Jan 19, 2009

Diário Israel/Palestina 1

Natan Gaukowitcz no seu abrigo anti "rockets", usado como infantário
(Alexandra Lucas Coelho)


O cozinheiro que perdeu a filha

Natan tem um grande molho de chaves, e de noite leva algum tempo a encontrar a que precisa. O céu por cima do “kibbutz” Bror Hai está cheio de estrelas, ou as estrelas vêem-se melhor longe da cidade, entre pinheiros gigantes. Gaza está a um pulo, quer dizer, estamos na fronteira.

A chave que Natan precisa é a do restaurante.

“O restaurante é um memorial para a minha filha, que foi morta por um míssil do Hamas”, diz Natan, ainda antes de encontrar a chave, que abre a porta, onde se acendem as luzes. “Uma vez perguntei-lhe se ela queria aprender a cozinhar e ela disse que não porque eu estaria sempre aqui para cozinhar para ela. E então abri isto.”

Um restaurante chamado Mides. “A minha filha gostava muito de mitologia grega e Mides era a quinta mulher de Zeus.” Aqui é um restaurante brasileiro.

O nome não revela, mas Natan Gaukowicz, 57 anos, nasceu em São Paulo e ainda não perdeu o sotaque, após três décadas em Israel. “Sou cozinheiro e a minha especialidade é feijoada.” A saber, para quem também está presente e não sabia: “Feijão preto como aquele mexicano, mas mais pequeno, muito tipo de carne, laranja, couve...”

Esta noite, que é a primeira de cessar fogo ao fim de três semanas de guerra, não há feijoada nem mais nada, porque Natan folgou. Fez um domingo brasileiro. De resto, este estrado de madeira ao ar livre costuma estar cheio de mesas. Só no “kibbutz” vivem 400 pessoas. “É um ‘kibbutz’ brasileiro, com muita fruta, morango, manga.” “Kibbutz’ à antiga, unidade colectiva de produção? “Não, isso não. Já quase não há ‘kibbutz’ assim em Israel.”

Mas uma coisa os ‘kibbutz’ aqui na fronteira têm em comum: abrigos.

“A minha filha não morreu nesta guerra. Morreu a 14 de Julho de 2005.” Dias antes dos colonos israelitas terem saído da Faixa de Gaza. “Ela tinha ido visitar uma família mesmo junto a Gaza e morreu lá, por causa de um morteiro.” Chamava-se Dana, tinha 22 anos.

E depois Natan diz esta coisa talvez inesperada: “Mas muito mais pessoas morreram de um lado e do outro. A minha tragédia não é só minha, é a tragédia de dois povos. E eu tomei a decisão de mudar esta realidade, e falar em todo o lado onde pudesse. Uso o meu caso para promover a paz.”

Ao mesmo tempo, desconfia sistematicamente do Hamas. “A seguir a Israel decretar o cessar-fogo, o Hamas enviou mísseis. Agora se houver mais mísseis será mesmo uma tragédia, porque o exército entrará outra vez em Gaza, a população sofrerá mais, e já é insuportável o que sofreram até agora. Isso preocupa-me porque não o merecem. Mas por outro lado elegeram o Hamas.”

Natan encarou o bombardeamento israelita como uma resposta inevitável. “Há oito anos que estamos sob fogo aqui na fronteira e Israel não respondeu.” Chega a dar um exemplo muitas vezes invocado, como se os Estados Unidos estivessem a ocupar o México. “Pense o que era alguém em Tijuana a disparar para San Diego.”

O eterno conflito
Vivendo assim num “kibbutz” junto a Sderot, a povoação israelita mais próxima de Gaza, Natan viveu na pele o eternizar do conflito. “Tive de fugir muitas vezes. A minha mulher trabalha ao pé de Sderot e muitos dias não pôde ir trabalhar. Vi pessoas fora de controle, a gritar.”

Politicamente, Natan só acredita numa “solução verdadeira em quatro ou cinco gerações, porque a criança que viu agora a sua casa ser destruída não vai perdoar aos israelitas”. O que Natan não pode perdoar ao Hamas é uma coisa que tem por certa: “Eles usam crianças como escudos.”
E qual será a solução verdadeira? “Dois estados, com Jerusalém dividida. Não tenho problema com isso, como a maioria dos israelitas não tem. E os colonatos têm que ser retirados. Tem que haver uma fronteira clara. O problema é que até hoje não temos fronteiras. Em 1967, Israel entrou nos territórios e não devia ter ficado. Foi um grande erro. Mas há espaço suficiente para os dois povos.”

Como ex-militar conhecedor de Gaza, diz “ter a certeza de que israelitas e palestinianos podem viver juntos”. E, antes de mais, quanto aos palestinianos: “Têm que sair de campos de refugiados e viver como pessoas. Mas ninguém quer saber e usam-nos como arma, mantêm-nos pobres.”

A guerra como arma eleitoral
Do que Natan está seguro é de que “esta guerra foi usada para as eleições.” Há legislativas em Israel a 10 de Fevereiro. A ministra dos Estrangeiros Tzipi Livni e o primeiro-ministro Ehud Barak estavam em baixo nas sondagens. “Eles usaram a guerra para se promoverem.”

E Natan declara-se “muito pessimista”.

Mas continua aqui, com a família. A sua filha levada pelo míssil era a do meio: a mais velha tem 26 anos e o filho tem 21. São a primeira geração nascida em Israel, netos de sobreviventes do Holocausto, lá na Polónia.

“Os meus pais conheceram-se num campo de trabalho. A minha mãe era cozinheira e dava uma batata extra ao meu pai, e foi por isso que o meu pai sobreviveu.” Quando a mãe foi enviada para Auschwitz, conta Natan, “saltou do comboio”. Voltou a encontrar o homem da batata em Génova. Casaram no barco e emigraram para o Brasil.

Natan saiu de São Paulo para vir fazer um doutoramento de Informática em Israel. Casou, ficou.
E entre as suas muitas chaves está a do abrigo. Neste “kibbutz” há dez abrigos. O que ele usa fica mesmo em frente ao restaurante, mas por vezes isso não é suficiente. “Temos 15 segundos de aviso até o ‘rocket’ cair. Da última vez não cheguei a tempo.”

Procura a chave, abre a porta. No piso ao nível do chão há uma rudimentar casa de banho e daí descem umas escadas para o subterrâneo. Lá em baixo parece uma escolinha, com cadeiras e mesas em miniatura, “snoopys” de peluche, quadros e livros. “Está a funcionar como jardim infantil porque é seguro.”

Um jardim infantil onde está sempre acesa a luz eléctrica.

“Parece incrível”, diz Natan. “Porque o que nós queremos é viver em paz e os palestinianos também.”

2 comments:

Anonymous said...

Testemunho maravilhoso e comovente.

R\ said...

Imagina ,Nesse caso os portuguese tb não podiam ter este país, uma vez que
a terra era dos "mouros"... Bom, mas de facto, Saladino (sarraceno)
conquistou Jerusalem aos cristãos (Cruzadores) não aos Judeus. Já no tempo de
cristo eram os Romanos e não os judeus que detinham o território. Naquela terra,
como em todas as terras viviam mts judeus, mas tb viviam mts muçulmanos e outros.
Os Judeus nunca tiveram um verdadeiro território seu e por isso foi-lhes concedido
um país pela ONU em 1948. Mas tb não foi bem por isso que esta guerra estoirou,
a questão é que Israel "expandiu" mt esse território e tem aliados de mt peso....
Enfim, mts problemas e poucas soluções de bom senso.