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Feb 13, 2009

Brunch de shabat

Viagens com bolso
Crónica


Alexandra Lucas Coelho

Sábado acordei em casa da Lisa. Ela vive em Abu Tor, um bairro de fronteira, com casas antigas, conventos e pinheiros. Na rua dela é Jerusalém Ocidental.

Lisa é uma judia de Nova Iorque, do género de ficar enrolada numa manta a rir da campanha israelita na televisão mas não mais do que cinco minutos. Dos religiosos no espaço sideral, do partido dos pensionistas e daquele momento em que aparece uma cabeleireira a dizer: “Eu quero um homem.” Quer dizer, um homem no governo. E o que Lisa então diz, com cinco segundos de exasperação e um sotaque da rua 4 com a Broadway após mais de 25 anos em Israel, é: “Este país é tão atrasado!”

Nunca a vi perder o sentido de humor, nem aquela espécie de distância em relação a tudo o que não é mesmo importante para ela.

Entre as coisas importantes está escrever e traduzir. O escritório dá para um jardinzinho nas traseiras e tem um tecto tão alto que se fez uma mezanine. Passei muitas noites nesta casa com um cheiro doce, de flores, e aquela mezanine é a minha cama.

Então sábado Lisa ia a um “brunch” em casa de amigos e combinara levar-me. Era um bom passeio, saímos a pé.

Uma das coisas extraordinárias de Jerusalém é como se pode ir no meio da cidade e virando a esquina estar-se num vale dramático, com oliveiras, pinheiros e de repente um cânone de “muezzins” entre colinas, de minarete em minarete. E é “shabat”, os judeus religiosos empurram carrinhos de bebé, há anciãos de fato de treino com garrafas de água, e gente como nós, casaco à cintura porque está quente-quase-Verão, uma garrafa de vinho no bolso.

Abu Tor, Talpiyot, Arnona. Os amigos de Lisa moram numa casa de dois pisos com vista para o vale. Ela dá aulas numa escola de artes, ele é psicólogo. Têm três filhos, um deles soldado. Livros, peças antigas, algum “design”, tudo acolhedor.

Sentámo-nos no terraço a beber “bloody marys”, e era a paz.

Depois veio o “brunch”, sopa de couve-flor, beringelas com pasta de sésamo, pão, queijo, vinho, e começou a guerra.

Eu julgo ter visto em Gaza uma tal escala de violência que, além de 1300 mortos, dezenas de milhares de pessoas estão de luto ou sem abrigo – e não vi nada, porque não estive lá mesmo durante os bombardeamentos, talvez os primeiros alguma vez feitos sobre uma população que não tinha para onde fugir.

E aterro em Israel para passar um civilizado “brunch” a ouvir como toda a população do sul do país está traumatizada com os “rockets” que mataram três civis. Como Israel está a ser agredido pelo Hamas, pelo Hezzbolah, pelo Irão, por todo o mundo muçulmano. Como a Europa está cega porque não vê o que vai sofrer com os muçulmanos. Como Israel está sozinho, ameaçado e ainda assim é paciente e humanista. E como são desprezíveis os israelitas que levam na cara e querem paz, e quando o país estava em guerra não apoiaram o seu governo.

Então, após uma meia hora de batalha, a confecção da beringela pareceu-me fascinante e também falámos de sopas.

Mas eis senão quando Lisa resolveu contar que fora a uma grande manifestação contra a guerra em Telavive e uma miúda pró-guerra lhe tentara pregar uma rasteira. “Uma miúda! Eu podia ser mãe dela!”, dizia a minha amiga, com o seu sotaque da rua 4, perante o silêncio dos amigos.
E voltámos as duas pelo mesmo passeio a falar da vida, mas já sem vinho. Um peso a menos.

viagenscombolso@gmail.com

Jan 30, 2009

Viagens com bolso

Crónica

Al Zahra City, 6º andar

Não há correio em Gaza (obrigada a quem quis enviar pilhas e livros). Muitas moradas nem têm endereço. Para chegar a casa de Ayman, por exemplo, é assim: Al Zahra City, prédio da farmácia, 6º andar.

Al Zahra City não é uma cidade. É um conjunto de prédios que foi construído num terreno vazio a sul da Cidade de Gaza. Vazio porque o colonato israelita de Netzarim ficava ali perto, com os seus telhadinhos vermelhos, os seus barbecues e o seu arame farpado.

Quando os colonos saíram, à força e aos gritos, a construção avançou no baldio ao lado e dois anos depois Ayman mudou-se com a mulher, Heba, e as três filhas, Lulu, Mimi e Nunu, para um dos apartamentos no 6º andar por cima da farmácia.

Não é como se tudo já estivesse pronto a habitar, mas em Gaza é difícil as coisas parecerem prontas a habitar.

No prédio da farmácia, as escadas não têm vidros, o que no Inverno faz mesmo diferença, e é preciso subir pelas escadas porque o prédio não tem elevador. Velhos, crianças com mochilas, mães com bebés, toda a gente sobe a pé. E às escuras, sempre que não há electricidade e é de noite.

Durante a guerra foi como se fosse sempre de noite.

Durante 22 dias, Ayman e as meninas dormiram no chão da cozinha, o ponto mais interior. Logo no primeiro dia da guerra, o exército israelita fez explodir um edifício governamental entre os prédios de Al Zahra City e passou a haver um monte fumegante de ruínas a 200 metros da farmácia. Os vidros rebentaram nas janelas e foram encontrados bocados de corpos atrás do prédio de Ayman.

A partir daqui, Al Zahra City fechou-se em casa. Em alguns dias, Ayman e as meninas mal se levantavam do chão. Nunu, que só tem sete anos, escondia a cabeça na barriga do pai. Nenhuma delas gritou.

Um dia houve um “boom” no quarto de Ayman e Heba. Ela foi a correr e viu um buraco do tamanho de um punho ao lado da cabeceira. Ayman encontrou o projéctil no chão e mostrou-mo no dia em que eu cheguei. Achou que tinham tido sorte. Era só calibre 250 mm, quando podia ser calibre 800 mm, daqueles que atravessam várias paredes. Tem o tamanho da minha mão.

O outro “souvenir” de Ayman é mais pequeno, e curvo, como um bico de pássaro. Foi no primeiro dia em que ele teve mesmo de descer à rua, porque já não havia água. Quando desceu os seis andares e atravessou a porta sentiu o sol no corpo, ao fim de tantos dias. Aquilo foi tão forte que ele se sentou por um momento num tijolo à porta, virado para o sol. E foi então que ouviu um zumbido e um tijolo a partir-se. Quando abriu os olhos os vizinhos estavam a dizer que tinha sido um milagre. Apanhou a bala, meteu-a no bolso e levou água para cima.

Na segunda vez em que saiu, foi para sul em busca de comida, com mais três vizinhos para não ser tão assustador. Os palestinianos nunca dizem que têm medo. Ayman diz que tem medo mas posso lembrar-me de duas vezes em que, debaixo de fogo, ele simplesmente baixou a cabeça, mantendo as mãos no volante, e guiou firmemente dali para fora.

No dia em que cheguei a farmácia ainda não estava aberta e continuou fechada, mas já havia electricidade seis horas em cada 24, e na segunda noite voltou a Internet. As meninas prepararam as fardas às risquinhas e as golas de renda para irem à escola. Heba fez compota de laranja e de morango. Há um pequeno pomar em Al Zahra City, e os morangos de Gaza são mesmo bons.

(publicado na edição impressa de hoje do Ípsilon)