Feb 5, 2009

Livni, a mulher do meio, ainda pode ganhar

Tzipi Livni
Gali Tibbon/AFP

A paz não virá da esquerda nem da direita. Os indecisos votam ao centro, a ministra dos Negócios Estrangeiros é o centro e será primeira-ministra, acreditam os membros do Kadima
Reportagem

Alexandra Lucas Coelho, em Telavive

O hino parece do festival da canção, mas o refrão é claro, "Kadima! Kadima! Kadima!" Então, os altifalantes anunciam: "A próxima primeiro-ministro de Israel, Tzipi Livni!!!" E, a seis dias das eleições, a cabeça loura - sempre hirta nos outdoors de Telavive - aparece a sorrir, à esquerda e à direita, entre presidentes de câmara do Kadima, que aplaudem de pé.

É uma manhã cálida, típica do Inverno em Telavive. Enquanto Jerusalém veste o casaco e a Europa congela, aqui anda-se de t-shirt, e há gente a tomar banho no mar, em frente.

A maior cidade de Israel é a cidade easy going, sempre a uns quarteirões da praia, e esta acção Kadima passa-se num hotel da marginal, numa sala com parede de vidro. Mas, mesmo de costas, a outra parede está coberta por espelhos que reflectem a praia.

É assim que enquanto a candidata avança, abraçando os autarcas, o salão parece estar na areia, com o Mediterrâneo dos dois lados, cães, bicicletas e biquinis.

Esta imagem, ao mesmo tempo real e irreal - paz num país que há 60 anos ainda não conseguiu paz - contém toda a ambição de Tzipi Livni, uma princesa da dinastia sionista de direita.

Os seus pais, combatentes da milícia Irgun, aspiraram a nada menos que à Grande Israel (Israel, territórios palestinianos, Sinai, Golã). As credenciais familiares de Livni são impecáveis do ponto de vista dos "falcões". E ela não as desmereceu: estudante brilhante de Direito, oficial distinguida no Exército, agente da Mossad quatro anos, ascensão no Likud pela mão de Bibi Netanyahu e Ariel Sharon. E quando Sharon retirou os colonos de Gaza, para fúria dos crentes na Grande Israel, Livni fez a sua escolha, apoiou Sharon e saiu com ele do Likud para formar o Kadima.

Livni é a herdeira pragmática - aquela que cortou com a Grande Israel para ter as outras pedras do sionismo, um estado para os judeus e democracia. Numa entrevista ao New York Times em 2007, explicou que a sua ambição se foca nisso: Israel continuar a existir como estado judaico, quando isso tende a ser "deslegitimizado".

Para o conseguir, promete negociar com os palestinianos, fazendo-lhes frente quando necessário. É o caminho do meio, resume o Kadima, e o que esta sala diz é que Livni tem as mãos limpas para ir a direito, até à paz.

Num país abalado por escândalos, com Ehud Olmert - primeiro-ministro em exercício - visto como corrupto-mor, "honestidade" é uma grande palavra, e aqui usam-na para descrever Livni.

O marroquino
Um dos autarcas presentes é David Buskila, presidente da câmara da minúscula Sderot. A maioria dos israelitas nunca lá pôs os pés, mas como é a povoação mais perto de Gaza tornou-se um símbolo do que é viver ao alcance de rockets.

E é por isso que quando Livni se sentar, este autarca ficará à sua direita, e será um dos primeiros oradores. Mas por enquanto Buskila ainda está na fase do sumo de laranja e dos bolinhos. "Quase de certeza que ela será o próximo primeiro-ministro. Sabemos que 35 por cento dos eleitores ainda não decidiram e o mapa pode mudar."

Porquê? "Desde que está na política, Tzipi Livni comportou-se de forma honesta. Há menos de um ano, o Kadima tinha 8 a 10 lugares nas sondagens, agora está com 25, e é por causa de Livni. Trouxe uma atmosfera limpa." Depois: "Tem uma posição clara sobre o Médio Oriente e diz a verdade. Quer tentar um acordo com a Autoridade Palestiniana, mas lutará contra ela se fizer mal a Israel." Mais: "Fez excelente trabalho durante a guerra." Como ministra dos Negócios Estrangeiros, e internamente: "Esteve cinco vezes em Sderot."

Economista, 52 anos, Buskila tem origens muito diferentes de Livni. Filho de judeus de Casablanca, nasceu num lugar de pobres recém-chegados, então baptizado como Sderot. Quando Livni chega à sua mesa, abraçam-se, e ela senta-se a ouvir. Buskila, o de pele escura, dirá. "Nem a esquerda nem a direita nos vão trazer paz, a paz virá do centro."

As mulheres
"Ela ainda tem hipóteses", avalia a analista Dahlia Scheindlin. "Nos últimos ciclos eleitorais tivemos surpresas, como o partido dos pensionistas. Agora, a surpresa à direita é Lieberman, mas penso que o Kadima vai conseguir mais do que se espera."

Nas sondagens, o Likud está em primeiro, a curta distância do Kadima. Em terceiro, o fenómeno da extrema-direita, Avigdor Lieberman, rouba votos sobretudo ao Likud, o que favorece Livni. "A direita está a ficar mais fracturada", nota esta analista. "Livni já tem o centro-esquerda, agora precisa do centro-direita."

E nos últimos dias apostou nos jovens - bares de Telavive, terça-feira à noite -, e nas mulheres. "Publicamente não é uma feminista, mas agora acho que houve uma decisão estratégica, não de agenda, mas de discurso, de dizer que o chauvinismo não pode ganhar."

Israel é uma sociedade não apenas masculina, machista, e a estratégia de Livni, resume Scheindlin, foi "provar que era mais general que um general". É a segunda mulher chefe da diplomacia israelita depois de Golda Meir, e quer seguir-lhe os passos na chefia do Governo.

No salão frente ao mar estarão 70 ou 80 pessoas, e é fácil contar as mulheres: oito. Dá uns 10 por cento.

Por isso, a presidente do Parlamento e candidata do Kadima Dalia Itzik insiste na força, quando chega a sua vez de falar: "Sim, Tzipi Livni é forte. É forte a dizer a verdade, é forte no amor por Israel, é forte na forma como lida com o Hamas, é forte por não nos tentar fazer medo todos os dias."

E Tzipi Livni, blaser e calças pretas, tensa, angulosa, falará com força, antes de desaparecer pela porta da cozinha, escapando aos jornalistas.

Uma das oito mulheres que a ouviu foi Mati Yogev, de 43 anos, que lidera o comité de mulheres do partido. Funcionária de uma seguradora, foi fiel ao Likud até Tzipi a trazer para o Kadima. "Já não acredito na via do Likud. Há uma nova realidade. Quero que os palestinianos tenham o seu estado. E Tzipi, tudo o que diz, pensa e acredita. Nunca a vi prometer nada e não fazer."

Dos três filhos de Mati, um está no Exército. "Tenho muito medo por ele, mas se Tzipi for primeiro--ministro tenho a certeza de que haverá paz. Até os chefes dos países do mundo confiam nela."

(publicado em 5 de Fevereiro na edição impressa do Público)

Feb 4, 2009

O ninho de Bibi está a ser ocupado por Lieberman

Em Mahane Yehuda, um ninho da direita, uns acham que Bibi Netanyahu é “o menos mau”, outros já se mudaram para a extrema-direita. O grande herói continua a ser Menahem Begin.

Alexandra Lucas Coelho, em Jerusalém

A careca e os óculos não mentem.

Menahem Begin – o guerrilheiro pela fundação de Israel, o líder do Likud que pôs fim a 30 anos de poder trabalhista, o primeiro-ministro que fez a paz com o Egipto e ganhou o Nobel, o decisor dos colonatos e da invasão do Líbano em 1982 – continua a ser o grande herói israelita de Mahane Yehuda.

Este grande mercado em Jerusalém é um bastião da direita tradicional, aqueles apoiantes do Likud que são filhos e netos de apoiantes do Likud. E por várias vezes souberam o que era um bombista suicida a explodir aqui dentro, entre as maçãs dos Golã e os morangos de Netanya, as azeitonas temperadas e as tâmaras, os queijos, a carne, o pão, tudo isto com “kipas” na cabeça, certificados “kosher” e casais laicos misturados com ultra-ortodoxos às compras.

Por exemplo, o sorridente Yuv, que tem 45 anos, três filhos e uma parede da sua frutaria pintada com a cara de Begin. “O meu pai gostava muito dele. Era um verdadeiro líder, um homem especial, não mentia.” E agora? “Estamos num grande problema. Não temos ninguém que possa fazer este país melhor, fazer a paz.” O conflito com os palestinianos é o problema número um, acha Yuv.

Como vê ele Benjamin (Bibi) Netanyahu, sucessor de Begin na liderança do Likud e favorito nas eleições da próxima terça-feira? “É o melhor que há”, suspira Yuv. “É forte. Quando era ministro das Finanças foi o melhor, tornou a Economia forte.” Portanto, vai votar nele? “Não tenho opção. Lieberman é demasiado à direita, não gosto da forma como fala dos árabes.”

Avigdor Lieberman é a sensação da campanha.

Já se sabia que este moldavo emigrado para Israel há 30 anos defende coisas como retirar a cidadania aos árabes israelitas que não se declararem fiéis ao Estado de Israel, bombardear o centro de Ramallah ou afogar prisioneiros. A sensação é que o seu partido, Yisrael Beytenu, está em terceiro lugar nas sondagens, com 15 lugares, depois do Likud (28) e do Kadima (24). Ou seja, à frente dos trabalhistas (14).

Mas não convenceu o fruteiro Yuv, apesar dele estar zangado com os palestinianos. “Queriam Gaza, demos-lhes Gaza, e o que temos? Acho que nunca haverá paz. Há 20 anos era melhor. Sem paz, tínhamos paz. Podíamos ir a Ramallah, até a Gaza, e os árabes estavam aqui.”

Como quase toda a gente aqui, diz “os árabes” e não “os palestinianos”. Desta banca, herdada do pai, testemunhou “umas cinco ou seis bombas suicidas”, em que lhe morreram amigos. “As pessoas deixaram de acreditar na paz.”

Várias lojas à frente, Moshe, que nasceu “com o país, em 1948”, vende queijos, pickles, peixe em conserva mas também doces. E não é um segredo que Bibi perdeu aqui um voto. Lieberman debaixo dos doces, Lieberman na porta do frigorífico, Lieberman na porta da despensa, três cartazes mostram em quem vai votar este afável mercador de barba barnca, que põe o braço à volta dos ombros de qualquer cliente.

E quem está na fotografia emoldurada ao pé da caixa? “Begin com o meu pai”, explica Moshe.

“Begin foi um grande ser humano antes de ser um grande líder. Nunca dizia uma coisa e depois outra. Nunca mais vamos encontrar alguém como ele, honesto, decente. Se ele estivesse vivo, eu não mudava do Likud, mas o Likud já não é o mesmo.”

O que é que Lieberman tem de melhor? “Diz algo e não muda, diz o que pensa e faz. Os políticos mudam sempre, tenho pena de dizer isto do meu país, mas é verdade.”
E Moshe não está sozinho. “Mahane Yehuda é o lugar do Likud, mas há dois dias fizemos um inquérito e se a votação fosse aqui Bibi tinha 30 lugares e Lieberman 19.”

Estancar as perdas
Estará Bibi a perder o coração do Likud? Não, crê Yossi Verter, analista político do diário “Ha’aretz”. “Netanyahu sempre foi um líder popular no Likud, e continua a ter o núcleo duro dos votantes.” Mas não há dúvida de que tem perdido para a extrema-direita, e esse será o maior desafio dos próximos dias: “Se caírem rockets em Israel, isso ajuda tanto Netanyahu como Lieberman. Netanyahu tem que conseguir parar o processo de perder votos para Lieberman.”

É cedo para dar Bibi como vencedor? “As coisas estão a mudar constantemente, e muita gente decide na última semana”, diz Verter. “Não creio que Bibi perca, mas se perder mais votos pode não conseguir formar um governo estável. Precisa de 30 a 32 lugares para isso.”

As sondagens dão-lhe 28. Estratégia até terça-feira? “Convencer os eleitores de que se votarem pela extrema-direita podem não o ter a ele como primeiro-ministro. Tem que dizer: se me querem, não votem por quem diz que se vai aliar comigo, porque me podem perder.”

Antes desta ascensão de Lieberman, Netanyahu tinha consolidado uma subida do Likud nas sondagens. Em dois anos, mais que duplicou.

E no mercado de Mahane Yehuda, pode contar com a campanha fiel de Avraham. É que este fruteiro não tem apenas duas fotografias de Menahem Begin. Também tem uma de Bibi Netanyahu, embora mais pequena.

Neste momento discute energicamente com um casal, Rodni e Anzi. Os israelitas adoram discutir, e põem toda uma veemência física nisso. Durante uns bons minutos o que um não falante de hebraico entende é Sharon!, Tipzi! Bibi! Bibi!, com muita garganta e braços.

Rodni ainda não sabe se vai votar Kadima (Tipzi Livni) ou Meretz (centro-esquerda), Anzi vai votar Hadash (o partido árabe-judeu do comunista Dov Hanin) e é por isso que discutem com o fruteiro Avraham. E enquanto um discute o outro vai traduzindo para inglês.

“Bibi vai ser melhor primeiro-ministro!”, clama Avraham. “Quando Rabin foi primeiro-ministro a primeira vez, foi mau. Da segunda vez foi excelente. Vai ser assim com Bibi!”

O fruteiro em frente junta-se à discussão, para apoiar Avraham. “Saímos de Gaza sem nenhum acordo, e agora querem que saiamos de Jerusalém? O próximo governo vai ser Bibi, Lieberman e Shas!” Shas é o partido religioso sefardita, que está em quinto, atrás dos trabalhistas.

Quando a repórter tenta abordar este nova voz pró-Bibi em inglês, ele responde “No. No.” E depois em hebraico: “Pergunte à Livni, ela fala inglês. Aqui, é só a direita, só a direita. Bibi é que nos vai livrar de Obama e dos árabes.”

Feb 3, 2009

Mercado de Mahane Yehuda, Jerusalém



Avigdor Lieberman, o moldavo que emigrou para Israel há 30 anos e quer retirar a cidadania aos árabes israelitas se eles não fizeram uma declaração de lealdade ao Estado de Israel. Está em terceiro lugar nas sondagens para as eleições da próxima terça-feira, à frente dos trabalhistas. E no mercado de Mahane Yehuda, em Jerusalém, tradicional bastião da direita Likud, já rouba votos, como o de Moshe, o dono desta loja, que tem na parede uma foto do pai com Menahem Begin e espalhou cartazes de Lieberman à volta.




Não muito longe, no mercado, o fruteiro Avraham, que também tem uma fotografia de Begin, continua fiel a Bibi Netanyahu

Tom Segev: A ascensão da extrema-direita em Israel é alarmante

Tom Segev


Entrevista


Alexandra Lucas Coelho, em Jerusalém

Tom Segev, 64 anos, é um dos mais relevantes e traduzidos historiadores israelitas. Publicou “One Palestine Complete”, “The Seventh Million”, “Elvis in Jerusalem” e “1967”. Acabou de escrever uma biografia de Simon Wiesenthal, o “caçador” de nazis. Esta entrevista foi feita na sua casa de Jerusalém, cheia de livros e com uma velha primeira página de jornal emoldurada. É do dia em que o Estado de Israel foi declarado.

Entre os israelitas, esta guerra parece ter sido a mais popular em anos. É verdade?
Foi definitivamente mais popular que a anterior do Líbano, que não correu bem.

Há quem fale em euforia.
Não foi euforia, mas as pessoas dizem que algo tinha que ser feito contra o Hamas. Temos esta tradição de acreditar que determinamos a política palestiniana bombardeando o Hamas, ou quem não gostamos. E convencemo-nos de que é só uma organização terrorista. Mas é também um movimento político e religioso genuíno.

A tentativa de ditar aos palestinianos os seus líderes não resulta. Estão a disparar rockets até hoje.

O que é que a satisfação quanto à guerra revela sobre o estado da sociedade israelita?
Primeiro, nenhum país pode viver com rockets nas suas cidades. Netanyahu continua a dizer às televisões do mundo, consoante de onde vêem: “Imagine que isto acontecia em Lisboa...”

Com a diferença de que Lisboa não ocupa Espanha.
Mas é verdade que não é possível viver com rockets, sobretudo antes de eleições. Portanto, por várias razões, a sociedade israelita moveu-se para a direita – para a extrema-direita.

Agora temos um partido de extrema-direita muito forte [Yisrael Beytenu, dirigido por Avigdor Lieberman, em terceiro nas sondagens, à frente dos trabalhistas]. É o nosso Haider. O ódio racista agora é legítimo, ele está a legitimá-lo. E não é dirigido contra os palestinianos nos territórios, pior, é dirigido contra palestinianos que são cidadãos israelitas. É xenófobo, é racista. Este é o tipo de partido por causa do qual Israel chamou o seu embaixador na Áustria, quando Haider teve 25 por cento dos votos.

Porque é que é forte? Porque há um sentimento de desespero quanto à paz. A maior parte dos israelitas já não acredita na paz. Dêem-lhes paz, eles ficarão felizes, mas já não acreditam nisso.
Isto é fúria, mas também há um elemento de vingança.

Tendo em conta que não há hipótese de paz, que os palestinianos continuam a disparar rockets, que os governos anteriores falharam, primeiro com a guerra no Líbano, depois com toda a corrupção de Olmert – e este corrupto Olmert, que toda a gente odeia, vem com estranhas declarações sobre como devíamos devolver os territórios –, as pessoas moveram-se para o outro lado. Acho que é natural.

E não nos devemos enganar. Não são só pessoas vindas da Rússia. São também israelitas nascidos aqui. Portanto, ele [Lieberman] está a trazer ao de cima o pior que temos.

Geralmente diz-se que não há nenhuma sociedade democrática sem cerca de cinco por cento de fascistas. Mas este partido é muito mais forte. Acho isso alarmante.

O psiquiatra palestiniano Eyad Sarraj diz que a sociedade israelita está doente.
Não é como se o Hamas fosse um movimento liberal, democrático, aberto... O melhor que se pode dizer é que temos duas sociedades doentes, aqui. O Hamas é apoiado por uma maioria de pessoas em Gaza – porque é que apoiam uma organização tão horrível? Para mim, qualquer sociedade que se desloque em números maciços para a extrema-direita está de alguma forma doente. O fascismo é uma espécie de doença.

O desespero quanto à paz, o sentimento de que a política não serve para nada, e a continuação do terrorismo palestiniano – tudo isto levou a Lieberman.

A guerra em Gaza fortaleceu Lieberman?
Absolutamente. E é também um resultado de Lieberman, porque este é o tipo de pessoas que pressiona o governo, e com a eleição era inevitável que a guerra acontecesse.

Começou quando começou por causa dos rockets, das eleições, de serem os últimos dias de Bush, de ser época de festas, e de os céus estarem azuis, tornando fácil os aviões voarem. Era inevitável.

Não nos levou a lado algum. Não há um cessar-fogo que não pudéssemos ter alcançado antes. E a coisa alarmante é o pouco que os israelitas se estão a importar com a destruição de Gaza.
Isto, claro, tem a ver com o facto de não termos visto muito, mas também de não termos querido ver mais. Se os media realmente quisessem teriam feito um esforço para mostrar a destruição.

Há uma investigação agora sobre se Israel cometeu crimes de guerra. A primeira tendência israelita é desconfiar deste debate.
Os media não deram muita informação. As pessoas, naturalmente, já não querem saber, e como não sabem é mais fácil justificarem os acontecimentos.

As organizações internacionais são geralmente vistas com desconfiança nos países que cometem crimes de guerra. E é por isso que são importantes. Mas a maior parte dos israelitas tende a pensar que agimos em auto-defesa e tem vontade de acreditar que os palestinianos puseram rockets naquelas escolas e casas que foram destruídas.

Os israelitas têm muita vontade de acreditar que não violamos os direitos humanos. Não entendem que isso, claro, é uma ficção. A ascensão de Lieberman mostra que até a ficção é mais fraca hoje. Houve um tempo em que dizíamos para nós próprios: somos melhores que os outros. As pessoas que votam por Lieberman agora odeiam abertamente. São pessoas zangadas.

Gideon Levi [um dos poucos jornalistas israelitas que cobre a Cisjordânia] escreveu sobre o silêncio dos juristas em Israel quanto ao debate dos crimes de guerra.
Dos juristas, dos médicos. Até o Meretz [partido de centro-esquerda] apoiou a guerra por um dia ou dois.

Se quisermos ser justos, temos que nos lembrar que algo tem que ser feito quanto aos rockets. Provavelmente, esta foi a forma errada. A forma certa seria negociar com o Hamas. Não são pessoas agradáveis, mas são as que temos.

Tenho idade para me lembrar que há 30 anos as pessoas iam para a cadeia por falar com a OLP, porque era uma organização terrorista.

E mesmo que se avance para uma acção militar, não se pode magor civis. Não se podem bombardear cidades. Isso nunca está certo. Na II Guerra Mundial, em Hiroxima, em Hanói, em Beirute, em Sderot ou em Gaza.

Mas a maior parte dos israelitas apoiou. O apoio só começou a estalar quando emergiu a história muito dramática do médico palestiniano [que perdeu as filhas num bombardeamento e apelou em directo na televisão israelita]. Toda a vida ele trabalhou em Israel, toda a sua vida é sobre cooperação, e foi na televisão. Calculo que houvesse 200 histórias igualmente dramáticas, mas esta foi ao vivo. E foi quando as pessoas começaram a dizer: ok, talvez seja suficiente.

Isso leva a outra questão, o que os israelitas não sabem da ocupação, a noção de que há meio milhão de colonos.
Os israelitas não podem ir lá, os jornalistas geralmente não vão lá. Não sabem nada da Cisjordânia. É como se estivesse sob controle.

Porque está quieta.
E o terrorismo quase desapareceu.

Escreveu que provavelmente foi o maior erro da história israelita, quando Moshe Dayan e Menahem Begin quiseram reservar a Cisjordânia para os colonos. Hoje vê-se o resultado. A sua opinião é que será difícil traçar fronteiras razováveis e conseguir a paz.
Muito difícil, absolutamente.

Quando deixou de acreditar na paz?
Provavelmente antes da guerra no Líbano. Não sei bem. Para muitos israelitas foi o desapontamento de Oslo. E depois, a administração Bush deixou-nos fazer o que quiséssemos e vendeu a toda a gente a estúpida ficção do processo de paz, que no fim do ano haveria paz.
Paz como entre Portugal e Espanha é impossível. Há muitos lugares do mundo que gerem as crises de uma forma que torna a vida melhor. Israel tem muito a oferecer aos palestinianos em Gaza. Podemos abrir Gaza à Cisjordânia, o Egipto pode abrir Gaza.

O Hamas diz que está disposto a estabelecer um estado sem atacar Israel, mas não pode reconhecer Israel.
É uma espécie de gestão. Se pudéssemos lá chegar seria um acordo – eu olho todo o país como meu, tu olhas todo o país como teu, vamos esperar 100 anos e ver onde estamos. Acho que podemos alcançar isso. Paz é uma grande palavra. Para que precisamos de uma cerimónia em frente à Casa Branca?

Mesmo desmantelarmos colonatos na Cisjordânia não leva necessariamente à paz. Temos que fazer isso sem paz. Temos que os tirar de lá.

300 mil pessoas em colonatos que por vezes são cidades?
Ninguém fala em 300 mil, mas em 60 mil – os palestinianos falam em mais. Na verdade estamos a aumentar os colonatos todo o tempo. E quanto mais colonos, mais difícil. Do ponto de vista de Israel – ideológico, sionista –, é a coisa errada. É realmente irracional.

Porque é que continuam a aumentar?
Porque este é um país louco. Pensamos que as pessoas agem racionalmente, mas não. Não tenho uma explicação. É a coisa mais auto-destrutiva que não temos sensatez para ver.

Será o fim do sonho sionista?
Para mim, o sionismo é uma experiência que ainda não foi bem sucedida e ainda não falhou. Ainda estamos a experimentá-lo. Não posso assegurar que Israel como estado judaico tem um futuro. Não sei o que vai acontecer.

É um tabu?
Não, mas a maioria dos israelitas não concorda, portanto é irrelevante. Na América, entre intelectuais, toda a gente está a discutir um estado binacional, a velha ideia. Mas os árabes não querem viver connosco.

Como sabe?
Porque as pessoas querem ter o seu próprio estado.

O Hamas diz que não tem problema em viver com judeus.
Não nos tratariam melhor do que tratam a gente da Fatah. Se vamos ter um estado comum para judeus e árabes, isso só pode acontecer depois dos palestinianos terem o seu próprio estado. Não podemos querer que eles desistam de uma coisa que ainda não têm. Deixá-los ter o seu estado, definir a sua identidade, construir as suas instituições, fazer os seus erros. Porque quereriam viver com os judeus?

E entre os judeus não encontrará nem uma pequena minoria que queira isso.

Feb 2, 2009

A Cisjordânia quieta


Uma palestiniana (e o filho) discute com soldados israelitas junto a Jenin
(Saif Dahlah/AFP)


Não se vêem armas nem protestos, entre checkpoints e mais colonatos. Viagem de Jenin a Hebron, em transportes colectivos
Reportagem

Alexandra Lucas Coelho, na Cisjordânia

1. Jenin
Coração cansado

Pela Cisjordânia - o maior território ocupado - viajam, em geral, palestinianos, estrangeiros, e dois tipos de israelitas: soldados e colonos.

Os palestinianos têm um sistema de mini-autocarros (brancos) e carrinhas (amarelas), que partem quando estão cheios. Por causa das barreiras israelitas, de Jerusalém a Jenin é preciso apanhar dois transportes. Um mini-autocarro até Ramallah, e a partir daí uma carrinha. Ao todo, são 110 quilómetros e três checkpoints. No sábado, dia sem trânsito, o PÚBLICO demorou duas horas e meia.

Depois das colinas de Ramallah, pujantes de construção, a paisagem segue ondulante, coberta de pedras e oliveiras. Mas logo aparecem setas para os colonatos (Eli, Ariel, Ma'ale Efrayim...), e lá em cima os telhados cercados por arame farpado.

Bem iluminada, com várias faixas, bombas de gasolina e paragens de autocarro, esta é a estrada feita para os colonos. Na Cisjordânia, são já 285.800 (somados aos de Jerusalém Leste, rondam meio milhão, com infra-estruturas e autênticas cidades).

Isto afecta todo o território, e, dentro dele, Ismail Al Khatib.

Este nome correu mundo em 2005. O seu filho Ahmed brincava com uma arma de plástico quando um soldado israelita o matou, julgando que a arma era verdadeira. Ismail doou os órgãos a quatro crianças israelitas. Foi feito um filme (Heart of Jenin) que ganhou prémios e comoveu israelitas.

E aqui está esse pai, entre as ruelas do campo de refugiados de Jenin, no rudimentar centro de actividades infantis entretanto fundado por italianos. Aos 43 anos, parece fatigado, e fuma incessantemente.

"Israel deu-lhe cinco horas para ir a Jerusalém ver o filme", diz o amigo Fakhri, que tem sido o seu tradutor.

Durante a guerra em Gaza, a Cisjordânia não explodiu em protestos. Fahkri acha que as pessoas estão cansadas. "Fizemos milhares de manifestações, não há energia para mais. E as pessoas da Fatah acham que parte da responsabilidade é do Hamas." Em Jenin, diz, "centenas" manifestaram-se "quatro ou cinco vezes".

E Ismail, exemplo de perdão, como olha para Gaza?

Antes de traduzir, Fahkri conta: "Depois de doar os órgãos, Ismail recebeu um telefonema de Ehud Olmert [hoje, primeiro-ministro]. Ele prometeu-lhe que Ahmed seria a última criança morta neste conflito. Quando a guerra começou em Gaza, centenas de crianças foram mortas. Ismail desligou o telefonou e deixou de falar até com os amigos."

Ismail escuta e fuma. Depois diz: "Foram dias difíceis. Ver as pessoas a pegar nas crianças trouxe-me a imagem de Ahmed."

A guerra, crê, "foi para enfraquecer os palestinianos e fazer fortes os israelitas antes de uma eleição". Quanto à divisão dos palestinianos, resolvia-se "retirando os colonatos e acabando com a ocupação". Isso faria as pessoas acreditar nas negociações e confiar no presidente Abbas e na Autoridade Palestiniana (AP). "Eu confio, acho que são eles que nos podem representar."

"Aqui as pessoas não apoiam o Hamas", reforça Fahkri. "Podemos sentir isso. Muita gente votou Hamas só para punir a Fatah." E no último ano e meio, a AP agiu. "Tem sido suficientemente forte para impedir armas nas ruas." Quer dizer que acabou a resistência? "Não", responde Fakhri. "Nós somos a resistência. Mas a resistência armada está acabada."

2. Nablus
A montanha não deita fogo
De Jenin a Nablus são 45 minutos. Transporte directo, amendoeiras em flor, um checkpoint.
O centro fervilha de trânsito e gente no mercado. À volta, montanhas cheias de prédios. Aqui vivem 100 mil pessoas e estudam 20 mil universitários.

An Najah é a maior universidade da Cisjordânia, e um dos seus vice-presidentes é o químico Maher Natsheh, que agora atravessa a bela Cidade Velha, entre galinhas cacarejantes, tâmaras de todas as espécies e fatos de treino provavelmente chineses.

"Centenas, algumas vezes", foram os manifestantes contra a guerra, aqui. E porquê? "Porque não há esperança em relação a nada." E depois: "Estamos solidárias com as mulheres e as crianças em Gaza, mas não apoiamos o Hamas. Ao acabar a trégua, deu a desculpa. Há muito que tinha Gaza sob cerco, para levar o Hamas àquilo."

Que é feito dos militantes que fizeram de Nablus a Jabal Nar a Montanha de Fogo? Aqueles que combateram os israelitas nestas ruas? "A maior parte está nas prisões israelitas. Quase a cada noite há incursões e prendem activistas."

Depois, confirma, "uma coisa que as pessoas agradecem à AP é ter posto ordem nas cidades". Mas há críticas a Abbas: "Não removeu um só checkpoint. Deu tudo aos israelitas e eles expandiram os colonatos". Todas as entradas em Nablus continuam a ter checkpoints - que separam os palestinianos uns dos outros, e não Israel dos territórios - e "especialmente os rapazes" levam horas a passar. "Mas todos rezamos para que Hamas e Fatah se unam. A estratégia israelita era dividir-nos, e as pessoas lá fora começam a não nos respeitar."

No checkpoint da saída para Jerusalém, dezenas de rapazes. Na fila dos carros está uma ambulância.

3. Belém
Política, não
Sem checkpoints nem muro, Belém seria a um quarto de hora de Jerusalém, mas o PÚBLICO levou uma hora.

É domingo, choveu, e agora a praça da Basílica da Natividade brilha ao sol. Aqui, diz a tradição cristã, nasceu Jesus. A esta hora, na nave principal, rezam os gregos ortodoxos, na gruta do nascimento já rezaram os arménios, e ao lado celebra-se a missa católica.

Nicola, 20 anos, estudante de Direito, é um dos ortodoxos que não celebraram o Natal por causa de Gaza. "Quando víamos as notícias, chorávamos", conta no átrio, que cheira a incenso e a cera. "E também não celebrámos o Ano Novo. À noite, fomos descalços à chuva até ao checkpoint e rezámos ali por Gaza." Quantas pessoas? "Umas 40 ou 50, porque estava muito frio." De resto, em Belém houve "pequenas manifestações".

Nicola, que não é da Fatah, não simpatiza com o Hamas e acha que "eles lutam de forma errada". Mas diz que "a luta contra Israel é um direito dos palestinianos" e reza pela união. "Somos um só povo, o mesmo sofrimento."

No entanto, antes e depois de Nicola, sucedem-se recusas à menção de Gaza. Ninguém quer falar "de política". O património de Belém é esta Igreja. À volta há dormidas, comidas e souvenirs. Os problemas afastam o turismo.

É o que dirá, enfim, o católico Johnny, 30 anos, ao balcão de uma loja deserta. "Houve muito turismo cancelado por causa de Gaza. É isso que preocupa as pessoas, é isso que ouço." Nem Fatah, nem Hamas, Johnny teve "pena das crianças de Gaza", e mais não diz.

4. Hebron
Sempre os colonos
De Belém a Hebron são 40 minutos. Sendo a maior cidade da Cisjordânia, é a mais tensa. Judeus e muçulmanos crêem que aqui está o Túmulo dos Profetas, onde Abraão foi sepultado. Junto ao sítio sagrado vivem centenas de colonos guardados por milhares de soldados, e o coração de Hebron tem sido palco de mortes violentas. A última em Dezembro, quando um colono matou mais um palestiniano.

Descendo a rua do mercado, cada vez há menos gente. Cerca de 850 lojas foram forçadas a fechar e outras não têm coragem de abrir. O lugar é desolado, patrulhado por soldados com metralhadoras, e da praça da mesquita de Ibrahim (Abraão) avistam-se os jovens colonos, a rondarem as quatro lojas que restam abertas.

"Posso abrir porque vivo aqui", explica Mohammed Khaled, 40 anos. A sua oficina de cerâmica foi fundada pelo pai em 1964 e cá continua, com dois homens a pintarem e um terceiro a moldar o barro. No forno, cozem potes. Vidro e cerâmica são artes de Hebron.

Todos os dias Mohammed tem que passar pelos soldados, tirar a roupa, o cinto, e tem fresca a morte em Dezembro. Então, quando se fala em Gaza, diz: "Destruíram tudo para quê? O Hamas, o Hamas, o Hamas! O Hamas não tem um exército!". E isto para dizer que o problema é a ocupação. "Eu era da Fatah, mas agora não. Abbas foi a Washington, a Oslo, e o que conseguiu? As ruas estão fechadas, não há autorização para ir a Jerusalém, e há mais colonos."

Em Hebron, o Hamas ganhou nove deputados em nove. E essa força pode ter diminuído mas continua, assegura Walid Alhalaweh, o engenheiro informático que lidera a reabilitação da Cidade Velha. "A maioria está com o Hamas. O apoio diminuíra e com a guerra aumentou." Não é ideológico. "Havia corrupção na Fatah." Esse apoio viu-se numa manifestação antiguerra "com milhares". De resto, Hebron manteve-se quieta. "Também há gente do Hamas presa, como o Hamas prende em Gaza."

Andando um quilómetro, é possível apanhar uma carrinha para Jerusalém que demora 50 minutos. Só palestinianos com identidade de Jerusalém ou estrangeiros podem ir nela. Isso exclui toda a Cisjordânia.
(publicado a 2 de Fevereiro na edição impressa do Público)

Feb 1, 2009

“Aceitaremos um estado ao lado de Israel sem o atacar, mas nunca reconheceremos a sua existência”


Yahya Al Abadsa
(Alexandra Lucas Coelho)

Abbas é um traidor. Os regimes árabes são ditaduras corruptas. A resistência só acaba se a ocupação acabar. Israel não tem futuro como Estado judaico. É o que pensa o Hamas, nas palavras de um líder.
Entrevista

Alexandra Lucas Coelho, em Gaza

Os mais conhecidos nomes do Hamas em Gaza estão na sombra desde a guerra. Um dos líderes que fala é o deputado Yahya Al Abadsa.

Esteve preso cinco anos nas cadeias israelitas, doutorou-se em Educação e deu aulas na Universidade Islâmica até ser eleito para o parlamento. Aos 51 anos, pai de sete filhos, mora num modesto apartamento em Khan Yunis, Sul de Gaza, onde os pais se refugiaram quando Israel foi criado.

Quinta-feira à tarde não havia bandeiras verde do Hamas na rua, mas viam-se duas bandeiras vermelhas da PFLP. Como faltava a electricidade, era preciso subir às escuras uns degraus toscos de cimento. Lá em cima, na sala de visitas, o habitual mapa da Palestina antes da declaração de Israel.

Dois dos filhos, um adolescente e uma menina, seguiram em silêncio a entrevista. A jornalista não estava de cabeça coberta. Al Abadsa manteve-se sempre cortês.

Gaza ainda está em cessar-fogo?
Não há cessar-fogo verdadeiro. O cessar-fogo é de acordo com o ponto de vista israelita, o que lhes dá o direito de agir contra os palestinianos quando querem. Cessar-fogo tem que ter dois significados. Primeiro, parar o fogo e depois parar o cerco, que é um crime. Desde que o cessar-fogo foi declarado, os israelitas mataram três palestinianos e feriram outros mesmo antes de algum fogo os ter atingido. Isto leva a que não haja compromisso de cessar-fogo por parte da resistência a não ser que Israel esteja comprometido.

Foram lançados dois “rockets” contra Israel.
Sei pelos media que eram das Brigadas Al Aqsa [ligadas à Fatah].

O Hamas não tem nada a ver com eles?
Se o Hamas lança “rockets”, assume.

Qual é o objectivo dos “rockets”?
Estamos sob ocupação e isso dá-nos o direito de nos defendermos e lutarmos pelos nossos direitos. A nossa liderança na OLP decidiu parar a violência de forma a conseguir a paz, e durante 16 anos foi um falhanço, portanto, diga-me: o que fazer?
Israel joga com o tempo para conseguir os seus objectivos, que é criar um Estado judaico em toda a Palestina e expulsar os palestinianos.

Há pessoas em Gaza que perguntam para que serviram os “rockets”. Se o fim é combater a ocupação, que ganharam com eles?
A questão é ilógica. Se paz significa que os ocupantes não nos dêem os nossos direitos, é uma perda de tempo. E se assim fosse nenhum povo ocupado poderia lutar pela liberdade. Por exemplo, a Argélia, nos dias da luta com a França, perdeu num dia 45 mil mártires.

Gente aqui em Gaza perguntou a chorar se valeu a pena perder 1300 vidas, ter 5500 feridos, 20 mil casas destruídas.
Lembro-lhe que os vietnamitas perderam três milhões de combatentes contra 20 mil soldados americanos. Os argelinos perderam entre 1,5 e dois milhões contra 20 mil soldados franceses.
O problema não são os rockets. Qualquer forma de resistência à ocupação seria retaliada da forma que eles fizeram.

Acha que a perda de vidas foi um preço que os palestinianos tiveram de pagar?
Sem dúvida. Qualquer povo que queira viver com dignidade tem que pagar um preço, e isso é legítimo.

Mas as pessoas podem questionar a estratégia do Hamas, podem pensar que os israelitas usaram o álibi dos rockets para a guerra. Esta estratégia foi boa?
O verdadeiro álibi de Israel para atacar é a nossa presença nesta terra. Como explica o que se passa na Cisjordânia? Não há rockets na Cisjordânia, não há resistência, até há rendição da parte da Autoridade Palestiniana. Então porque é que Israel mata palestinianos lá? Durante os últimos seis meses mais de 50 mártires morreram na Cisjordânia.

É preciso uma saída. Qual é o próximo passo? Um governo de unidade?
Se a ocupação acabar teremos a nossa liberdade. Se a ocupação não acabar, nada mudará.

Desde Junho de 2007 os palestinianos têm dois governos, na Cisjordânia e em Gaza. O que pode fazer o Hamas para os unir?
Lembro-lhe que quando a Alemanha invadiu a França, nomeou o general Pétain como líder da França. Os franceses aceitaram esse governo alemão ou lutaram contra ele e recuperaram a sua liberdade?

Compara o Hamas com a resistência em França na II Guerra Mundial?
Sim.

Mas as pessoas na Cisjordânia estão a aceitar o governo de Ramallah.
Não é verdade. Aquilo não é uma democracia. Salam Fayyad, o primeiro-ministro, tem apenas um lugar no parlamento, enquanto que o Hamas tem 78. Dois terços do parlamento são nossos. Então quem tem o direito de formar governo de acordo com as regras democráticas?

É uma prioridade do Hamas criar uma união com a Autoridade Palestiniana ou não?
A nossa prioridade é aliviar os palestinianos, dar-lhes o que necessitam, quebrar este bloqueio, abrir as fronteiras.

E a unidade?
Os palestinianos estão unidos no terreno. O governo de Ramallah representa Israel, EUA e o Quarteto.

Que pensa do presidente Abbas?
Já não é um presidente, é um traidor. Deve ser levado a tribunal por trair e colaborar contra os palestinianos. É responsável pela divisão e por pôr a resistência na cadeia.

Como vê o comportamento dos países árabes nesta guerra, a começar pelo Egipto, que manteve a fronteira fechada?
É lamentável, um grande desgosto para nós. Prova que há árabes que são parte deste processo contra os palestinianos.

Isso não faz o Hamas sentir-se isolado?
É muito doloroso, mas retiramos a nossa força de quem nos elegeu e escolheu a resistência. Não nos sentimos isolados porque todas as comunidades árabes e livres do mundo estão connosco. E estes regimes árabes são ditadores não escolhidos pelo povo, instrumentos da administração americana.

Há algum governo árabe ou islâmico para o qual o Hamas se possa virar?
É verdade que nem todos são iguais. O pior é a posição do Egipto.

Quem vos ajuda?
Síria e Qatar já deram ajuda e apoio.

Recebem ajuda do Irão?
O Irão é um país chave no Médio Oriente, e tem uma posição clara de apoio à causa palestiniana. Apoiam vários projectos, famílias de mártires e organizações de caridade.

Quais foram os principais contribuidores da ajuda que o Hamas deu às pessoas depois da guerra?
Recebemos apoios e doações de todo o mundo árabe, islâmico e de todo o mundo livre.

Quanto receberam para distribuir?
Não posso responder, por razões de segurança.

Quanto vão dar a cada família?
O governo declarou que há 52 milhões de euros para distribuir. 4000 euros para cada família que perdeu a casa, 2000 para quem teve familiares mortos, 500 para feridos. Isto, como ajuda de emergência.

Se os mediadores internacionais pedirem ao Hamas para reconhecer a existência de Israel, ou seja para aceitar as fronteiras de 1967, o Hamas estaria disposto a fazê-lo?
Todas as terras da Palestina são nossas. Mas, apesar disso, aceitámos estabelecer o nosso estado nas fronteiras de 1967. Podemos aceitar uma solução temporária de dois estados, mas sempre consideraremos o resto das terras como nossas.

Se os espanhóis viessem e ocupassem a sua terra, e ao fim de algum tempo lhe viessem dizer: damos-lhe 20 por cento e você tem que aceitar que 80 por cento é nosso, aceitava?

Para viver numa paz permanente, o Hamas estaria disposto a reconhecer Israel?
Antes de 1948 havia um Estado chamado Israel? Onde estavam os judeus? O meu pai é mais velho que Israel. Os estados não podem ser construídos à força.

Como palestinianos, temos uma herança. A nossa terra é a terra da paz. O nosso deus significa paz. Criamos as crianças na base do amor. Elas não odeiam pessoas, amam as pessoas, a vida. Mas isso não significa que eu lhes ensine a desistir da sua terra.

Sou um refugiado aqui. A minha aldeia, de que o meu pai foi expulso, ainda existe ao pé de Ashkelon. Não é justo que a paz venha à custa dos meus direitos. Desde 1948 até agora tivemos cinco guerras, dezenas de milhares de palestinianos foram mortos. Seria aceitável, justo, depois desta longa marcha, aceitarmos paz à nossa custa? Será justo que os judeus expulsos da Europa no Holocausto resolvam o problema à nossa custa?

O problema é simples. Israel tem que sair das terras de 1967 sem condições, a troco de paz. E nenhum atacará o outro.

Mas reconhecer Israel, isso não aceitaremos. Ter relações normais com Israel, não. Asseguramos que não os atacaremos, e eles em troca têm que garantir que não nos atacam.

Há países que lidam uns com os outros e não se reconhecem.

É injusto a comunidade internacional pedir-nos isso.

É impossível reconhecerem Israel por causa dos refugiados que estão fora?
É uma questão básica, de crença. Para além, claro, da questão dos refugiados, que é um pilar.

Portanto, o fim final do Hamas seria uma solução Um Estado.
Digo-lhe honestamente: não há futuro para Israel enquanto estado racista, judaico. Não há futuro para um país assim. O nosso problema é a questão da democracia. Se a democracia prevalecer no mundo árabe, Israel não se aguentará. Israel aguenta-se não por causa da sua força militar, ou poder americano, mas devido à corrupção dos regimes árabes.

Admitiria uma solução Um Estado com judeus e palestinianos, vivendo lado-a-lado?
Não temos qualquer problema com a solução Um Estado com todas as religiões a viverem juntas. O problema é dos judeus, não nosso.

Mas o fim do Hamas não é formar um estado islâmico?
Absolutamente não. Não está na nossa agenda. Queremos um estado democrático, onde as pessoas possam viver livremente, com liberdade de religião, em que a lei prevaleça. Um estado pacífico, respeitador das escolhas das pessoas.

Nós não receamos o futuro. Acreditamos no futuro. Quem receia o futuro é Israel. O que aconteceu em Gaza é o trabalho de cobardes, daqueles que têm medo, não dos que são fortes.

Que espera de Obama?
É bom para a América e não tem qualquer significado para nós. Quem governa a América é um grupo de instituições. Não é uma questão de gostar dele ou não. Vamos olhar para o trabalho dele, mas não temos grande coisa a esperar.

Uma das primeiras decisões de Obama foi ter um enviado no Médio Oriente.
São relações públicas, sobretudo. O que a América está a fazer é anestesiar a região para Israel cumprir os seus objectivos. A América está a dar tempo a Israel. É um parceiro no que se está a passar. A América é responsável por 43 vetos na ONU. O crime que aconteceu em Gaza foi cometido por um braço americano. Israel não se atreve a fazer nada sem a luz verde da América.
O Hamas tem presos políticos em Gaza?
Não temos um único, da Fatah ou de outras facções. Temos entre 10 a 20 prisioneiros à espera de serem levados a tribunal por explosivos e questões criminosas, não políticas.

O porta-voz da Fatah em Gaza diz que o Hamas tem prisioneiros políticos, que ele próprio foi preso, como muita gente.
Estamos a falar agora, não do passado.

Tinham prisioneiros políticos?
Foi uma medida excepcional, por um período limitado de tempo. Depois dos bombardeamentos em Beach Camp [em Julho de 2008, quando morreram vários membros do Hamas, que responsabilizou facções da Fatah].

Militantes de outras facções, como a PFLP, dizem que não há liberdade, que não podem dizer o que pensam.
Não é verdade. Por exemplo, temos muitos media agora em Gaza e pode ver que nem uma única delegação foi fechada. A imprensa é livre de trabalhar em Gaza.

O Hamas é acusado de alvejar militantes da Fatah nas pernas, e encontrámos gente que foi alvejada.
Não é verdade. É propaganda da Fatah contra o Hamas.

Durante a guerra, e depois, seguimos traidores que deram informações à imprensa israelita e essas informações ajudaram Israel na guerra.

Houve gente apanhada a vigiar a resistência e ficou provado que deram informações a Israel.

Essas pessoas foram presas e estamos a lidar com elas agora. Algumas podem ser da Fatah, mas não quer dizer que estejamos contra a Fatah. Estamos contra os traidores em geral.

Portanto, Fatah, PFLP, Jihad Islâmica podem expressar-se livremente em Gaza?
Todas as facções da resistência trabalham livremente. Mas aqueles que trabalham com ordens de Ramallah não são livres.

O que quer dizer?
A prática de Ramallah é trazer caos para a sociedade de Gaza, e isso é algo que não podemos permitir, porque quebra a unidade interna. Não pagar às pessoas o seu salário, e muitos outros actos feitos por Ramallah para dividir e trazer o caos.

(publicado em 1 de Fevereiro na edição impressa do Público)

Jan 30, 2009

Os marginais do reino Hamas


Olivier Laban-Mattei/AFP

Repressão, interrogatórios, espancamentos, tiros. É o que contam do Hamas os militantes que não são do Hamas. Histórias de um território degradado pela ocupação israelita e pela guerra. Jihad, socialista filho de socialista, tem um apelo: “Pedimos à comunidade internacional que nos ajude a sair deste dilema.”

Reportagem

Alexandra Lucas Coelho, em Gaza

Gaza tem uma cor nos céus: verde-Hamas. Nos candeeiros, nos postes, nas casas, essa é a bandeira, ao longo das estradas e no meio da cidade. De vez em quando avista-se também a bandeira multicolor palestiniana, e é tudo.

E é um sinal do que está a acontecer desde que o Hamas tomou o poder, há um ano e meio.
Os militantes de outros partidos contam histórias de repressão violenta. A Fatah de Arafat, que nem há cinco anos tinha a sua bandeira amarela por toda a parte em Gaza, parece ter-se eclipsado. Entrou numa clandestinidade de muitos milhares.

É o caso de Mohammed.

Para chegar a ele é preciso ir com homens da sua confiança através de um labirinto de ruelas, em Jabaliya, no Norte de Gaza.

Jabaliya é um nome mítico para os palestinianos, porque foi aqui que rebentou a Primeira Intifada, em 1987. Dezenas de milhares de pessoas divididas entre Jabaliya-cidade, menos pobre, e Jabaliya-campo-de-refugiados.

Na Jabaliya pobre há um improvisado Café Internet que pertence a Mahmud, 22 anos, um convicto partidário da Fatah. Mahmud conhece a família de Mohammed e oferece-se para levar lá o P2, enquanto não há electricidade. “Tenho que fechar o café sempre que não há electricidade.” O que tem sido a maior parte do tempo, desde a guerra.

“O Hamas diz que é democrático, mas usou força e tortura contra os palestinianos”, vai dizendo Mahmud pelo caminho, entre solavancos de cimento e terra batida. “Um dos meus amigos perdeu as pernas. Alvejaram-no e ele teve de ser amputado, porque era da Fatah, e trabalhava nas forças da segurança presidencial.”

O Hamas ganhou democraticamente as eleições legislativas palestinianas em Janeiro de 2006 – não só em Gaza, em todos os territórios. Formou um governo de unidade nacional, mas a tensão com a Fatah e com a comunidade internacional nunca se resolveu. A própria Fatah estava corroída por tensões entre as facções internas, que se responsabilizavam mutuamente pela humilhação da derrota. Diplomatas e políticos estrangeiros não falavam com o Hamas, listado como organização terrorista. Gaza começou a ficar violenta, com raptos e assassinatos, que o Hamas – mas também a generalidade da população – atribuía a Mohammed Dahlan, o poderoso responsável pelo aparelho de segurança da Fatah. Até que em Junho de 2007 o Hamas tomou o poder em Gaza, depois de confrontos que fizeram mais de 100 mortos. Sem terem um estado, os palestinianos passaram a ter dois governos, um em Ramallah, nomeado pelo presidente Mahmoud Abbas e chefiado por Salam Fayyad, e outro em Gaza, chefiado por Ismail Hanyieh, do Hamas.

“Aqui não há liberdade, não é uma democracia”, continua Mahmud. Que pensa ele dos “rockets” que o Hamas lançou para Israel? “São inúteis.”

Durante a Segunda Intifada, a partir de 2000, Jabaliya era também um forte bastião das Brigadas Al Aqsa, ligadas à Fatah. Em 2002, o Público viu neste campo de refugiados militantes da Fatah equipados com armas, granadas, cintos de explosivos e bombas caseiras. Tudo isso parece desaparecido. “Toda a gente que tinha uma arma teve que a entregar ao Hamas”, diz Mahmud. “Os militantes que eram das brigadas Al Aqsa são vigiados.” E, ruela a ruela, não se vê um único homem armado, o que antes era uma visão comum.

“Eu fui interrogado duas vezes pelo Hamas”, conta Mahmud. “E fui espancado. Bateram-me com paus na estação de polícia de Jabaliya. Era o dia do aniversário da morte de Yasser Arafat e eu estava a vir da manifestação em sua memória quando me prenderam. Só nos queriam humilhar.”
O carro dobra agora uma esquina com um mural em que foi pintada a cara de um rapaz muito jovem. “Ele foi morto na mesma altura em que me prenderam.”

E, de repente, desembocando numa espécie de terreiro entre prédios, uma bandeira amarela da Fatah. Agora é preciso ir a pé, porque os caminhos são estreitos. Areia e pedras. Placas de zinco a proteger os casebres. Aqui é onde Jabaliya é mais pobre.

A vingança
Dois irmãos, ambos estudantes, guiam Mahmud e o P2 até à casa de Mohammed. Cá fora, crianças descalças, lá dentro uma sala cheia de homens sentados, um poster das Brigadas Al Aqsa, um autocolante do presidente Abbas na porta.

A porta fecha-se e volta a abrir-se para deixar entrar um homem numa cadeira de rodas. Eis Mohammed, que não quer o apelido no jornal. É magro, esquálido, de barba negra. Os pés pendem como bocados soltos. “Levei 15 tiros, um na mão, um no peito e 13 nas pernas.” Aconteceu durante os confrontos quando o Hamas tomou o poder? “Não, há seis meses.” Mais exactamente, em Julho de 2008, depois de vários membros do Hamas terem morrido numa explosão que o Hamas atribuiu a sabotagem da Fatah.

“Eu trabalhava para os serviços de informação da Autoridade Palestiniana, não estava nos grupos armados. Era uma sexta-feira e tinha ido rezar à mesquita. Quando voltava, a pé, vi um carro com quatro homens de cara coberta e sinais das Brigadas Al Qassam.” A ala armada do Hamas. “Vieram em direcção a mim, saíram, apontaram-me a arma e disseram-me para entrar no carro.” As ruas estavam desertas, conta Mohammed. “Agarraram-me, vendaram-me e levaram-me para dentro do carro. Bateram-me com o cabo da arma.”

De que o acusavam? “De organizar reuniões ilegais da Fatah, e de ter contactos com Ramallah. Quando chegámos a uma zona ao pé da praia, tiraram-me à força do carro e um deles começou a disparar para as minhas pernas.”

Arregaça as calças para mostrar as pernas reduzidas a pele e osso, cobertas por cicatrizes e manchas. “Deixaram-me a sangrar, e não se foram embora, para ter a certeza de que eu não tinha assistência. Isto durou uns 15 minutos. Depois foram embora. Eu tinha o meu telemóvel, telefonei para uma ambulância. Foi um milagre ser salvo, precisei de tanto sangue. Estive em coma dois meses no Hospital Al Shifa.” O maior de Gaza. “E fui transferido para Israel.”

Ouve-se um bebé aos gritos noutro quarto.

Mohammed acha que o que lhe aconteceu foi uma vingança. “Eles queriam castigar alguém pela explosão que matara gente deles.” Mas além disso acha que Gaza vive em repressão. “Isto é uma ditadura. Não nos podemos mexer, somos acusados de ser traidores por Israel.”

Os “rockets” lançados contra Israel antes e durante a guerra “são uma estratégia do Hamas para não perder a cara”. “É só para os media, para dizerem que existem. Muitos caíram em cima de palestinianos.” E fora do Hamas ninguém tem armas, assegura. “Toda a gente com uma arma pode ser alvejada.”

Que fazer agora? “Tem que ser formado um governo de unidade nacional.” Unidade? Está Mohammed disposto a perdoar ao Hamas? “Perdoaria, a troco de esperança, para outros viverem.”

Bandeira vermelha
Bem para sul, em Khan Yunis, há um conjunto de casas onde de repente se avista, não uma, mas duas bandeiras vermelhas.

É a cor da PFLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina), um movimento marxista fundado por George Habash em Dezembro de 1967, seis meses depois de Israel ter ocupado a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental.

Nascido numa família cristã ortodoxa, Habash – que morreu exactamente há um ano, na Jordânia – foi durante décadas um rival de Yasser Arafat.

Era no tempo em que grande parte da militância palestiniana contra a ocupação israelita era laica e socialista.

O Hamas, então, representava uma minoria.

Hoje, a causa palestiniana não avançou, regrediu territorialmente, e os sinais de devoção islâmica generalizaram-se. É raro ver uma mulher adulta em Gaza com a cabeça descoberta.

Mas nesta rua dos arredores de Khan Yunis uma família mantém-se orgulhosamente laica e socialista, a família de Abu Jihad Shain.

Abu Jihad quer dizar “pai de Jihad”. Depois de serem pais, muitas vezes os palestinianos passam a ser conhecidos como pais do seu filho mais velho. E o filho mais velho de Abu Jihad é este rapaz sorridente chamado Jihad, que aparece com um amigo mal ouve o carro.

Vão logo buscar cadeiras de plástico, e café, com bule e chávenas – a hospitalidade tradicional, no meio da rua, num bairro que ainda na véspera foi bombardeado, depois da morte de um soldado israelita.

Jihad estuda administração na Universidade Al Azhar de Gaza, a rival da Universidade Islâmica, ligada ao Hamas. “Somos uma família socialista, que luta por um estado socialista e contra o isolamento e a segregação”, começa ele. “A PFLP ensinou-nos a estarmos ao lado do nosso povo nas noites mais escuras.”

Que relações têm com o Hamas? “Poucas. O Hamas é unilateral em Gaza, não partilha as decisões. É uma forma de ditadura. Não há liberdade para darmos a nossa opinião, não podemos levantar a voz.”

E isto não se aplica apenas aos militantes de outros partidos, diz Jihad. “Há um estado de medo na comunidade, de receio de falar, porque se é considerado ateu.”

Ser cristão, por exemplo, não é visto de forma estranha, e há uma tradição de comunidades cristãs em Gaza, que têm escolas onde filhos de muçulmanos estudam. Mas ser ateu pode ser mais incompreensível.

Jihad não se define como ateu. “Acredito em Deus, toda a gente aqui acredita em Deus, mas não sou religioso.”

Há dias, Louis Michel, responsável da União Europeia pela ajuda humanitária, insistiu em chamar terrorista ao Hamas, durante a visita que fez a Gaza.

Com isto, Jihad não concorda. “O Hamas não é terrorista porque todas as acções que faz têm a ver com os palestinianos. E uma prova de que não é terrorista é que você está aqui a fazer o seu trabalho.” O problema do Hamas, diz é a repressão das outras facções.

Exemplos? “Em Novembro fomos a funeral de um combatente da PFLP. As brigadas Al Qassam [do Hamas] cercaram-nos e queriam prender gente. Não conseguiram porque a multidão nos rodeou e protegeu.”

Gaza está pior desde que o Hamas tomou o poder?

Amar, o amigo, que também pertence à PFLP e tem estado a ouvir em silêncio, responde antes: “Claro que está pior. Antes os palestinianos não lutavam entre si.” Quem criou a divisão? “O Hamas e a Fatah, ambos. E o que aconteceu levou a muitas mortes, prisões, tortura, de um lado e do outro.” Como se sente Amar? “Sem liberdade. Não posso exprimir a minha opinião. Sou conhecido aqui por falar e vigiam-me. Até as minhas chamadas são ouvidas.”

Jihad tem um apelo a fazer: “Pedimos à comunidade internacional que nos ajude a sair deste dilema. Que organizem uma conferência, que façam um governo de unidade, e que depois haja eleições.”

A culpa da guerra, diz, é de Israel mas também do Hamas. “E é por isso que apelo. Sentimo-nos miseráveis. Centenas de pessoas foram mortas, muitas casas ficarem destruídas, e não vejo que se tenha conseguido alguma coisa com esta guerra.”

(publicado a 30 de Janeiro, na edição impressa do Público)

Viagens com bolso

Crónica

Al Zahra City, 6º andar

Não há correio em Gaza (obrigada a quem quis enviar pilhas e livros). Muitas moradas nem têm endereço. Para chegar a casa de Ayman, por exemplo, é assim: Al Zahra City, prédio da farmácia, 6º andar.

Al Zahra City não é uma cidade. É um conjunto de prédios que foi construído num terreno vazio a sul da Cidade de Gaza. Vazio porque o colonato israelita de Netzarim ficava ali perto, com os seus telhadinhos vermelhos, os seus barbecues e o seu arame farpado.

Quando os colonos saíram, à força e aos gritos, a construção avançou no baldio ao lado e dois anos depois Ayman mudou-se com a mulher, Heba, e as três filhas, Lulu, Mimi e Nunu, para um dos apartamentos no 6º andar por cima da farmácia.

Não é como se tudo já estivesse pronto a habitar, mas em Gaza é difícil as coisas parecerem prontas a habitar.

No prédio da farmácia, as escadas não têm vidros, o que no Inverno faz mesmo diferença, e é preciso subir pelas escadas porque o prédio não tem elevador. Velhos, crianças com mochilas, mães com bebés, toda a gente sobe a pé. E às escuras, sempre que não há electricidade e é de noite.

Durante a guerra foi como se fosse sempre de noite.

Durante 22 dias, Ayman e as meninas dormiram no chão da cozinha, o ponto mais interior. Logo no primeiro dia da guerra, o exército israelita fez explodir um edifício governamental entre os prédios de Al Zahra City e passou a haver um monte fumegante de ruínas a 200 metros da farmácia. Os vidros rebentaram nas janelas e foram encontrados bocados de corpos atrás do prédio de Ayman.

A partir daqui, Al Zahra City fechou-se em casa. Em alguns dias, Ayman e as meninas mal se levantavam do chão. Nunu, que só tem sete anos, escondia a cabeça na barriga do pai. Nenhuma delas gritou.

Um dia houve um “boom” no quarto de Ayman e Heba. Ela foi a correr e viu um buraco do tamanho de um punho ao lado da cabeceira. Ayman encontrou o projéctil no chão e mostrou-mo no dia em que eu cheguei. Achou que tinham tido sorte. Era só calibre 250 mm, quando podia ser calibre 800 mm, daqueles que atravessam várias paredes. Tem o tamanho da minha mão.

O outro “souvenir” de Ayman é mais pequeno, e curvo, como um bico de pássaro. Foi no primeiro dia em que ele teve mesmo de descer à rua, porque já não havia água. Quando desceu os seis andares e atravessou a porta sentiu o sol no corpo, ao fim de tantos dias. Aquilo foi tão forte que ele se sentou por um momento num tijolo à porta, virado para o sol. E foi então que ouviu um zumbido e um tijolo a partir-se. Quando abriu os olhos os vizinhos estavam a dizer que tinha sido um milagre. Apanhou a bala, meteu-a no bolso e levou água para cima.

Na segunda vez em que saiu, foi para sul em busca de comida, com mais três vizinhos para não ser tão assustador. Os palestinianos nunca dizem que têm medo. Ayman diz que tem medo mas posso lembrar-me de duas vezes em que, debaixo de fogo, ele simplesmente baixou a cabeça, mantendo as mãos no volante, e guiou firmemente dali para fora.

No dia em que cheguei a farmácia ainda não estava aberta e continuou fechada, mas já havia electricidade seis horas em cada 24, e na segunda noite voltou a Internet. As meninas prepararam as fardas às risquinhas e as golas de renda para irem à escola. Heba fez compota de laranja e de morango. Há um pequeno pomar em Al Zahra City, e os morangos de Gaza são mesmo bons.

(publicado na edição impressa de hoje do Ípsilon)

Jan 29, 2009

Um míssil entre duas escolas, dois rockets populares

Reportagem

Alexandra Lucas Coelho, em Gaza

O buraco do míssil israelita está no asfalto, numa rua movimentada, frente a um hospital e entre duas escolas, uma à direita, outra à esquerda. Foi por isso que hoje, quando as forças israelitas quiseram matar um militante do Hamas — em retaliação pela morte de um soldado israelita — acabaram por ferir seis crianças, além de um homem.

“Eram umas 11 e meia da manhã”, conta Bassam, de 35 anos, que está na loja em frente ao buraco. O militante do Hamas ia a passar numa mota quando o míssil lhe acertou, ferindo quem estava mais perto. Na rua ainda há restos de sangue.

“As minhas portas caíram e os meus frigoríficos ficaram destruídos”, diz Bassam, mostrando os destroços.

Esta é uma das ruas comerciais do campo de refugiados de Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza. A explosão do lado israelita da fronteira — que na terça-feira matou um soldado e feriu três — aconteceu não muito longe daqui. Israel contra-atacou, alvejando um militante do Hamas, e além dele matou um agricultor. Na madrugada de quarta, bombardeou os túneis de Rafah que vão dar ao Egipto. O míssil nesta rua foi a terceira resposta, depois de Israel ter avisado os habitantes que ia proceder em breve à operação Flor Vermelha.

Entretanto, dois rockets foram lançados para o lado israelita, sem ferir ninguém. Um deles foi atribuído às Brigadas Al Aqsa, ligadas à Fatah, e o outro a um pequeno grupo islâmico. Eram rockets muito artesanais, sem o alcance dos do Hamas. Mas sejam de quem for, estes rockets têm aprovação popular. “É natural, porque vivemos sob ocupação e devemos resistir”, diz Bassam. E em volta, mais vozes. “Queremos mais rockets”, diz um. “Queremos rockets até abrirem as fronteiras de Gaza”, diz outro.

Que conseguiram os rockets, além de terem sido argumento para uma guerra devastadora? “Pelo menos afirmam os nossos direitos, é uma forma de a nossa causa não ser esquecida”, diz Bassam.

Os feridos foram para o Hospital Nasser, que fica do outro lado da rua. Os mais graves estão na cirurgia. Abdelmajid é dos menos graves e por isso está numa camarata sem qualquer aparelho nem pessoal médico, simplesmente deitado em cima de um colchão, com as duas pernas ligadas. Foi ferido por estilhaços. A mãe, de cara completamente tapada, conta que ele vinha da escola quando o míssil caiu.

Atravessando de novo a rua para a escola da esquerda, uma jovem mãe, Hansan, 25 anos, veio buscar a sua filha de oito. Sabe do que aconteceu esta manhã, e também aprova os rockets. “São uma auto-defesa. Apesar de não atingirem os israelitas, concordo com eles.” É apoiante do Hamas? Ela sorri. “Não, mas sou uma apoiante da resistência.”

Chega um pai, de fato ocidental. Chama-se Mussa e tem dez filhos. Só mais a nova ainda está nesta escola. Não é da Fatah nem do Hamas. E também ele defende os rockets. “A nossa vida desde há muito é a guerra. Os israelitas estão decididos a continuar com ela. Nós não temos alternativa senão resistir. [o presidente] Abu Mazen passou anos em negociações e não lhe deram nada. Claro que eu rezo para a paz, é o nosso objectivo, mas não qualquer paz — uma paz justa.”

Fósforo branco

Amostras de fósforo branco na mão do director da Unidade de Queimados do Hospital Al Shifa, Gaza, 26 de Janeiro
(Alexandra Lucas Coelho)


Sabah Abu Halima, na Unidade de Queimados do Hospital Al Shifa, Gaza, a 26 de Janeiro
(Alexandra Lucas Coelho)


Amostras de fósforo branco na mão do director da Unidade de Queimados do Hospital Al Shifa, Gaza, 26 de Janeiro
(Alexandra Lucas Coelho)

Gaza à espera da operação Flor Vermelha

Said Kahtib/AFP


Aviões israelitas lançaram papéis a anunciar nova "operação" em Gaza, por causa do soldado morto. Os habitantes esperam mais bombardeamentos

Reportagem

Alexandra Lucas Coelho, em Gaza

O céu começa a rugir à vista de Rafah. Uma fila de mulheres com crianças sobe uma duna, até um tanque de água da ONU. As mulheres estão de preto, a areia brilha, dourada. Depois, durante umas centenas de metros, ninguém. Dunas, baldios e os F16 lá em cima, sobre o Sul de Gaza.

Entrando na cidade, o barulho dos aviões israelitas desaparece. No mercado há laranjas pequenas e doces - e morangos grandes e doces como já não há na Europa -, mas o movimento é fraco. A fila para o gás está sem homens, só com botijas. Vêem-se carros, mas não engarrafamentos. E à medida que a fronteira com o Egipto se aproxima as ruas vão ficando desertas, até aquele silêncio de quando se espera qualquer coisa.

Eis a fronteira. Um pedaço de muro e montes de terra a formarem uma espécie de trincheira do lado palestiniano. É nesses montes que se escondem os túneis através dos quais Gaza se abastece, para contornar o bloqueio. Na véspera, a aviação israelita bombardeou vários para leste que, segundo os militares, pertenciam ao Hamas e eram usados para trazer armas.

Este raide foi uma das respostas à bomba que de manhã matara um soldado e ferira três, a meio da Faixa de Gaza, do lado israelita da fronteira. Israel disse que um grupo de palestinianos era responsável pelo ataque. Numa primeira retaliação matou um militante do Hamas que conduzia uma mota em Khan Yunis e teria sido o executor. Além do militante matou também um agricultor.

O grupo que terá reivindicado o ataque é desconhecido em Gaza, e ontem, entre a população, havia quem discutisse a hipótese de ser uma bomba antiga - pois como conseguiria o homem da moto chegar ao lado israelita, cheio de soldados em alerta?

"O que as Forças de Defesa de Israel fizeram hoje não foi uma resposta, mas uma acção preliminar", avisou entretanto o primeiro-ministro, Ehud Olmert. "Uma outra resposta a este sério incidente será dada."

E assim, depois dos dois homens mortos em Khan Yunis e dos túneis bombardeados em Rafah, Gaza está à espera do que possa acontecer.

Aviso do céu
Ahmad, 53 anos, sete filhos, e barbas brancas, vive ao pé de um dos túneis bombardeados e teve que fugir de casa. Agora está nesta rua, perto de outros túneis, que é onde tem a sua loja.
"Eram umas duas e tal da manhã", conta, enquanto empilha botijas vazias de gás numa camioneta. "Estávamos a dormir e todos os vidros explodiram. Até chegaram à minha cama! Agarrei na família e fugimos. Fomos para um olival do meu tio, que tem lá sítio para nos abrigarmos."

De manhã, quando tudo lhes pareceu tranquilo, voltaram a casa.

"Mas esta noite esperamos mais, os israelitas já ameaçaram. Eles atiraram papéis do céu."
Mustafá, um rapaz de 17 anos, diz que os papéis avisavam as pessoas para saírem das suas casas. "E para esperarmos em breve a operação Flor Vermelha." Tem algum papel desses? "Não, o Hamas apanhou--os todos, e destruiu-os, para as pessoas não terem medo."

Que pensa o barbudo Ahmad da morte do soldado? "Sou contra todas as formas de violência." Mustafá dá a sua opinião antes que alguém não a peça: "Eu sou a favor desse ataque."
Mais para leste, as últimas casas antes dos túneis bombardeados parecem completamente desertas. Não se vê vivalma. Depois, dobrando uma esquina, um rapaz sentado. Chama-se Sami, tem 18 anos, vive aqui. "Ouvimos a primeira explosão pelas duas da manhã", confirma ele.
"Acordámos e havia gente a fugir das casas."

Ainda mais para leste, uma mulher de casaco preto até aos pés e lenço na cabeça, a andar até à última casa antes da fronteira. "Vivo aqui", diz, sorridente. Chama-se Heba, tem 25 anos, é uma recém-casada. "Estávamos aqui ontem à noite, e pelas duas e um quarto da manhã ouvimos uma bomba de repente. A casa abanou toda. Levantámo-nos, mas a seguir houve mais explosões, e mais fortes. Depois ouvi muita gente a correr e gritos."

O bombardeamento terá durado uns 20 minutos, calcula. "Mas eles vão voltar, claro." Ainda não sabe se abandonam a casa. Gaza é uma terra de refugiados, alguns já deixaram duas casas, toda a gente tem relutância em partir. Que pensa Heba do ataque aos soldados? Volta a sorrir, cortês, hesita. Depois diz: "Sou contra essas provocações, neste momento."

Uma outra mulher aproxima-se. Veio ver dos pais, que moram aqui, mas encontrou a casa vazia. "Fugiram, devem estar com alguém de família, mas ainda não sei quem."

De volta ao centro de Rafah, as ruas vão ganhando vida esquina a esquina, à medida que a fronteira fica para trás. Bandos e bandos de meninos e meninas a virem da escola. Os que andam em escolas do governo têm fardas verdes. Todas as meninas usam fitas brancas nos totós e nas tranças. Estas bermas, cheias de centenas de crianças, são a visão mais viva e alegre de toda a Faixa. Frente ao campo de futebol há uma grande escola da ONU, a esta hora com o bruá de muitos alunos. Quanto ao campo, levou com um míssil.

O agricultor era comunista
Subindo para norte, a zona logo a seguir a Rafah é Khan Yunis. Pelo caminho vêem-se várias fábricas de cimento bombardeadas. Desde que o Hamas tomou o poder, em Junho de 2007, Israel não permite entrada de cimento em Gaza, e agora, durante a guerra, inutilizou as fábricas locais.

Como por toda a Faixa, flutuam bandeiras verdes do Hamas, mas de repente, numas ruas junto à fronteira onde o soldado israelita foi morto, aparecem duas bandeiras vermelhas a esvoaçarem, bem alto. São da PFLP (Frente Popular para a Libertação da Palestina), o movimento marxista fundado em 1967 pelo cristão George Habash, um rival histórico de Arafat. Habash morreu há um ano, na Jordânia, mas ainda aqui tem firmes discípulos.

É o caso de Jihad Shain, 22 anos, militante vermelho e filho de militante vermelho. "O meu pai não está em casa, porque foi ao funeral daquele agricultor morto pelos israelitas, que também era da PFLP." Chamava-se Anwar Zaed. "Estava na sua terra, a tratar dos vegetais. Tinha 29 anos e dois filhos pequenos, com um e dois anos."

Aqui, de sua casa, com os vidros partidos, Jihad ouviu a explosão que matou o soldado e feriu três, um deles gravemente. Isso aconteceu pelas oito da manhã, diz. Cerca de duas horas depois começou o bombardeamento israelita em que morreu o militante do Hamas na mota e o agricultor amigo desta família.

"Eles lançaram papéis a dizer que tínhamos que deixar a nossa área e que iam fazer uma operação chamada 'flor vermelha'." E então, que fazem aqui? Não têm medo? "Claro que temos. Mas não queremos abandonar as casas."

(publicado em 29 de Janeiro na edição impressa do Público)

Jan 28, 2009

Queimados com bombas de fósforo branco


(© Mohammed Abed/AFP)
Pesquisas internacionais provam que Israel atingiu civis com estas bombas. Há casos de outras armas não-convencionais, como DIME

Reportagem

Alexandra Lucas Coelho, em Gaza

Sabah Abu Halima está numa cama da Unidade de Queimados do hospital Al Shifa, o maior de Gaza. É uma mulher de 45 anos, mãe de 10 filhos. Uma cunhada alimenta-a à colher, lentamente. Ela tem o braço direito enfaixado até à mão e queimaduras no pescoço. Mal consegue mexer a cabeça.

"São queimaduras profundas de bombas de fósforo branco", diz o médico Ahmed Mograbi, mantendo-se na ombreira da porta enquanto Sabah come. "Tem 15 por cento do corpo afectado. Transferimos dois feridos mais graves da família dela para o Egipto, uma criança de um ano e uma mulher de 20 com queimaduras muito profundas em metade do corpo, típicas de fósforo. Acho que esse é um caso desesperado." Mas Sabah deverá recuperar: "Está queimada num braço e nas pernas."

As pernas não se vêem por estarem tapadas por um cobertor, enquanto ela continua a comer devagar.

"Chegou aqui de ambulância, trazida de outro hospital", conta Mograbi. "Lá, tinham-lhe limpado a pele e posto ligaduras. Ao fim de três horas aqui, quando tirámos as ligaduras para limpar, saía fumo das feridas e cheirava muito mal, a fósforo."

Sabah acabou de comer. O médico entra para ver se ela pode e quer falar. Ela diz que sim.
O braço queimado é o direito, e a mão tem crostas negras. Mas não é em si própria que está a pensar. "Tenho nove rapazes e uma rapariga. Agora perdi três rapazes e a minha filha." Diz a idade dos sobreviventes: "24, 22, 20, 18, 16, cinco." Os outros morreram com a mesma bomba que a queimou. "O meu marido também morreu. E a minha nora ficou negra, está no Egipto." Quantas pessoas estavam dentro de casa? "Éramos 16."

Aconteceu no segundo dia da guerra, pelas quatro da tarde, conta ela. "Atiraram uma bomba para cima de nós. Houve uma grande luz, depois um fumo muito branco que sufocava, e não me lembro de mais nada."

As bombas de fósforo branco são incendiárias. Podem ser lançadas pelos militares no terreno para iluminar ou criar um ecrã de fumo. Mas estão proibidas pela Quarta Convenção de Genebra quando lançadas em zonas com "concentrações de civis" onde os alvos militares não estão claramente separados. E são sempre proibidas se forem lançadas do ar.

Gaza - um milhão e meio de habitantes numa estreita faixa - é um dos lugares mais densamente povoados do mundo. Israel começou por negar que tivesse usado bombas de fósforo branco durante a guerra, mas perante diversos testemunhos e provas acabou por admitir que o usara, mas não de forma criminosa.

O Comité Internacional da Cruz Vermelha comprovou o uso de fósforo branco, está a recolher provas para depois discutir com as partes, e não adianta conclusões sobre se o uso foi ilegal.
Tanto a Amnistia Internacional como a Human Rights Watch comprovaram extensamente o uso de fósforo branco e consideram-no uma violação da Convenção de Genebra.

Quando o corpo humano é atingido por uma bomba de fósforo, a queimadura continua até ter oxigénio, por vezes até ao osso. É necessário tratá-la de forma diferente, mas, se os médicos não souberem, os tecidos continuam a ser queimados. Foi o que aconteceu com Sabah.

A família dela cultiva morangos. São agricultores e vivem em Atattra, uma zona do Norte de Gaza das mais atingidas pela guerra e densamente povoada: "Temos muitos vizinhos", diz Sabah. Os sobreviventes foram-lhe trazendo notícias do que aconteceu depois da explosão. "Os soldados israelitas ocuparam as casas e ficaram lá dentro. Estávamos em paz. Agora quem vai alimentar os meus filhos?"

Ainda cheira
O director da Unidade de Queimados, Nafez Abu Shaban, confia na recuperação de Sabah. "No braço são queimaduras profundas, até ao músculo, o que deverá afectar a mobilidade. Mas esperamos que volte a andar." Os casos mais graves com queimaduras destas foram transferidos através do Egipto. Restam dois neste hospital.

"Já não há qualquer dúvida de que se trata de fósforo branco", garante Shaban. "No princípio da guerra recebemos muitos casos de queimaduras e tratámo-los como queimaduras normais, alguns mandámo-los para casa. Mas dias mais tarde alguns voltaram com queimaduras muito profundas, brancas, e alguns morreram, apesar de inicialmente as queimaduras serem muito pequenas. Então começámos a levá-los para a sala de operações, para limpar as queimaduras, e encontrámos material estranho."

Shaban abre um saco de plástico e mostra uma matéria que parece areia com sangue. Sente-se um forte cheiro a fósforo. "Isto são amostras de tecido que retirámos."

Estas e outras amostras foram reencaminhadas para a administração do hospital, para serem reenviados para o estrangeiro. "Achamos que os israelitas estão a usar várias armas não convencionais, e por isso decidimos tirar amostras de qualquer ferimento estranho."

Mas quanto ao fósforo branco, Nafez Abu Shaban está seguro. "Percebemos só na última semana da guerra e muitos doentes morreram porque não sabíamos que era fósforo branco." Quantos doentes? "Não sabemos, porque parte deles terão morrido de ferimentos conjugados, mas presumo que centenas tenham sido queimados com fósforo branco."

E o mesmo pode ter acontecido ou estar a acontecer com feridos por outras armas. "Devia haver peritos internacionais aqui, porque não sabemos o que procurar. Armas tóxicas?, químicas?, radiações? Temos o direito de saber. É a primeira vez que temos tantas vítimas com feridas destas."

"Pelos relatórios, tenho a certeza de que é fósforo branco", diz a cirurgiã inglesa Sonia Robbins, que entrou em Gaza como activista de direitos humanos e veio falar com o director da Unidade de Queimados. "Mas é preciso prová-lo rapidamente", alerta, sublinhando que durante a guerra ninguém pôde entrar, nem documentar o que estava a acontecer. "O perigo é que os casos sejam negados antes de serem provados."

O novo explosivo
Quando a Unidade de Queimados percebeu que havia algo estranho, entraram em campo os cirurgiões.

Especializado em Edimburgo, o cirurgião-chefe Sobhi Skaik está a esta hora reunido com um colega que se especializou na Irlanda, e daqui a pouco vai juntar-se-lhes um cirurgião italiano que trabalha para a Cruz Vermelha. Tudo isto entre transferências de emergência para o Egipto e uma explosão que abanou todo o edifício do Al Shifa onde funciona a cirurgia.

"Tivemos várias pessoas atingidas com fósforo branco", garante Sobhi. "Com outras armas não convencionais também, mas definitivamente fósforo branco, não há dúvida."

O que o faz estar tão certo? "Por exemplo, um doente com queimaduras no corpo de diferentes profundidades, pele, músculos e osso. Isto é típico do fósforo. Continua a arder e a arder, em diferentes camadas do corpo. E há o cheio do fósforo a queimar, podíamos senti-lo."

Sem querer arriscar um número, este cirurgião fala em "centenas de casos" ao longo desta guerra. E vai mais longe: "Numa área de 100 metros quadrados em Gaza pode haver 200 pessoas. As áreas atacadas são densamente povoadas. Portanto, quando se usa fósforo branco em Gaza é criminoso."

Mas além do fósforo, fala no uso de DIME (Dense Inert Metal Explosive), um explosivo novo. O ferido chega com vários buraquinhos no tronco, que parecem ferimentos superficiais, mas em estado crítico. "Abrimos o abdómen e descobrimos muitos danos nos órgãos, perfurações nos intestinos, danos no fígado, sangramentos, e não conseguimos perceber o que está a causar aquilo. Depois de tentarmos reparar tudo, duas horas depois da operação, começa a sangrar e a sangrar, a ponto de não o conseguirmos ressuscitar."

Outro sinal de DIME é aparecerem muitos feridos com as duas pernas amputadas. "Eu vi dezenas", diz Sobhi.

O anestesista noruegês Mads Gilbert, que esteve a trabalhar com estes médicos do Al Shifa durante a guerra, confirma: "Vimos muitos casos indicativos de DIME e temos vários documentados", disse ao PÚBLICO, por telefone, da Noruega.

Gilbert esteve com o seu colega Erik Fosse em Gaza até 10 de Janeiro. Reconhecem o DIME pela "presença de extensas amputações e ferimentos do tamanho de ervilhas".

Mas "as mais importantes armas ilegais que Israel tem usado", remata Gilbert, "são o cerco, o bloqueio, e o bombardeamento indiscriminado de civis".

(publicado em 28 de Janeiro na edição impressa do Público)

Amnistia Internacional fala em crime de guerra

A investigadora que a Amnistia Internacional tem em Gaza não hesita em usar o termo "crime de guerra" quanto ao uso de fósforo branco por parte de Israel.

Donatella Rovera considera que "o extenso uso desta arma em bairros densamente povoados de Gaza é por inerência indiscriminado", lê-se num relatório sobre o fósforo branco. "O seu uso repetido desta maneira, apesar de provas dos seus efeitos indiscriminados e do seu peso em civis, é um crime de guerra."

As queimaduras de fósforo branco, que continuam, tecido a tecido, enquanto encontram oxigénio, não podem ser tratadas como as queimaduras normais. Para salvarem os feridos, os médicos têm de saber o que têm em mãos. O que aconteceu nos hospitais de Gaza, incluindo o maior, Al Shifa, foi que muitos feridos morreram por terem sido tratados como queimados normais.

O facto de as forças israelitas terem negado que usaram fósforo branco fez perder mais vidas, aponta a Amnistia. "Responsáveis israelitas disseram repetidamente que a sua operação militar era contra o Hamas, não contra as pessoas de Gaza", lembrou Donatella Rovera. "Não pode haver desculpa para continuar a subtrair informação vital para o tratamento eficaz de pessoas feridas pelos ataques. A falta de cooperação de Israel está a levar a mortes e sofrimento desnecessários."

Quando conseguiu entrar em Gaza, depois do fim da guerra, a Amnistia ainda encontrou bombas de fósforo a arder em diversos pontos.

E além de fósforo branco, "o exército israelita usou uma variedade de outras armas em áreas densamente povoadas", diz a organização. Um dos exemplos é o das flechas de 4 centímetros. Um obus de 120 mm pode conter 5000 a 8000 destas flechas. Quando o obus explode no ar, espalha as flechas num raio de 300 por 100 metros.

Estas armas, que Israel usa há anos, diz a Amnistia, "nunca deveriam ser usadas em áreas civis".

A.L.C.

(publicado em 28 de Janeiro na edição impressa do Público)

"Clara violação da Convenção de Genebra"

O uso de bombas de fósforo branco feito por Israel durante a guerra constitui "uma clara violação da Convenção de Genebra", disse ontem ao PÚBLICO Mark Galasco, o experiente investigador que a Human Rights Watch enviou com uma equipa para Gaza.

"Encontrámos inúmeras cápsulas de fósforo branco em áreas densamente povoadas", resume. "E encontrámos casas queimadas, civis com queimaduras graves, o hospital Al Quds que foi atingido por uma bomba de fósforo, uma escola da ONU..."

As provas, diz Galasco, tornaram-se "numerosas e inequívocas", ao ponto de Israel ser obrigado a admitir que usara fósforo branco. "Finalmente, depois de tanto tempo a avisá-los de que o perigo era tão grande, que podia continuar a matar pessoas."

Durante semanas Israel vedou a passagem de jornalistas e organizações internacionais. A Human Rights Watch entrou pelo Egipto, depois do fim da guerra. Tornou-se então claro, lê-se no site da organização, que a credibilidade das forças israelitas era uma das vítimas da guerra. E "o maior golpe", considera a Human Rights Watch, foi o caso do fósforo branco.

O que está por verificar é "se esta violação da Convenção de Genebra constitui um crime de guerra", diz Mark Galasco. Para haver crime de guerra, de acordo com este investigador, o ponto essencial é "que tem que ter havido intenção de atingir civis".

A Human Rights Watch apelara a uma investigação internacional das violações cometidas por Israel e pelo Hamas, e Galasco volta a sublinhar essa necessidade.

A.L.C.

(publicado em 28 de Janeiro na edição impressa do Público)

Jan 27, 2009

Diário Israel-Palestina 5

(© Olivier Laban-Mattei/AFP)


A enfermeira que esteve em Sabra e Chatila e está chocada com Gaza

Louise Norman ainda mal acredita que os israelitas a deixaram entrar em Gaza. Sexta-feira, quando finalmente o checkpoint abriu à circulação de jornalistas estrangeiros após semanas de bloqueio, esta enfermeira sueca tentou a sua sorte, sem levar sequer a escova de dentes. E de repente deu por si do outro lado, de volta a amigos que não via há anos, como o psiquiatra palestiniano Eyad Sarraj.

O quotidiano de Louise é em Estocolmo, onde trabalha entre um hospital e o resgate de emergência em helicóptero. Mas aos 55 anos, com quatro filhos já grandes, ofereceu-se para uma temporada em Hebron, uma das cidades palestinianas sempre mais tensas, devido à presença de colonos religiosos protegidos por soldados.

Segunda-feira lá estará, em Hebron, na Cisjordânia, mas até lá está a ver o que aconteceu em Gaza. Quando o PÚBLICO a encontrou, a primeira coisa que Louise disse foi: “Isto faz-me lembrar tanto Sabra e Chatila.”

Em Agosto de 1982, durante a invasão israelita do Líbano, Louise aterrou em Beirute para trabalhar com a igreja sueca no campo de refugiados de Sabra. “Fiquei até ao Natal.” O que significa que estava lá durante os três dias de Setembro em que o exército israelita, que cercava os campos de Sabra e Chatila, permitiu que as milícias cristãs libanesas entrassem e massacrassem centenas de palestinianos – os números são disputados até hoje, entre 800 e 3500.

Louise passou esses dias dentro do hospital de Sabra, que nessa altura por caso se chamava Gaza Hospital. Ouviu as metralhadoras e os gritos. Quando pôde sair, viu os cadáveres.

E aqui em Gaza, o que viu? “A destruição total. Algumas partes parecem ter sido derrubadas por um tremor de terra. Mas o que me lembra mais Sabra e Chatila é que aqui está uma população civil que não tem para onde ir. Estão cercados.”

Mais de 25 anos depois do que aconteceu no Líbano, diz Louise, não se avançou. “Estamos em 2009 e isto não devia acontecer. É uma vergonha para a humanidade. A pior coisa é sentir-me tão envergonhada de ser parte da dita comunidade internacional e ninguém parar isto.”

A.L.C., em Gaza

Eles perderam o mar durante 22 dias por causa da guerra


Pescadores na Cidade de Gaza: nas praias também há restos de guerra
(© Olivier Laban-Mattei/AFP)


Em Gaza, o mar pode estar aberto ou fechado. Na guerra, esteve fechado. Há quem tenha arriscado um tiro. Há quem tenha pescado um míssil
Reportagem

Amir estava num barco a remos quando o último dia da guerra amanheceu. "Não fomos para longe, só a alguns metros da costa, porque precisávamos de alimentar a família", conta, de braço ao peito e pés na água.

Gaza é uma estreita faixa ao longo do Mediterrâneo. Quem a quiser dominar, tem que dominar o mar. É o que Israel tem feito desde a retirada das tropas e dos colonos em 2005. E nesta guerra o mar foi uma frente vital.

Ainda ali continuam, todos esses navios israelitas, depois das três milhas permitidas aos pescadores, e as pessoas queixam-se de que, mesmo depois do cessar-fogo, eles continuam a disparar.

Mas quando Amir foi ferido faltavam horas para Israel declarar o cessar-fogo. "Éramos dois no barco. O outro levou um tiro no estômago e eu levei um tiro no braço." Este braço direito que está ligado e seguro com um lenço. "Sangrei muito. Tive que mergulhar e depois rastejar pela areia. Quando eles nos viram na água, fizeram explodir o barco." Amir tinha familiares na praia que o levaram ao hospital.

E aqui está, ao fim de mais uma noite de pesca. Neste pequeno porto artesanal, é hora de tirar os barcos da água, contar o peixe, desamaranhar as redes.

Não há barcos muito grandes, são quase todos barquinhos. Vão ali e voltam à pequena baía com restos de tudo na água e na areia, que ainda assim é um daqueles lugares onde Gaza parece, mais que possível, bela.

A pesca em Gaza é uma herança de família. O pai já era, e o pai do pai. Haverá mais de cinco mil pescadores, geralmente com famílias muito grandes, o que pode significar 50 mil pessoas dependentes.

E este número de filhos não é exagero.

Nem um tostão
Por exemplo, o veterano e barbudo Farouq, de 58 anos, tem 18 filhos, 10 raparigas e oito rapazes. Os rapazes trabalham todos com ele. Agora, feita a noite, arrumado o barco e a rede, comem-se uns peixinhos grelhados à beira de um bidão onde arde lume.

Janeiro é Inverno, mesmo no Mediterrâneo. Os homens aquecem-se na areia, enquanto vão metendo peixe no pão.

"Diz-lhe que isto é Hiroxima", grita Farouq para o intérprete do PÚBLICO, antes de qualquer pergunta sobre a guerra. "Eu fiquei completamente desligado do mundo. Não tinha um tostão, enquanto um saco de farinha custava 200 shekels [38 euros]. Durante 22 dias não pesquei. As bombas estavam tão perto que nem nos conseguíamos mexer dentro de casa. Ficámos como refugiados, cada filho meu com alguém da família ou nas escolas da ONU. Eu fui com os meus netos para o hospital Al Shifa, ficámos lá seis ou sete dias. Sem a ajuda da ONU, não estávamos vivos."

Estes homens trabalham do pôr-do-sol às dez da noite e das duas da manhã às seis. Vivem do que pescam.

"Mas o mar não é livre para pescarmos. Os israelitas só nos dão três milhas, uma distância em que mal se consegue." E é perigoso, com os navios de guerra? Farouq ri: "Não ouviu os tiros esta manhã? Eram os israelitas que estavam a disparar."

Esta zona a sul da Cidade de Gaza acordou com tiros, talvez ao longo de uma hora, mas mais para o interior era impossível saber de onde vinham. Os pescadores asseguram que vinha daqui.
"O cessar-fogo é só para os pobres", resume Farouq. "Eles disparam para os barcos. Todos os barcos tiveram que voltar logo quando começaram os tiros."

Um homem alto chamado Mohammed, de 43 anos e 10 filhos, acrescenta: "As pessoas aqui são trabalhadoras, pode ver por si, não há razão nenhuma para atirarem sobre nós."

Num bom dia, Farouq pesca 1000 shekels [190 euros] de peixe. "Mas quando tiro as despesas e divido o lucro fico com 40 [7,5 euros] ou 50 shekels [9,5 euros]."

E, durante a guerra, nada.

Um míssil na rede
Aos 39 anos, Yusef já vai em oito filhos. Acaba de sair de mais um turno na água, trazendo esta história. "Quando puxámos a rede, pelas seis da manhã, ela estava muito pesada." Mas não era peixe. "Vimos que uma parte estava cortada e depois encontrámos um míssil por explodir."

Os peritos que estão a avaliar o perigo das munições por detonar calculam que 10 por cento do que Israel disparou sobre Gaza não explodiu. Cerca de 20 mil casas danificadas ou destruídas ainda vão ter que ser examinadas. Em 2006, depois da guerra de Israel com o Líbano, morreram quase 300 pessoas por causa destas munições.

Mas, como Yusef comprovou, elas também existem no mar.

"Como sei que é perigoso, levei o míssil aos guardas lá fora", explica tão descontraído como provavelmente só alguém num sítio como Gaza poderia estar. "São os restos da guerra."

Depois voltou ao mar. Balanço da noite? "Três caixas com vários tipos de peixe." Descontando despesas, o lucro vai dar ao que Farouq dissera, menos de 10 euros.

"Trabalhamos sete dias por semana, desde que o mar esteja aberto."

É uma estranha expressão para quem vem das costas da Europa, onde o mar não está, é aberto. Mas em Gaza às vezes está fechado. Por exemplo, durante a guerra, ou quando Israel decide.

"Durante 22 dias, eu não pesquei", conta também Yusef. "Estávamos mesmo a viver como miseráveis. Não deixei a minha casa. Vivemos da ajuda. Há uma organização europeia de apoio aos pescadores que nos ajuda na metade do ano em que não pescamos, e aproveitámos essa ajuda. Tínhamos alguma comida, mas não tínhamos dinheiro para outras coisas. A maior parte da guerra bebemos chá com pão."

Mais para dentro da areia, três homens desemaranham uma rede finíssima sem sequer olharem para o que fazem, de tanto hábito. O mais novo, Munzar, de 24 anos, ainda só tem dois filhos.


"Desde criança que pesco com o meu pai. Quando andava na escola passava metade do tempo na escola e outra metade a pescar." Há quantas gerações anda a sua família nisto? "Que eu tenha visto com os meus olhos, desde o meu avô."

A família de Munzar tem cinco barcos, e todos ficaram em terra durante a guerra. "Não corremos riscos. E se nos dão três milhas não vamos mais longe que duas e meia. Podemos ser alvejados a qualquer momento e eles não precisam de razões."

De noite, quando nada se mexe e Gaza fica completamente às escuras, as únicas luzes ao longo da costa são as que os pescadores levam para os seus barcos, pontos luminosos ali onde não se vê, mas é o mar.

(publicado em 27 de Janeiro na edição impressa do Público)