Feb 2, 2009

A Cisjordânia quieta


Uma palestiniana (e o filho) discute com soldados israelitas junto a Jenin
(Saif Dahlah/AFP)


Não se vêem armas nem protestos, entre checkpoints e mais colonatos. Viagem de Jenin a Hebron, em transportes colectivos
Reportagem

Alexandra Lucas Coelho, na Cisjordânia

1. Jenin
Coração cansado

Pela Cisjordânia - o maior território ocupado - viajam, em geral, palestinianos, estrangeiros, e dois tipos de israelitas: soldados e colonos.

Os palestinianos têm um sistema de mini-autocarros (brancos) e carrinhas (amarelas), que partem quando estão cheios. Por causa das barreiras israelitas, de Jerusalém a Jenin é preciso apanhar dois transportes. Um mini-autocarro até Ramallah, e a partir daí uma carrinha. Ao todo, são 110 quilómetros e três checkpoints. No sábado, dia sem trânsito, o PÚBLICO demorou duas horas e meia.

Depois das colinas de Ramallah, pujantes de construção, a paisagem segue ondulante, coberta de pedras e oliveiras. Mas logo aparecem setas para os colonatos (Eli, Ariel, Ma'ale Efrayim...), e lá em cima os telhados cercados por arame farpado.

Bem iluminada, com várias faixas, bombas de gasolina e paragens de autocarro, esta é a estrada feita para os colonos. Na Cisjordânia, são já 285.800 (somados aos de Jerusalém Leste, rondam meio milhão, com infra-estruturas e autênticas cidades).

Isto afecta todo o território, e, dentro dele, Ismail Al Khatib.

Este nome correu mundo em 2005. O seu filho Ahmed brincava com uma arma de plástico quando um soldado israelita o matou, julgando que a arma era verdadeira. Ismail doou os órgãos a quatro crianças israelitas. Foi feito um filme (Heart of Jenin) que ganhou prémios e comoveu israelitas.

E aqui está esse pai, entre as ruelas do campo de refugiados de Jenin, no rudimentar centro de actividades infantis entretanto fundado por italianos. Aos 43 anos, parece fatigado, e fuma incessantemente.

"Israel deu-lhe cinco horas para ir a Jerusalém ver o filme", diz o amigo Fakhri, que tem sido o seu tradutor.

Durante a guerra em Gaza, a Cisjordânia não explodiu em protestos. Fahkri acha que as pessoas estão cansadas. "Fizemos milhares de manifestações, não há energia para mais. E as pessoas da Fatah acham que parte da responsabilidade é do Hamas." Em Jenin, diz, "centenas" manifestaram-se "quatro ou cinco vezes".

E Ismail, exemplo de perdão, como olha para Gaza?

Antes de traduzir, Fahkri conta: "Depois de doar os órgãos, Ismail recebeu um telefonema de Ehud Olmert [hoje, primeiro-ministro]. Ele prometeu-lhe que Ahmed seria a última criança morta neste conflito. Quando a guerra começou em Gaza, centenas de crianças foram mortas. Ismail desligou o telefonou e deixou de falar até com os amigos."

Ismail escuta e fuma. Depois diz: "Foram dias difíceis. Ver as pessoas a pegar nas crianças trouxe-me a imagem de Ahmed."

A guerra, crê, "foi para enfraquecer os palestinianos e fazer fortes os israelitas antes de uma eleição". Quanto à divisão dos palestinianos, resolvia-se "retirando os colonatos e acabando com a ocupação". Isso faria as pessoas acreditar nas negociações e confiar no presidente Abbas e na Autoridade Palestiniana (AP). "Eu confio, acho que são eles que nos podem representar."

"Aqui as pessoas não apoiam o Hamas", reforça Fahkri. "Podemos sentir isso. Muita gente votou Hamas só para punir a Fatah." E no último ano e meio, a AP agiu. "Tem sido suficientemente forte para impedir armas nas ruas." Quer dizer que acabou a resistência? "Não", responde Fakhri. "Nós somos a resistência. Mas a resistência armada está acabada."

2. Nablus
A montanha não deita fogo
De Jenin a Nablus são 45 minutos. Transporte directo, amendoeiras em flor, um checkpoint.
O centro fervilha de trânsito e gente no mercado. À volta, montanhas cheias de prédios. Aqui vivem 100 mil pessoas e estudam 20 mil universitários.

An Najah é a maior universidade da Cisjordânia, e um dos seus vice-presidentes é o químico Maher Natsheh, que agora atravessa a bela Cidade Velha, entre galinhas cacarejantes, tâmaras de todas as espécies e fatos de treino provavelmente chineses.

"Centenas, algumas vezes", foram os manifestantes contra a guerra, aqui. E porquê? "Porque não há esperança em relação a nada." E depois: "Estamos solidárias com as mulheres e as crianças em Gaza, mas não apoiamos o Hamas. Ao acabar a trégua, deu a desculpa. Há muito que tinha Gaza sob cerco, para levar o Hamas àquilo."

Que é feito dos militantes que fizeram de Nablus a Jabal Nar a Montanha de Fogo? Aqueles que combateram os israelitas nestas ruas? "A maior parte está nas prisões israelitas. Quase a cada noite há incursões e prendem activistas."

Depois, confirma, "uma coisa que as pessoas agradecem à AP é ter posto ordem nas cidades". Mas há críticas a Abbas: "Não removeu um só checkpoint. Deu tudo aos israelitas e eles expandiram os colonatos". Todas as entradas em Nablus continuam a ter checkpoints - que separam os palestinianos uns dos outros, e não Israel dos territórios - e "especialmente os rapazes" levam horas a passar. "Mas todos rezamos para que Hamas e Fatah se unam. A estratégia israelita era dividir-nos, e as pessoas lá fora começam a não nos respeitar."

No checkpoint da saída para Jerusalém, dezenas de rapazes. Na fila dos carros está uma ambulância.

3. Belém
Política, não
Sem checkpoints nem muro, Belém seria a um quarto de hora de Jerusalém, mas o PÚBLICO levou uma hora.

É domingo, choveu, e agora a praça da Basílica da Natividade brilha ao sol. Aqui, diz a tradição cristã, nasceu Jesus. A esta hora, na nave principal, rezam os gregos ortodoxos, na gruta do nascimento já rezaram os arménios, e ao lado celebra-se a missa católica.

Nicola, 20 anos, estudante de Direito, é um dos ortodoxos que não celebraram o Natal por causa de Gaza. "Quando víamos as notícias, chorávamos", conta no átrio, que cheira a incenso e a cera. "E também não celebrámos o Ano Novo. À noite, fomos descalços à chuva até ao checkpoint e rezámos ali por Gaza." Quantas pessoas? "Umas 40 ou 50, porque estava muito frio." De resto, em Belém houve "pequenas manifestações".

Nicola, que não é da Fatah, não simpatiza com o Hamas e acha que "eles lutam de forma errada". Mas diz que "a luta contra Israel é um direito dos palestinianos" e reza pela união. "Somos um só povo, o mesmo sofrimento."

No entanto, antes e depois de Nicola, sucedem-se recusas à menção de Gaza. Ninguém quer falar "de política". O património de Belém é esta Igreja. À volta há dormidas, comidas e souvenirs. Os problemas afastam o turismo.

É o que dirá, enfim, o católico Johnny, 30 anos, ao balcão de uma loja deserta. "Houve muito turismo cancelado por causa de Gaza. É isso que preocupa as pessoas, é isso que ouço." Nem Fatah, nem Hamas, Johnny teve "pena das crianças de Gaza", e mais não diz.

4. Hebron
Sempre os colonos
De Belém a Hebron são 40 minutos. Sendo a maior cidade da Cisjordânia, é a mais tensa. Judeus e muçulmanos crêem que aqui está o Túmulo dos Profetas, onde Abraão foi sepultado. Junto ao sítio sagrado vivem centenas de colonos guardados por milhares de soldados, e o coração de Hebron tem sido palco de mortes violentas. A última em Dezembro, quando um colono matou mais um palestiniano.

Descendo a rua do mercado, cada vez há menos gente. Cerca de 850 lojas foram forçadas a fechar e outras não têm coragem de abrir. O lugar é desolado, patrulhado por soldados com metralhadoras, e da praça da mesquita de Ibrahim (Abraão) avistam-se os jovens colonos, a rondarem as quatro lojas que restam abertas.

"Posso abrir porque vivo aqui", explica Mohammed Khaled, 40 anos. A sua oficina de cerâmica foi fundada pelo pai em 1964 e cá continua, com dois homens a pintarem e um terceiro a moldar o barro. No forno, cozem potes. Vidro e cerâmica são artes de Hebron.

Todos os dias Mohammed tem que passar pelos soldados, tirar a roupa, o cinto, e tem fresca a morte em Dezembro. Então, quando se fala em Gaza, diz: "Destruíram tudo para quê? O Hamas, o Hamas, o Hamas! O Hamas não tem um exército!". E isto para dizer que o problema é a ocupação. "Eu era da Fatah, mas agora não. Abbas foi a Washington, a Oslo, e o que conseguiu? As ruas estão fechadas, não há autorização para ir a Jerusalém, e há mais colonos."

Em Hebron, o Hamas ganhou nove deputados em nove. E essa força pode ter diminuído mas continua, assegura Walid Alhalaweh, o engenheiro informático que lidera a reabilitação da Cidade Velha. "A maioria está com o Hamas. O apoio diminuíra e com a guerra aumentou." Não é ideológico. "Havia corrupção na Fatah." Esse apoio viu-se numa manifestação antiguerra "com milhares". De resto, Hebron manteve-se quieta. "Também há gente do Hamas presa, como o Hamas prende em Gaza."

Andando um quilómetro, é possível apanhar uma carrinha para Jerusalém que demora 50 minutos. Só palestinianos com identidade de Jerusalém ou estrangeiros podem ir nela. Isso exclui toda a Cisjordânia.
(publicado a 2 de Fevereiro na edição impressa do Público)

3 comments:

Claudio said...

Parabéns pelo seu trabalho investigativo, com uma bela narrativa,em meio aos escombros da humanidade.

A Flor do Sul said...

O pai do menino fez um gesto de paz. Allah vai recompensá-lo por isso, e vai recompensar a todos, não importa de que religião sejam, pelo que fizerem aqui na terra de Bom ou de mal.

Mas, aqueles que pensam mais em Deus do que no homem, que precisa sim de que pensem nele, ao contrári de Deus, estes viverão vidas tristes e silenciosas.

O mundo é grande, e todos têm direito a ele.
É injusto que soldados israelenses imponham tantos obstáculos a ida e vinda de um palestino de uma cidade a outra da Palestina, mas é também injusto que um jovem palestino, calado ou de alta voz, queira no seu coração vê-los sair de lá e ir morar bem longe deles.
As pessoas não têm mais paciencia uma com as outras.

Anonymous said...

investigativo..... ehehehehe