jenin, no rudimentar centro de actividades infantis entretanto fundado por italianos. Aos 43 anos, parece fatigado, e fuma incessantemente.
"Israel deu-lhe cinco horas para ir a Jerusalém ver o filme", diz o amigo Fakhri, que tem sido o seu tradutor.
Durante a guerra em Gaza, a Cisjordânia não explodiu em protestos. Fahkri acha que as pessoas estão cansadas. "Fizemos milhares de manifestações, não há energia para mais. E as pessoas da Fatah acham que parte da responsabilidade é do Hamas." Em Jenin, diz, "centenas" manifestaram-se "quatro ou cinco vezes".
E Ismail, exemplo de perdão, como olha para Gaza?
Antes de traduzir, Fahkri conta: "Depois de doar os órgãos, Ismail recebeu um telefonema de Ehud Olmert [hoje, primeiro-ministro]. Ele prometeu-lhe que Ahmed seria a última criança morta neste conflito. Quando a guerra começou em Gaza, centenas de crianças foram mortas. Ismail desligou o telefonou e deixou de falar até com os amigos."
Ismail escuta e fuma. Depois diz: "Foram dias difíceis. Ver as pessoas a pegar nas crianças trouxe-me a imagem de Ahmed."
A guerra, crê, "foi para enfraquecer os palestinianos e fazer fortes os israelitas antes de uma eleição". Quanto à divisão dos palestinianos, resolvia-se "retirando os colonatos e acabando com a ocupação". Isso faria as pessoas acreditar nas negociações e confiar no presidente Abbas e na Autoridade Palestiniana (AP). "Eu confio, acho que são eles que nos podem representar."
"Aqui as pessoas não apoiam o Hamas", reforça Fahkri. "Podemos sentir isso. Muita gente votou Hamas só para punir a Fatah." E no último ano e meio, a AP agiu. "Tem sido suficientemente forte para impedir armas nas ruas." Quer dizer que acabou a resistência? "Não", responde Fakhri. "Nós somos a resistência. Mas a resistência armada está acabada."
2. Nablus
A montanha não deita fogo
De Jenin a Nablus são 45 minutos. Transporte directo, amendoeiras em flor, um checkpoint.
O centro fervilha de trânsito e gente no mercado. À volta, montanhas cheias de prédios. Aqui vivem 100 mil pessoas e estudam 20 mil universitários.
An Najah é a maior universidade da Cisjordânia, e um dos seus vice-presidentes é o químico Maher Natsheh, que agora atravessa a bela Cidade Velha, entre galinhas cacarejantes, tâmaras de todas as espécies e fatos de treino provavelmente chineses.
"Centenas, algumas vezes", foram os manifestantes contra a guerra, aqui. E porquê? "Porque não há esperança em relação a nada." E depois: "Estamos solidárias com as mulheres e as crianças em Gaza, mas não apoiamos o Hamas. Ao acabar a trégua, deu a desculpa. Há muito que tinha Gaza sob cerco, para levar o Hamas àquilo."
Que é feito dos militantes que fizeram de Nablus a Jabal Nar a Montanha de Fogo? Aqueles que combateram os israelitas nestas ruas? "A maior parte está nas prisões israelitas. Quase a cada noite há incursões e prendem activistas."
Depois, confirma, "uma coisa que as pessoas agradecem à AP é ter posto ordem nas cidades". Mas há críticas a Abbas: "Não removeu um só checkpoint. Deu tudo aos israelitas e eles expandiram os colonatos". Todas as entradas em Nablus continuam a ter checkpoints - que separam os palestinianos uns dos outros, e não Israel dos territórios - e "especialmente os rapazes" levam horas a passar. "Mas todos rezamos para que Hamas e Fatah se unam. A estratégia israelita era dividir-nos, e as pessoas lá fora começam a não nos respeitar."
No checkpoint da saída para Jerusalém, dezenas de rapazes. Na fila dos carros está uma ambulância.
3. Belém
Política, não
Sem checkpoints nem muro, Belém seria a um quarto de hora de Jerusalém, mas o PÚBLICO levou uma hora.
É domingo, choveu, e agora a praça da Basílica da Natividade brilha ao sol. Aqui, diz a tradição cristã, nasceu Jesus. A esta hora, na nave principal, rezam os gregos ortodoxos, na gruta do nascimento já rezaram os arménios, e ao lado celebra-se a missa católica.
Nicola, 20 anos, estudante de Direito, é um dos ortodoxos que não celebraram o Natal por causa de Gaza. "Quando víamos as notícias, chorávamos", conta no átrio, que cheira a incenso e a cera. "E também não celebrámos o Ano Novo. À noite, fomos descalços à chuva até ao checkpoint e rezámos ali por Gaza." Quantas pessoas? "Umas 40 ou 50, porque estava muito frio." De resto, em Belém houve "pequenas manifestações".
Nicola, que não é da Fatah, não simpatiza com o Hamas e acha que "eles lutam de forma errada". Mas diz que "a luta contra Israel é um direito dos palestinianos" e reza pela união. "Somos um só povo, o mesmo sofrimento."
No entanto, antes e depois de Nicola, sucedem-se recusas à menção de Gaza. Ninguém quer falar "de política". O património de Belém é esta Igreja. À volta há dormidas, comidas e souvenirs. Os problemas afastam o turismo.
É o que dirá, enfim, o católico Johnny, 30 anos, ao balcão de uma loja deserta. "Houve muito turismo cancelado por causa de Gaza. É isso que preocupa as pessoas, é isso que ouço." Nem Fatah, nem Hamas, Johnny teve "pena das crianças de Gaza", e mais não diz.
4. Hebron
Sempre os colonos
De Belém a Hebron são 40 minutos. Sendo a maior cidade da Cisjordânia, é a mais tensa. Judeus e muçulmanos crêem que aqui está o Túmulo dos Profetas, onde Abraão foi sepultado. Junto ao sítio sagrado vivem centenas de colonos guardados por milhares de soldados, e o coração de Hebron tem sido palco de mortes violentas. A última em Dezembro, quando um colono matou mais um palestiniano.
Descendo a rua do mercado, cada vez há menos gente. Cerca de 850 lojas foram forçadas a fechar e outras não têm coragem de abrir. O lugar é desolado, patrulhado por soldados com metralhadoras, e da praça da mesquita de Ibrahim (Abraão) avistam-se os jovens colonos, a rondarem as quatro lojas que restam abertas.
"Posso abrir porque vivo aqui", explica Mohammed Khaled, 40 anos. A sua oficina de cerâmica foi fundada pelo pai em 1964 e cá continua, com dois homens a pintarem e um terceiro a moldar o barro. No forno, cozem potes. Vidro e cerâmica são artes de Hebron.
Todos os dias Mohammed tem que passar pelos soldados, tirar a roupa, o cinto, e tem fresca a morte em Dezembro. Então, quando se fala em Gaza, diz: "Destruíram tudo para quê? O Hamas, o Hamas, o Hamas! O Hamas não tem um exército!". E isto para dizer que o problema é a ocupação. "Eu era da Fatah, mas agora não. Abbas foi a Washington, a Oslo, e o que conseguiu? As ruas estão fechadas, não há autorização para ir a Jerusalém, e há mais colonos."
Em Hebron, o Hamas ganhou nove deputados em nove. E essa força pode ter diminuído mas continua, assegura Walid Alhalaweh, o engenheiro informático que lidera a reabilitação da Cidade Velha. "A maioria está com o Hamas. O apoio diminuíra e com a guerra aumentou." Não é ideológico. "Havia corrupção na Fatah." Esse apoio viu-se numa manifestação antiguerra "com milhares". De resto, Hebron manteve-se quieta. "Também há gente do Hamas presa, como o Hamas prende em Gaza."
Andando um quilómetro, é possível apanhar uma carrinha para Jerusalém que demora 50 minutos. Só palestinianos com identidade de Jerusalém ou estrangeiros podem ir nela. Isso exclui toda a Cisjordânia.
Reportagem
Alexandra Lucas Coelho, na Cisjordânia
1. Jenin
Coração cansado
Pela Cisjordânia - o maior território ocupado - viajam, em geral, palestinianos, estrangeiros, e dois tipos de israelitas: soldados e colonos.
Os palestinianos têm um sistema de mini-autocarros (brancos) e carrinhas (amarelas), que partem quando estão cheios. Por causa das barreiras israelitas, de Jerusalém a Jenin é preciso apanhar dois transportes. Um mini-autocarro até Ramallah, e a partir daí uma carrinha. Ao todo, são 110 quilómetros e três checkpoints. No sábado, dia sem trânsito, o PÚBLICO demorou duas horas e meia.
Depois das colinas de Ramallah, pujantes de construção, a paisagem segue ondulante, coberta de pedras e oliveiras. Mas logo aparecem setas para os colonatos (Eli, Ariel, Ma'ale Efrayim...), e lá em cima os telhados cercados por arame farpado.
Bem iluminada, com várias faixas, bombas de gasolina e paragens de autocarro, esta é a estrada feita para os colonos. Na Cisjordânia, são já 285.800 (somados aos de Jerusalém Leste, rondam meio milhão, com infra-estruturas e autênticas cidades).
Isto afecta todo o território, e, dentro dele, Ismail Al Khatib.
Este nome correu mundo em 2005. O seu filho Ahmed brincava com uma arma de plástico quando um soldado israelita o matou, julgando que a arma era verdadeira. Ismail doou os órgãos a quatro crianças israelitas. Foi feito um filme (Heart of Jenin) que ganhou prémios e comoveu israelitas.
E aqui está esse pai, entre as ruelas do campo de refugiados de Jenin, no rudimentar centro de actividades infantis entretanto fundado por italianos. Aos 43 anos, parece fatigado, e fuma incessantemente.
"Israel deu-lhe cinco horas para ir a Jerusalém ver o filme", diz o amigo Fakhri, que tem sido o seu tradutor.
Durante a guerra em Gaza, a Cisjordânia não explodiu em protestos. Fahkri acha que as pessoas estão cansadas. "Fizemos milhares de manifestações, não há energia para mais. E as pessoas da Fatah acham que parte da responsabilidade é do Hamas." Em Jenin, diz, "centenas" manifestaram-se "quatro ou cinco vezes".
E Ismail, exemplo de perdão, como olha para Gaza?
Antes de traduzir, Fahkri conta: "Depois de doar os órgãos, Ismail recebeu um telefonema de Ehud Olmert [hoje, primeiro-ministro]. Ele prometeu-lhe que Ahmed seria a última criança morta neste conflito. Quando a guerra começou em Gaza, centenas de crianças foram mortas. Ismail desligou o telefonou e deixou de falar até com os amigos."
Ismail escuta e fuma. Depois diz: "Foram dias difíceis. Ver as pessoas a pegar nas crianças trouxe-me a imagem de Ahmed."
A guerra, crê, "foi para enfraquecer os palestinianos e fazer fortes os israelitas antes de uma eleição". Quanto à divisão dos palestinianos, resolvia-se "retirando os colonatos e acabando com a ocupação". Isso faria as pessoas acreditar nas negociações e confiar no presidente Abbas e na Autoridade Palestiniana (AP). "Eu confio, acho que são eles que nos podem representar."
"Aqui as pessoas não apoiam o Hamas", reforça Fahkri. "Podemos sentir isso. Muita gente votou Hamas só para punir a Fatah." E no último ano e meio, a AP agiu. "Tem sido suficientemente forte para impedir armas nas ruas." Quer dizer que acabou a resistência? "Não", responde Fakhri. "Nós somos a resistência. Mas a resistência armada está acabada."
2. Nablus
A montanha não deita fogo
De Jenin a Nablus são 45 minutos. Transporte directo, amendoeiras em flor, um checkpoint.
O centro fervilha de trânsito e gente no mercado. À volta, montanhas cheias de prédios. Aqui vivem 100 mil pessoas e estudam 20 mil universitários.
An Najah é a maior universidade da Cisjordânia, e um dos seus vice-presidentes é o químico Maher Natsheh, que agora atravessa a bela Cidade Velha, entre galinhas cacarejantes, tâmaras de todas as espécies e fatos de treino provavelmente chineses.
"Centenas, algumas vezes", foram os manifestantes contra a guerra, aqui. E porquê? "Porque não há esperança em relação a nada." E depois: "Estamos solidárias com as mulheres e as crianças em Gaza, mas não apoiamos o Hamas. Ao acabar a trégua, deu a desculpa. Há muito que tinha Gaza sob cerco, para levar o Hamas àquilo."
Que é feito dos militantes que fizeram de Nablus a Jabal Nar a Montanha de Fogo? Aqueles que combateram os israelitas nestas ruas? "A maior parte está nas prisões israelitas. Quase a cada noite há incursões e prendem activistas."
Depois, confirma, "uma coisa que as pessoas agradecem à AP é ter posto ordem nas cidades". Mas há críticas a Abbas: "Não removeu um só checkpoint. Deu tudo aos israelitas e eles expandiram os colonatos". Todas as entradas em Nablus continuam a ter checkpoints - que separam os palestinianos uns dos outros, e não Israel dos territórios - e "especialmente os rapazes" levam horas a passar. "Mas todos rezamos para que Hamas e Fatah se unam. A estratégia israelita era dividir-nos, e as pessoas lá fora começam a não nos respeitar."
No checkpoint da saída para Jerusalém, dezenas de rapazes. Na fila dos carros está uma ambulância.
3. Belém
Política, não
Sem checkpoints nem muro, Belém seria a um quarto de hora de Jerusalém, mas o PÚBLICO levou uma hora.
É domingo, choveu, e agora a praça da Basílica da Natividade brilha ao sol. Aqui, diz a tradição cristã, nasceu Jesus. A esta hora, na nave principal, rezam os gregos ortodoxos, na gruta do nascimento já rezaram os arménios, e ao lado celebra-se a missa católica.
Nicola, 20 anos, estudante de Direito, é um dos ortodoxos que não celebraram o Natal por causa de Gaza. "Quando víamos as notícias, chorávamos", conta no átrio, que cheira a incenso e a cera. "E também não celebrámos o Ano Novo. À noite, fomos descalços à chuva até ao checkpoint e rezámos ali por Gaza." Quantas pessoas? "Umas 40 ou 50, porque estava muito frio." De resto, em Belém houve "pequenas manifestações".
Nicola, que não é da Fatah, não simpatiza com o Hamas e acha que "eles lutam de forma errada". Mas diz que "a luta contra Israel é um direito dos palestinianos" e reza pela união. "Somos um só povo, o mesmo sofrimento."
No entanto, antes e depois de Nicola, sucedem-se recusas à menção de Gaza. Ninguém quer falar "de política". O património de Belém é esta Igreja. À volta há dormidas, comidas e souvenirs. Os problemas afastam o turismo.
É o que dirá, enfim, o católico Johnny, 30 anos, ao balcão de uma loja deserta. "Houve muito turismo cancelado por causa de Gaza. É isso que preocupa as pessoas, é isso que ouço." Nem Fatah, nem Hamas, Johnny teve "pena das crianças de Gaza", e mais não diz.
4. Hebron
Sempre os colonos
De Belém a Hebron são 40 minutos. Sendo a maior cidade da Cisjordânia, é a mais tensa. Judeus e muçulmanos crêem que aqui está o Túmulo dos Profetas, onde Abraão foi sepultado. Junto ao sítio sagrado vivem centenas de colonos guardados por milhares de soldados, e o coração de Hebron tem sido palco de mortes violentas. A última em Dezembro, quando um colono matou mais um palestiniano.
Descendo a rua do mercado, cada vez há menos gente. Cerca de 850 lojas foram forçadas a fechar e outras não têm coragem de abrir. O lugar é desolado, patrulhado por soldados com metralhadoras, e da praça da mesquita de Ibrahim (Abraão) avistam-se os jovens colonos, a rondarem as quatro lojas que restam abertas.
"Posso abrir porque vivo aqui", explica Mohammed Khaled, 40 anos. A sua oficina de cerâmica foi fundada pelo pai em 1964 e cá continua, com dois homens a pintarem e um terceiro a moldar o barro. No forno, cozem potes. Vidro e cerâmica são artes de Hebron.
Todos os dias Mohammed tem que passar pelos soldados, tirar a roupa, o cinto, e tem fresca a morte em Dezembro. Então, quando se fala em Gaza, diz: "Destruíram tudo para quê? O Hamas, o Hamas, o Hamas! O Hamas não tem um exército!". E isto para dizer que o problema é a ocupação. "Eu era da Fatah, mas agora não. Abbas foi a Washington, a Oslo, e o que conseguiu? As ruas estão fechadas, não há autorização para ir a Jerusalém, e há mais colonos."
Em Hebron, o Hamas ganhou nove deputados em nove. E essa força pode ter diminuído mas continua, assegura Walid Alhalaweh, o engenheiro informático que lidera a reabilitação da Cidade Velha. "A maioria está com o Hamas. O apoio diminuíra e com a guerra aumentou." Não é ideológico. "Havia corrupção na Fatah." Esse apoio viu-se numa manifestação antiguerra "com milhares". De resto, Hebron manteve-se quieta. "Também há gente do Hamas presa, como o Hamas prende em Gaza."
Andando um quilómetro, é possível apanhar uma carrinha para Jerusalém que demora 50 minutos. Só palestinianos com identidade de Jerusalém ou estrangeiros podem ir nela. Isso exclui toda a Cisjordânia.
(publicado a 2 de Fevereiro na edição impressa do Público)
Feb 1, 2009
“Aceitaremos um estado ao lado de Israel sem o atacar, mas nunca reconheceremos a sua existência”
(Alexandra Lucas Coelho)
Abbas é um traidor. Os regimes árabes são ditaduras corruptas. A resistência só acaba se a ocupação acabar. Israel não tem futuro como Estado judaico. É o que pensa o Hamas, nas palavras de um líder.
Entrevista
Alexandra Lucas Coelho, em Gaza
Os mais conhecidos nomes do Hamas em Gaza estão na sombra desde a guerra. Um dos líderes que fala é o deputado Yahya Al Abadsa.
Esteve preso cinco anos nas cadeias israelitas, doutorou-se em Educação e deu aulas na Universidade Islâmica até ser eleito para o parlamento. Aos 51 anos, pai de sete filhos, mora num modesto apartamento em Khan Yunis, Sul de Gaza, onde os pais se refugiaram quando Israel foi criado.
Quinta-feira à tarde não havia bandeiras verde do Hamas na rua, mas viam-se duas bandeiras vermelhas da PFLP. Como faltava a electricidade, era preciso subir às escuras uns degraus toscos de cimento. Lá em cima, na sala de visitas, o habitual mapa da Palestina antes da declaração de Israel.
Dois dos filhos, um adolescente e uma menina, seguiram em silêncio a entrevista. A jornalista não estava de cabeça coberta. Al Abadsa manteve-se sempre cortês.
Gaza ainda está em cessar-fogo?
Não há cessar-fogo verdadeiro. O cessar-fogo é de acordo com o ponto de vista israelita, o que lhes dá o direito de agir contra os palestinianos quando querem. Cessar-fogo tem que ter dois significados. Primeiro, parar o fogo e depois parar o cerco, que é um crime. Desde que o cessar-fogo foi declarado, os israelitas mataram três palestinianos e feriram outros mesmo antes de algum fogo os ter atingido. Isto leva a que não haja compromisso de cessar-fogo por parte da resistência a não ser que Israel esteja comprometido.
Foram lançados dois “rockets” contra Israel.
Sei pelos media que eram das Brigadas Al Aqsa [ligadas à Fatah].
O Hamas não tem nada a ver com eles?
Se o Hamas lança “rockets”, assume.
Qual é o objectivo dos “rockets”?
Estamos sob ocupação e isso dá-nos o direito de nos defendermos e lutarmos pelos nossos direitos. A nossa liderança na OLP decidiu parar a violência de forma a conseguir a paz, e durante 16 anos foi um falhanço, portanto, diga-me: o que fazer?
Israel joga com o tempo para conseguir os seus objectivos, que é criar um Estado judaico em toda a Palestina e expulsar os palestinianos.
Há pessoas em Gaza que perguntam para que serviram os “rockets”. Se o fim é combater a ocupação, que ganharam com eles?
A questão é ilógica. Se paz significa que os ocupantes não nos dêem os nossos direitos, é uma perda de tempo. E se assim fosse nenhum povo ocupado poderia lutar pela liberdade. Por exemplo, a Argélia, nos dias da luta com a França, perdeu num dia 45 mil mártires.
Gente aqui em Gaza perguntou a chorar se valeu a pena perder 1300 vidas, ter 5500 feridos, 20 mil casas destruídas.
Lembro-lhe que os vietnamitas perderam três milhões de combatentes contra 20 mil soldados americanos. Os argelinos perderam entre 1,5 e dois milhões contra 20 mil soldados franceses.
O problema não são os rockets. Qualquer forma de resistência à ocupação seria retaliada da forma que eles fizeram.
Acha que a perda de vidas foi um preço que os palestinianos tiveram de pagar?
Sem dúvida. Qualquer povo que queira viver com dignidade tem que pagar um preço, e isso é legítimo.
Mas as pessoas podem questionar a estratégia do Hamas, podem pensar que os israelitas usaram o álibi dos rockets para a guerra. Esta estratégia foi boa?
O verdadeiro álibi de Israel para atacar é a nossa presença nesta terra. Como explica o que se passa na Cisjordânia? Não há rockets na Cisjordânia, não há resistência, até há rendição da parte da Autoridade Palestiniana. Então porque é que Israel mata palestinianos lá? Durante os últimos seis meses mais de 50 mártires morreram na Cisjordânia.
É preciso uma saída. Qual é o próximo passo? Um governo de unidade?
Se a ocupação acabar teremos a nossa liberdade. Se a ocupação não acabar, nada mudará.
Desde Junho de 2007 os palestinianos têm dois governos, na Cisjordânia e em Gaza. O que pode fazer o Hamas para os unir?
Lembro-lhe que quando a Alemanha invadiu a França, nomeou o general Pétain como líder da França. Os franceses aceitaram esse governo alemão ou lutaram contra ele e recuperaram a sua liberdade?
Compara o Hamas com a resistência em França na II Guerra Mundial?
Sim.
Mas as pessoas na Cisjordânia estão a aceitar o governo de Ramallah.
Não é verdade. Aquilo não é uma democracia. Salam Fayyad, o primeiro-ministro, tem apenas um lugar no parlamento, enquanto que o Hamas tem 78. Dois terços do parlamento são nossos. Então quem tem o direito de formar governo de acordo com as regras democráticas?
É uma prioridade do Hamas criar uma união com a Autoridade Palestiniana ou não?
A nossa prioridade é aliviar os palestinianos, dar-lhes o que necessitam, quebrar este bloqueio, abrir as fronteiras.
E a unidade?
Os palestinianos estão unidos no terreno. O governo de Ramallah representa Israel, EUA e o Quarteto.
Que pensa do presidente Abbas?
Já não é um presidente, é um traidor. Deve ser levado a tribunal por trair e colaborar contra os palestinianos. É responsável pela divisão e por pôr a resistência na cadeia.
Como vê o comportamento dos países árabes nesta guerra, a começar pelo Egipto, que manteve a fronteira fechada?
É lamentável, um grande desgosto para nós. Prova que há árabes que são parte deste processo contra os palestinianos.
Isso não faz o Hamas sentir-se isolado?
É muito doloroso, mas retiramos a nossa força de quem nos elegeu e escolheu a resistência. Não nos sentimos isolados porque todas as comunidades árabes e livres do mundo estão connosco. E estes regimes árabes são ditadores não escolhidos pelo povo, instrumentos da administração americana.
Há algum governo árabe ou islâmico para o qual o Hamas se possa virar?
É verdade que nem todos são iguais. O pior é a posição do Egipto.
Quem vos ajuda?
Síria e Qatar já deram ajuda e apoio.
Recebem ajuda do Irão?
O Irão é um país chave no Médio Oriente, e tem uma posição clara de apoio à causa palestiniana. Apoiam vários projectos, famílias de mártires e organizações de caridade.
Quais foram os principais contribuidores da ajuda que o Hamas deu às pessoas depois da guerra?
Recebemos apoios e doações de todo o mundo árabe, islâmico e de todo o mundo livre.
Quanto receberam para distribuir?
Não posso responder, por razões de segurança.
Quanto vão dar a cada família?
O governo declarou que há 52 milhões de euros para distribuir. 4000 euros para cada família que perdeu a casa, 2000 para quem teve familiares mortos, 500 para feridos. Isto, como ajuda de emergência.
Se os mediadores internacionais pedirem ao Hamas para reconhecer a existência de Israel, ou seja para aceitar as fronteiras de 1967, o Hamas estaria disposto a fazê-lo?
Todas as terras da Palestina são nossas. Mas, apesar disso, aceitámos estabelecer o nosso estado nas fronteiras de 1967. Podemos aceitar uma solução temporária de dois estados, mas sempre consideraremos o resto das terras como nossas.
Se os espanhóis viessem e ocupassem a sua terra, e ao fim de algum tempo lhe viessem dizer: damos-lhe 20 por cento e você tem que aceitar que 80 por cento é nosso, aceitava?
Para viver numa paz permanente, o Hamas estaria disposto a reconhecer Israel?
Antes de 1948 havia um Estado chamado Israel? Onde estavam os judeus? O meu pai é mais velho que Israel. Os estados não podem ser construídos à força.
Como palestinianos, temos uma herança. A nossa terra é a terra da paz. O nosso deus significa paz. Criamos as crianças na base do amor. Elas não odeiam pessoas, amam as pessoas, a vida. Mas isso não significa que eu lhes ensine a desistir da sua terra.
Sou um refugiado aqui. A minha aldeia, de que o meu pai foi expulso, ainda existe ao pé de Ashkelon. Não é justo que a paz venha à custa dos meus direitos. Desde 1948 até agora tivemos cinco guerras, dezenas de milhares de palestinianos foram mortos. Seria aceitável, justo, depois desta longa marcha, aceitarmos paz à nossa custa? Será justo que os judeus expulsos da Europa no Holocausto resolvam o problema à nossa custa?
O problema é simples. Israel tem que sair das terras de 1967 sem condições, a troco de paz. E nenhum atacará o outro.
Mas reconhecer Israel, isso não aceitaremos. Ter relações normais com Israel, não. Asseguramos que não os atacaremos, e eles em troca têm que garantir que não nos atacam.
Há países que lidam uns com os outros e não se reconhecem.
É injusto a comunidade internacional pedir-nos isso.
É impossível reconhecerem Israel por causa dos refugiados que estão fora?
É uma questão básica, de crença. Para além, claro, da questão dos refugiados, que é um pilar.
Portanto, o fim final do Hamas seria uma solução Um Estado.
Digo-lhe honestamente: não há futuro para Israel enquanto estado racista, judaico. Não há futuro para um país assim. O nosso problema é a questão da democracia. Se a democracia prevalecer no mundo árabe, Israel não se aguentará. Israel aguenta-se não por causa da sua força militar, ou poder americano, mas devido à corrupção dos regimes árabes.
Admitiria uma solução Um Estado com judeus e palestinianos, vivendo lado-a-lado?
Não temos qualquer problema com a solução Um Estado com todas as religiões a viverem juntas. O problema é dos judeus, não nosso.
Mas o fim do Hamas não é formar um estado islâmico?
Absolutamente não. Não está na nossa agenda. Queremos um estado democrático, onde as pessoas possam viver livremente, com liberdade de religião, em que a lei prevaleça. Um estado pacífico, respeitador das escolhas das pessoas.
Nós não receamos o futuro. Acreditamos no futuro. Quem receia o futuro é Israel. O que aconteceu em Gaza é o trabalho de cobardes, daqueles que têm medo, não dos que são fortes.
Que espera de Obama?
É bom para a América e não tem qualquer significado para nós. Quem governa a América é um grupo de instituições. Não é uma questão de gostar dele ou não. Vamos olhar para o trabalho dele, mas não temos grande coisa a esperar.
Uma das primeiras decisões de Obama foi ter um enviado no Médio Oriente.
São relações públicas, sobretudo. O que a América está a fazer é anestesiar a região para Israel cumprir os seus objectivos. A América está a dar tempo a Israel. É um parceiro no que se está a passar. A América é responsável por 43 vetos na ONU. O crime que aconteceu em Gaza foi cometido por um braço americano. Israel não se atreve a fazer nada sem a luz verde da América.
O Hamas tem presos políticos em Gaza?
Não temos um único, da Fatah ou de outras facções. Temos entre 10 a 20 prisioneiros à espera de serem levados a tribunal por explosivos e questões criminosas, não políticas.
O porta-voz da Fatah em Gaza diz que o Hamas tem prisioneiros políticos, que ele próprio foi preso, como muita gente.
Estamos a falar agora, não do passado.
Tinham prisioneiros políticos?
Foi uma medida excepcional, por um período limitado de tempo. Depois dos bombardeamentos em Beach Camp [em Julho de 2008, quando morreram vários membros do Hamas, que responsabilizou facções da Fatah].
Militantes de outras facções, como a PFLP, dizem que não há liberdade, que não podem dizer o que pensam.
Não é verdade. Por exemplo, temos muitos media agora em Gaza e pode ver que nem uma única delegação foi fechada. A imprensa é livre de trabalhar em Gaza.
O Hamas é acusado de alvejar militantes da Fatah nas pernas, e encontrámos gente que foi alvejada.
Não é verdade. É propaganda da Fatah contra o Hamas.
Durante a guerra, e depois, seguimos traidores que deram informações à imprensa israelita e essas informações ajudaram Israel na guerra.
Houve gente apanhada a vigiar a resistência e ficou provado que deram informações a Israel.
Essas pessoas foram presas e estamos a lidar com elas agora. Algumas podem ser da Fatah, mas não quer dizer que estejamos contra a Fatah. Estamos contra os traidores em geral.
Portanto, Fatah, PFLP, Jihad Islâmica podem expressar-se livremente em Gaza?
Todas as facções da resistência trabalham livremente. Mas aqueles que trabalham com ordens de Ramallah não são livres.
O que quer dizer?
A prática de Ramallah é trazer caos para a sociedade de Gaza, e isso é algo que não podemos permitir, porque quebra a unidade interna. Não pagar às pessoas o seu salário, e muitos outros actos feitos por Ramallah para dividir e trazer o caos.
(publicado em 1 de Fevereiro na edição impressa do Público)
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