Feb 10, 2009

A guerra e Ivan o Terrível

Alexandra Lucas Coelho, em Jerusalém

Há umas semanas, quando Avigdor Lieberman se viu investigado por suborno, fraude e lavagem de dinheiro, explicou aos apoiantes que eram ataques de “rotina”, por ser visto como o “Ivan o Terrível do ‘establishment’ israelita”.

Em causa estão centenas de milhares de dólares transferidos para empresas em nome de Lieberman ou da sua filha Michal, quando ele era ministro. A polícia considerou as suspeitas “graves” e deteve colaboradores. Mas a investigação em curso não impediu que o ex-porteiro de bares vindo da Moldova há 30 anos se tornasse uma força eleitoral.

E, contrariando a visão de Lieberman como um racista de extrema-direita, Hanoch Daum – religioso célebre por se assumir como homossexual e questionar a ortodoxia – perguntou na sua coluna do “Yedioth Aharonoth”: “Ele é assim tão mau?”

A resposta de Daum é que não, Lieberman não é assim tão mau – porque defende os colonatos em blocos e não espalhados pela Cisjordânia, admite devolver “alguns bairros de Jerusalém” aos palestinianos, tem ideias interessantes de transferência da população árabe e até propõe o casamento civil.

Em Israel, quem não quer casamento religioso tem que casar fora. Só há casamentos religiosos, e politicamente isto não é um pormenor. Para os religiosos em geral é um pilar. E “para metade da população é importante”, diz ao PÚBLICO o cientista político Itzhak Galnoor, do Instituto Van Leer.

O casamento religioso e a comida “kosher” são uma força e uma fraqueza de Lieberman. Uma fraqueza, porque os ultra-ortodoxos sefarditas do partido Shas (em quinto lugar nas sondagens) servem-se disso para atacar Lieberman. Uma força, porque os votantes russófonos (mais de um milhão) são, em geral, pelo casamento civil e pelo porco.

Mas com a guerra de Gaza, a primeira coisa na cabeça de quase todos os israelitas passou a ser a segurança, e essa é a força dominante na ascensão de Lieberman.

Os votos do medo
“Quando começou a campanha, achámos que as eleições iam ser sobre corrupção”, relembra Galnoor. “Depois, com a crise, achámos que iam ser sobre economia. E agora é a segurança. Lieberman é uma reacção ao medo. Cerca de 50 por cento dos que vão votar nele são imigrantes da ex-URSS, o que é compreensível, muitos são chauvinistas, têm medo dos árabes. Mas os outros 50 por cento procuram um líder forte por causa da guerra.”

De resto, Itzhak Galnoor destaca quatro características nas eleições de hoje. Primeira, indecisos: “Na última sondagem, 20 por cento não sabia o que votar, o que é novo, porque os israelitas têm opiniões fortes. Isto significa que ainda pode haver grandes mudanças.” Há 10 dias parecia claro que o Likud de Bibi Netanyahu ia ganhar. Entretanto o Kadima de Tzipi Livni reduziu a diferença nas sondagens. Lieberman foi buscar votos ao Likud, o que enfraqueceu Bibi e favoreceu Livni. Muitos votantes não-Kadima pensam votar Livni simplesmente para derrotar Bibi.

Segundo ponto, voto árabe. “As sondagens estão baseadas na ideia de que muitos árabes não querem participar. Mas se a participação for a média, 65 por cento, o bloco do Kadima para a esquerda será maior.”

Terceiro: “Temos agora três líderes [Bibi, Livni, Barak] que podem aspirar a ser primeiro-ministro, e isso é novo. O primeiro-ministro pode não ser o mais votado mas o que consegue uma coligação mais forte.”

E finalmente: “Todos os três líderes poderão ser parceiros de coligação. Pode mesmo haver uma rotação de primeiro-ministro. Entre 1984 e 1990 tivemos um governo de unidade, com Shimon Peres e Yitzhak Shamir.”

Posto isto, Galnoor pensa que Netanyahu é “o mais provável vencedor”, e que Lieberman não deverá chegar a ministro, apesar de Bibi ter dito que lhe ofereceria um ministério. “Diz isso porque quer os votos de Lieberman, mas Bibi é muito sensível à relação com os EUA e eles não gostariam de ver Lieberman no governo.”

Explosão árabe
“Lieberman é o primeiro chefe de um forte partido fascista em Israel”, resume ao Público Yaron Ezrahi, especialista em Política e Democracia da Universidade Hebraica de Jerusalém. “Fascista, com forte tónica no racismo e na apatia.” E “não é sério” tentar dizer que não é assim tão mau. “Basicamente, ele quer os árabes daqui para fora. O partido dele é alimentado pelo conflito entre judeus e árabes, e se for forte os confrontos de Acre podem espalhar-se.”

A histórica Acre é hoje uma cidade com árabes e judeus, no Norte de Israel. Há meses, houve um tumulto com destruição de lojas, e o festival de teatro foi cancelado. Lieberman pode ser combustível para uma explosão árabe? “Absolutamente. Ele é uma continuação de Kahane [líder da direita terrorista inspiradora do assassinato de Yitzhak Rabin]. Mas aprendeu a usar cosmética para parecer aceitável.” É um perigo verdadeiro? “Sem dúvida. Não é coincidência que tenha crescido nas paixões do pós-guerra.”

E é aqui que Lieberman se liga ao Hamas, diz este analista. “O Hamas mudou a equação ‘terra por paz’ para ‘terra por rockets’, e isso é um grande golpe para o movimento da paz. A evacuação de 8000 colonos em Gaza foi muito dolorosa, e a justificação era que contribuísse para a paz e o desenvolvimento de Gaza. Mas Gaza tornou-se uma base para o Irão lançar mísseis para Israel, e há o receio de que isto se estenda à Cisjordânia.”

Se Obama, a Europa e o Plano de Paz Saudita se juntarem, “podem mudar esta amosfera e Lieberman será diminuído”, crê Ezrahi.

E entretanto, nas eleições de hoje?

Nem o trabalhista Barak excluiu uma coligação com Lieberman, e para Bibi e Livni o “russo” seria parceiro de peso. Nisso, Bibi está em vantagem, escreveu Yossi Verter no “Ha’aretz”, porque pode oferecer mais. Livni está disposta a dar a Lieberman casamento civil e mudanças no sistema eleitoral? Bibi também. Livni quer Lieberman na coligação? Então perde a esquerda que se recusa a trabalhar com ele, o Meretz e os árabes. Em suma, Bibi pode ter mais facilidade numa coligação estável.

E quanto aos trabalhistas? “Será difícil entrarem em coligação com Lieberman, porque há demasiados ministros que se revoltariam”, pensa Ezrahi. Como a actual responsável pela Educação, Yuli Tamir, que chama “imorais” às propostas de Lieberman para os árabes israelitas (“sem lealdade não há cidadania”).

“A diferença entre Bibi e Livni é que Livni precisará de Netanyahu para ter um governo estável mas terá que pagar um preço aos árabes moderados e aos Estados Unidos. E Bibi precisa de Livni para equilibrar o centro entre Lieberman e o Shas.” Se ganhar Bibi, “será um governo com a tónica nas ameaças de guerra”. Se ganhar Livni, “será um governo com a tónica nas oportunidades de paz”.

E é possível que Lieberman possa ser um aliado de Livni numa solução dois estados. “Ele só se quer ver livres dos árabes, e não se importa que haja dois estados”, resume Menahem Hofnung, outro politólogo da Universidade de Jerusalém. “Essa é uma grande diferença em relação à direita tradicional. Lieberman pode mesmo devolver territórios de 1948 por não querer os árabes neste país.”

3 comments:

andre lima said...

tenho acompanhado relativamente estes acontecimentos e ainda não percebi quem pode votar nestas eleições. Pode ser uma duvida de total ignorância, mas a verdade é que gostava se saber se os árabes residentes em Israel de cidades maioritariamente árabes, como Nazaré podem votar nestas eleições.

boas reportagens!

Victor Afonso said...

Alexandra Lucas Coelho: parabéns pelo excelente trabalho de reportagem que tem feito. Este blogue é a prova do seu empenho e profissionalismo.

Felicidades e continuação do bom trabalho.

VA

alc said...

Caro André,

Todos os palestinianos com cidadania israelita (geralmente chamados árabes israelitas), como os de Nazaré, podem votar nas eleições israelitas.

alc